“Tô Velho mas não Tô Morto”, compreendendo o envelhecimento

O esgarçamento dos vínculos sociais vem trazendo consequências notórias na vida psíquica das pessoas: um sentimento crescente de vazio, solidão, perda do sentido do viver. Mas há quem se deixe levar pela curiosidade, amizade, amor e uma pujante criatividade, nos permitindo compreender o envelhecimento.

Maria José Yoshida (*)


Se eu fosse me classificar para um grupo de atletas em diferentes níveis de experiência, me colocaria no grupo dos iniciantes no assunto Envelhecimento. Muito do que eu pensava sobre este tema foi completamente transformado ao longo destes últimos meses, e me coloca diante de perguntas novas. Minha intenção inicial de me conectar com a temática numa perspectiva mais acadêmica e científica para que eu pudesse ampliar minha visão foi muito importante, pois eu precisava ouvir e conhecer pessoas que estudam e vivenciam em seu trabalho as variadas formas de envelhecimento na atualidade.

A principal motivação que me levou a buscar informações sobre esta temática foi a ideia de criar um Grupo de Encontro de Idosos junto com uma colega, em dupla, afinal não dá para entrar no mercado do envelhecimento sem nenhum conhecimento da área. O atendimento teria como objetivo propiciar um espaço para um grupo de pessoas que estariam dispostas a pensar, conversar e trocar experiências sobre o envelhecer, seus tabus, medos, dúvidas e preconceitos, sempre com a perspectiva de possibilitar uma interação estimulante e que pudesse ser produtiva.

Esta ideia foi bastante enriquecida com as leituras e aulas que frequentei durante o Curso de Educação Continuada em Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento. Procurarei expor quais foram as implicações teóricas, literárias e vivências que contribuíram para uma nova perspectiva de abordagem sobre o tema do envelhecimento.

A experiência com os idosos de minha própria família, de outras de amigos mais próximos e de conhecidos há tempos me trazia preocupações: a constatação de que em festas, reuniões e até no cotidiano, o velho, em geral, vai ficando cada vez mais de “escanteio”, no sentido de não ser incluído nas conversas, não participar dos passeios das famílias, das viagens e decisões do grupo. Pode-se constatar isso em nossa sociedade com uma certa frequência, nos relatos e observações aos quais tenho tido alcance.

O envelhecimento foi aos poucos me despertando mais interesse e curiosidade, visto que convivo com alguns idosos em diferentes situações e que eles lidam com suas questões das mais variadas formas – desde os que seguem à risca a cartilha do envelhecimento ativo; os que são mais livres e seguem a vida como ela vai se apresentado e a partir disto, fazem suas escolhas; outros que ignoram completamente o envelhecimento e querem estar “sempre jovens”; outros que lidam com limitações um pouco mais severas de saúde e precisam de cuidadores, e assim por diante… As famílias lidam com seus idosos também de maneira muito diversificada e tudo isto é de grande interesse para mim, tanto em nível profissional quanto pessoalmente.

Pensamentos a partir de leituras do curso

Em seu livro “Tentativas de Fazer algo da Vida”, Hendrik Groen (2016), a partir de um diário que relata o dia a dia numa casa de longa permanência para idosos, na Holanda, relata de maneira autêntica e cheia de originalidade, muitas questões sobre a vida dos velhos, como são tratados, quais os recursos que lhes são oferecidos; que tipo de anseios o grupo manifesta, como lidam com os regulamentos. Enfim, é uma rica experiência que mostra os conflitos advindos de se estar envelhecendo em uma instituição de longa permanência. Vamos nos deparando na leitura com um senhor que traz uma série de questionamentos a partir do contato com sua própria subjetividade, seus desejos, curiosidades, amizades, amor e uma pujante criatividade que transforma o interior da vida de seu grupo de amigos: “Tô Velho mas não Tô Morto”.

Hendrik Groen em nenhum momento nega a realidade de alguns preconceitos sociais e mostra sem rodeios como a sociedade lida com o “desvanecimento” da figura do velho. No dia 25 de março, em seu diário:

Adolescentes também não aparecem por aqui com frequência, a não ser que sejam mais ou menos obrigados pelos pais a finalmente visitar de novo o vovô ou a vovó. Visitas por educação com conversas penosas. Adolescentes se sentem encabulados com pessoas idosas. Eles não entendem nada, ouvem mal, não têm computador, são lentas, não sabem nada de moda e música e só servem biscoitinhos. Outro Mundo.”

E a crítica a uma iniciativa que pode ser boa para quem a inventa, mas não agradar o “beneficiado” (dia 9 de maio, do mesmo diário):

Existe um projeto chamado ‘Passeando com a Vovó’. Crianças saem por um dia com a vovó completamente desconhecida que, de outra forma, passaria o dia inteiro sozinha em casa. Suponho que também possa ser um avô. Assim, meninos e meninas de onze ou doze anos iam com velhinhos visitar Madurodam, que foi restaurada. Correndo o risco de passar por um velho ranzinza e resmungão, eu diria: ‘Deixem-me tranquilo em casa’. Madurodam já não me parece grande coisa, mas passar horas em companhia de pirralhos de onze, doze anos, completamente desconhecidos, também pode ser decepcionante’… mais adiante no mesmo dia: O Jornal que deu destaque ao projeto Passeando com a Vovó também divulgou cifras chocantes do Gabinete Geral de Estatística: há na Holanda cerca de um milhão e meio de anciãos solitários, dos quais trezentos mil são extremamente sozinhos. São muitos.”

Como também pude apreciar no curso “Fragilidades na Velhice”, que trouxe um ponto de vista mais crítico sobre “Planos de Atividades” para grupos. No livro, Hendrik, em várias ocasiões, nos faz deparar com projetos para um determinado grupo, que não verifica ou não considera para quem e em qual condição se encontra a pessoa para quem foi direcionado; então cria-se algo para suprir a expectativa apenas de quem? De quem o criou, se não são consideradas as particularidades, os desejos e anseios dos indivíduos.

Sobre a solidão dos idosos, advinda por várias peculiaridades, podemos encontrar autores que estudam esta questão. O trabalho de Freitas (2011), “Solidão em Idosos – Percepção em Função da Rede Social”, assinala o seguinte:

O sofrimento dos mais idosos, provocado pelo sentimento de solidão, é considerado como uma das mais penosas e problemáticas a que se torna urgente responder. Este sentimento não acontece só em casos de vivências isoladas, mas também no seio das próprias famílias e em instituições, onde há, frequentemente, falta de comunicação, participação social e afetiva” (pp. 20-21).

Vemos cada vez menos interação social com o advento dos celulares, isto entre os próprios jovens, o que podemos dizer dos idosos? Muitos não se interessam pelos celulares, não incorporaram estas últimas “revoluções tecnológicas”. Claro que há exceções, os que têm seu Facebook, WhatsApp e tablets – mas eles ainda não são uma ferramenta principal de interação para os mais velhos. E assim como para eles (que não se deixam enganar pelo mundo virtual), para nós, profissionais que lidamos diretamente com as vidas das pessoas, o mundo das interações reais e significativas jamais deve ser através de uma máquina apenas!

Por isso concordo com o pensamento de Pimentel (2005, citado por Freitas, 2011, p. 31): “O individualismo e a forma impessoal como os indivíduos se relacionam tendem a enfraquecer as formas de sociabilidade ligadas a esta solidariedade”.

Este “esgarçamento” dos vínculos sociais oriundos de um individualismo encorajado pela política atual vem trazendo consequências notórias na vida psíquica das pessoas: um sentimento crescente de vazio, solidão, perda do sentido do viver e de pertencer a humanidade. Comprovo isto com minha observação a partir da experiência clínica, estas são as maiores queixas da atualidade, e como podemos ver nas estatísticas oficiais, a depressão vem crescendo de forma alarmante, em todas as idades.

No curso pude também constatar que a sociedade atual ainda preserva muitos preconceitos e visões segregadoras da velhice, que foram construídas com base em diversas dicotomias: saúde-doença, juventude – velhice, beleza – feiura, capacidade – invalidez, etc. Ao longo das aulas, também pude me defrontar com meus próprios “pré – conceitos” sobre a conceituação do que é a doença no envelhecimento e como as políticas do estado, voltadas para este público, muitas vezes normatizam condutas engessadas, fórmulas que se tornaram quase impositivas nas mentes dos que envelhecem, criando a sensação de culpa ou responsabilidade por não se ter atingido o “envelhecimento saudável e idealizado”.

A realidade do mundo do consumo da saúde a tornou um produto a ser adquirido, que não considera a enorme desigualdade social que vivemos no Brasil, tornando-se perversa no sentido de que a grande realidade da grande maioria dos velhos aposentados está bem distante de obter acesso justo e igualitário à saúde de forma democrática.

Em nossa cultura, se antes já havia um distanciamento – as diferenças culturais entre as gerações, a perda do papel central na família, a morte de contemporâneos (cônjuge, irmãos, amigos), o sentimento de não ter mais um papel social ligado ao trabalho com o advento da aposentadoria, o menor poder aquisitivo, o aparecimento de problemas de saúde que representam mudanças no nível corporal, temos um novo panorama social de interações humanas com as novas tecnologias. Como é a adaptação a tantas novas variáveis? Como se dá este processo que requer cuidado e um certo nível de autoconhecimento? Se o corpo já não é o mesmo; a mente pode continuar aproveitando e aprendendo por muito mais tempo agora, e na melhor das condições, como nos apresenta Hendrik, até o último sopro de vida.

As “redes sociais” como um importante fator de sustento psíquico para o Ser

Em sua tese, Freitas (2011) também apresenta o conceito de “rede social” e “rede de suporte (apoio) social”: “Rede social refere-se aos aspectos quantitativos e estruturais das relações humanas, enquanto que rede de suporte (apoio) social, refere-se ao aspecto qualitativo do apoio percebido, incluindo o conteúdo e avaliação das relações com outras pessoas significativas” (Monteiro e Neto, 2008, citado por Freitas, p. 29).

A importância de se ter este suporte de uma rede de apoio social ao longo da vida é estudada por diversos autores, como vemos na tese de Freitas. Fazemos parte de vários tipos de rede, formais e informais. Somos seres sociáveis e frequentamos desde cedo vários tipos de círculos sociais, começando pela família, escola; se for o caso, grupo religioso, grupos de esportes, de estudos, da faculdade, do trabalho, de lazer, etc.

Outro tipo de vínculo dos mais significativos são os que formamos ao longo da vida por um sentimento de amizade e empatia, por afinidade, por termos objetivos em comum, gostarmos de determinados tipos de assunto, preferências culturais, programas, atividades, etc. Este tipo de comunidade tem uma característica que é completamente diferente dos outros de ordem social porque neste entra o fator escolha. Escolhemos com quem queremos compartilhar de maneira especial o valioso tempo de nossas vidas, e este tipo de experiência é um importante aspecto, pois neste gênero de grupo estabelecem-se trocas afetivas e simbólicas, que são importantes fatores que promovem prazer, confiança em si mesmo, sentimento de solidariedade e ser útil ao próximo. É na presença do outro que me constituo como um ser singular.

A Psicologia do Desenvolvimento pode propiciar compreensões importantes sobre o envelhecimento. O psicanalista inglês D. W. Winnicott (1896-1971) em sua obra o Ambiente e os Processos de Maturação, de 1983, nos apresenta em sua teoria do amadurecimento pessoal, as fases de desenvolvimento do indivíduo: “Dependência Absoluta, Dependência Relativa e Rumo à Independência”.

Na primeira fase, o bebê experimenta as primeiras relações com o ambiente, a partir da interação com a mãe, que é experimentada como um prolongamento de seu ser, criada por ele mesmo em sua “ilusão de onipotência” e que atenderá a todas as suas necessidades e que lhe transmitirá segurança e afeto. Os cuidados maternos (holding) serão imprescindíveis para um crescimento saudável. Se for bem-sucedida esta primeira interação, o bebê se sente amado, acolhido, bem-vindo e cria a confiança básica para sua introdução ao mundo. Com o apoio do ambiente, cria-se a interação com o mundo e o aprender com as experiências. Gradativamente, introduz-se a relação com os outros membros: o pai, os avôs, irmãos, tios, amigos, os outros membros familiares e o círculo social mais imediato. “Da dependência absoluta”, à medida em que os cuidados e interações já começam a propiciar a percepção de que a mãe é um outro ser, caminha-se para a “dependência relativa”, e há uma crescente consciência de que a mãe se ausenta, mas volta, a cognição já permite novos aprendizados não só com a dupla mãe-bebê, mas com objetos e outras pessoas. Começa então o que Winnicott chama de “Rumo à Independência”, a busca pela autonomia e a Independência que se prolongará na infância, adolescência e até na fase adulta, mas sem se atingir uma absoluta independência, pois sempre haverá um grau de dependência dos outros como seres sociáveis.

Uma sociedade que aceite os aspectos de dependência de todo ser humano poderá lidar de maneira mais saudável com o envelhecimento no que concerne temas ligados às necessidades de apoio, cuidado e possíveis crescentes dependências do idoso.

Perspectivas renovadoras daqui para diante!

Neste momento procuro integrar e criar relações construtivas entre a minha experiência pessoal, profissional e toda importante gama de assuntos apresentados no curso “Fragilidades da Velhice”.

O crescente aumento do número de anos vividos pelas pessoas, chegando a oitenta, noventa e até 100, exige um olhar especial para a situação do ponto de vista psíquico e social. A relevância dos estudos sobre Gerontologia tornou-se primordial e muito já contribui para a formação de profissionais da Saúde, Educação e outras áreas, e além disto pode colaborar para a conscientização da população sobre o que é o Envelhecimento.

Ao longo da permanente construção de um trabalho na clínica com os pacientes, a partir do ponto de vista da psicanálise, percorri vários autores em grupos de estudos com ênfase nos psicanalistas Wilfried Bion (1897-1979) e D. W. Winnicott (1896-1971), ambos se revelaram como criadores de novos vértices de trabalho, como sustento teórico e dinâmico para minha prática cotidiana, sempre atenta às peculiaridades, história de vida e dinâmicas psíquicas próprias de cada pessoa. 

Com a riqueza da apresentação de conteúdos sobre o envelhecimento e suas implicações psicossociais que abrangem o tema, amplia-se a possibilidade de realizar transformações em minhas observações clínicas. Pensando na enorme diversidade de situações da experiência que descobri no livro de Hendrik Groen, sobre como ele e cada amigo de seu grupo vivencia seu envelhecimento, seus medos e angústias com relação ao futuro, as fantasias sobre a morte e as reações às doenças que surgem, a curiosidade sempre presente em suas mentes, a forma como lidam e encaram a realidade e como criam uma rede de suporte para eles mesmos é inspirador.

Conecto a experiência do grupo “Tô velho mas não tô morto” do livro “Tentativas de Fazer Algo da Vida” com a evidência teórica da importância de se ter várias formas de “redes de suporte (apoio) social”. Pertencer a uma pequena comunidade de pessoas que têm afinidades, interesses e objetivos em comum, bem como a amizade e vínculos de confiança foram a base para que surgisse toda a criatividade e ousadia do grupo. Mesmo com a idade avançada em termos cronológicos, os integrantes não deixaram de buscar uma vida que valesse a pena, solidários nas buscas inteligentes de se ajudarem nas dificuldades e originais na criação de programas, passeios e atividades inusitadas, prazeres renovadores. Uma leitura inspiradora!

Pensar de uma maneira nova sobre o que é o envelhecimento e suas múltiplas possibilidades de vivenciá-lo foi libertador para mim e expandiu significativamente as perspectivas de trabalho no projeto de criação de Grupos de Encontros de Idosos.

Referências

FREITAS, Patrícia da Conceição Barbosa de. Solidão em Idosos. Percepção em função da Rede Social. Braga: Trabalho apresentado na Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Sociais, 2011.
GROEN, Hendrik. Tentativas de Fazer Algo da Vida. São Paulo: Planeta, 2016.
WINNICOTT, D. W. O Ambiente e os Processos de Maturação: Estudos sobre a Teoria do Desenvolvimento Emocional. Porto Alegre: Artes Médicas, 1983.

(*) Maria José Yoshida – Psicóloga, formada pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo em 1995. Trabalhou na área da Educação de 2000 a 2005 em escolas privadas e pública. Atua como psicóloga clínica com orientação psicanalítica desde 2003, no INEF – Instituto de Estudos e Orientação da Família, onde é vice-presidente. Texto escrito para o Curso de Educação Continuada em Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, no primeiro semestre de 2019. E-mail: mariajoseyoshida@gmail.com.


O curso Violências contra a pessoa idosa abordará vários tipos de violências, entre elas: iatrogenia, violência institucional, doméstica, econômica e de consumo, entre outras. Saiba mais e garanta sua vaga em: https://edicoes.portaldoenvelhecimento.com.br/produto/cursos-violencias-contra-idosos/

Portal do Envelhecimento

Portal do Envelhecimento

Redação Portal do Envelhecimento

portal-do-envelhecimento escreveu 2642 postsVeja todos os posts de portal-do-envelhecimento