Todos querem viver eternamente, mas envelhecer… jamais

Tempo de Leitura: 4 minutos

Na série francesa “Ad Vitam”, num futuro não muito distante: “A mulher mais velha do mundo acabou de completar 169 anos”. Todos querem a imortalidade, sem envelhecer.


Em “Todos os Homens são Mortais”, a escritora francesa e filósofa existencial Simone Beauvoir (1983) descreve um personagem do século XIII, o conde Fosca, que atravessa o tempo e chega até nossos dias, questionando a ambição, o poder, a imortalidade, o prazer, o destino e a transcendência. A imortalidade do personagem principal “equivale a uma danação pura e simples”.

Ele está condenado a jamais compreender a verdade desse mundo finito: o absoluto de toda consciência efêmera. Ele se sente punido pela imortalidade que recebe, apesar de muito tê-la desejado pela vaidade e ambição ao poder.

Se eu pudesse navegar no tempo, perguntaria a autora: “Será que um dia os homens deixarão de ser mortais?”

É certo que ela diria: “quando essa hora chegar, darei graças por não estar mais no mundo dos vivos. Sinto que a finitude é uma necessidade da alma, um chamado do sagrado, o silêncio que prega a mensagem que de onde viemos para lá retornaremos. Onde seria exatamente isso? Não sei, aí que está o enigma”.

A questão é que mesmo cientes, de uma certa forma, de todas essas considerações existenciais, todos querem viver eternamente, mas envelhecer… jamais.

A discussão sobre o tema, há décadas, mobiliza a todos, incluindo o mundo das artes, como o cinema através dos curtas-metragens, longas e, agora, também as séries.

Sobre elas, trago aqui a francesa “Ad Vitam”, uma mescla de ficção científica sobre o desejo de vida eterna com drama existencial que trata de questionamentos filosóficos e éticos, tudo em 6 episódios de 50 minutos cada. Nessa série, num futuro não muito distante: “A mulher mais velha do mundo acabou de completar 169 anos. Um recorde humano. Esta noite, cerca de 4 bilhões de pessoas irão celebrar os seus aniversários. Isto traz esperança aos jovens. Você tem mil vidas para viver”.

imortalidade

Em “Ad Vitam” (direção: Thomas Cailley, Sébastien Mounier), a fonte da juventude é alcançada pelo processo da regeneração celular que exclui qualquer tipo de degradação física e mental, entendidos como mazelas do passado. Entretanto, a decisão cabe à própria pessoa. Pela cidade, espalham-se locais com o material apropriado para regenerar as células de todos os que assim o queiram, desde que tenham mais de 30 anos e passem nos testes para a vida eterna.

O centro da história gira em torno do policial Darius (interpretado por Yvan Attal), um homem de 120 anos, mas que aparenta ter cerca de 50. Ele investiga o aparecimento de um grupo de menores mortos à beira-mar, um ato que pode ter origem terrorista e político.

Para a maioria da população, a regeneração celular é um objetivo, já que elimina o fim a que todos estão fadados a enfrentar: a inevitável morte, e assim vivem eternamente.

Darius carrega seus próprios conflitos e, junta-se a ele, numa cruzada em busca de respostas, a jovem Christa (vivida por Garrance Marilier), uma rebelde suicida que clama por entendimento, por significado, por uma razão que faça sua vida ter sentido, uma vida que siga seu curso natural.

A ironia? Pois é, quando a morte deixa de ser um problema, os jovens passam a se suicidar em protesto – o que levanta inúmeras questões sobre a continuidade da raça humana.

Para Attal, “Ad Vitam” é atemporal. “O conflito do novo com os antigos ocorre em todas as gerações” e que em qualquer investigação policial, há uma busca pelo significado das coisas”.

A série é provocante quando decide apresentar um futuro onde a velhice deixa de ser um problema, a regeneração celular periódica nos transforma em protótipos do Conde Fosca, aquele que não adoece, que não sofre pelas fragilidades do corpo e da mente, aquele que vive muito além dos 100 anos de idade.

Mas deixo uma pergunta para refletirmos. Por que lutar contra a morte? Beltrina Côrte (2005, p. 255), citando o filósofo contemporâneo francês Jean Baudrillard, alerta para uma possibilidade do pensar inverso: “Cegamente, sonhamos em sobrepujar a morte por meio da imortalidade, quando o tempo todo a imortalidade é o mais terrível dos destinos possíveis”.

Nascer, viver, envelhecer e morrer. Cumpre-se o ciclo, não há como evitar, se assim não fosse, a dor seria imensa, ver as pessoas passarem, romper através dos séculos, viver eternamente, esta é uma imortalidade que não nos cabe, é uma vestimenta eterna e sofrida, e que assim seja, brindemos a nossa mortalidade!

Referências
Beauvoir, S. (1983). Todos os homens são mortais. (3ª ed.). Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
Côrte, B. (2005). Biotecnologia e longevidade: o envelhecimento como um problema solucionável? In: Côrte, B.; Mercadante, E. F. & Arcuri. I.G. (Orgs.). Velhice, envelhecimento. São Paulo: Vetor.


Curso a ser ministrado pelo Espaço Longeviver, na modalidade remota, pretende dar uma visão sobre quais são as grandes síndromes geriátricas e sua repercussão para a vida do idoso, de seus familiares e grupo social. Além de identificação de oportunidades de melhoria da qualidade de vida dos portadores. Inscrições em: https://edicoes.portaldoenvelhecimento.com.br/produto/curso-sindromes/

Luciana Helena Mussi

Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: lucianahelena@terra.com.br.

lucianamussi escreveu 68 postsVeja todos os posts de lucianamussi