Tipo Caracol

Leitora assídua do Portal do Envelhecimento fica entre os 25 cronistas selecionados em concurso nacional com a crônica intitulada “Tipo Caracol”, a qual publicamos na íntegra.


A crônica a seguir foi encaminhada por Teresa Cunha, nossa leitora assídua. Segundo ela, a crônica foi selecionada entre as 25 melhores do concurso de Crônicas para pessoas acima de 60 anos, realizado em 2018, pela Secretaria Nacional de Direitos Humanos, e que contou com mais de 340 participantes. O tema foi Memórias do Lugar onde eu vivo. Nas palavras de Teresa:

O concurso foi divulgado pelo Portal do Envelhecimento, ao qual tenho acesso diário via email, e que me entusiasmo em ler por trazer assuntos que me interessam demais. Graças a vocês e à divulgação realizada, pude participar do concurso e ser escolhida. Como prêmio, os 25 participantes ganharam a viagem a Brasília, menção honrosa e, os três primeiros, prêmio em dinheiro. Nossas crônicas fizeram parte de um livro, o que foi uma honra para todos nós.”


Teresa Cunha (*)

A minha casa eu levo comigo como os caracóis carregam suas conchas enquanto andam devagar pelos jardins. Eles procuram abrigo para resguardar seus filhotes; eu preencho meus dias com lembranças. É bom ser tipo caracol. A gente não precisa fincar os pés em lugar nenhum, estacionar no tempo e se perder nas memórias enquanto o mundo anda pra frente.

Trago comigo as mulheres que me ensinaram a ser forte. Tias por todo lado. Algumas eram quase centenárias quando decidiram que estava na hora de se recolher às próprias conchas. Minha mãe fugiu do destino atrás dos balcões das lojas para ensinar o alfabeto e suas infinitas combinações! Por sua causa, um dos meus cheiros preferidos é dos livros amarelados nas estantes.

Enquanto fui jovem, carreguei dentro da concha a ânsia de conhecer o mundo. Meu avô fugiu das guerras e veio fabricar grades no interior do Brasil. Meus tios não gostavam de se sentir presos, e descobriram na boemia, que os levava de bar em bar, um jeito de viajar rumo ao desconhecido.

E lá estava eu. Tataraneta, bisneta, neta de homens e mulheres em cujas veias corria o sangue europeu, negro e platino, fui viver minhas aventuras numa época em que o mundo começava a aceitar, timidamente, a presença feminina. “Vai, Carlos, ser ‘gauche’ na vida!”, disse o poeta, e, na ressonância de seu imperioso apelo, me ordenei: ‘Vai, Teresa, ser gauche na vida!”

Foi assim que aos 14 anos decidi que teria filhos, mas não casaria, que o mundo seria meu lar, que escrever era minha vocação e os livros o meu alimento, e que um jeans, uma camiseta e um par de tênis me bastariam para ser eu mesma.

Dizem que Deus criou o Homem e a Mulher porque se sentia só. Eu criei o Filho e a Filha para entregá-los a Deus. “Dá-lhes sabedoria para diferenciarem o certo do errado; um coração amoroso para não cometerem injustiças; o espírito livre para decidirem seu futuro e a fé em Teu sagrado amor para enfrentarem a noite escura que, em algum momento, há de envolvê-los”, eu Lhe pedi.

Na rede de memórias deste lugar, que chamo de minha vida, fui tecendo as tramas com fios do passado e desejos do presente. Lá estava a menina por trás dos óculos, enroscada no sofá, livros e mais livros devorados como se fossem a tão esperada sobremesa do almoço de domingo! Passeios solitários pela cidade, horas no banco da praça, livros e mais livros devorados como se a vida fosse acabar quando as histórias terminassem.

Desde que me lembro, a solidão foi minha fiel companheira e confidente. Ainda hoje, é no seu colo que deito a cabeça para embalar aquela menininha vesga que trocava as bonecas e a bicicleta pelas heroínas dos contos de fadas e os gibis do Fantasma e do Super Homem.

Que incríveis as personagens que enfrentavam madrastas e não sucumbiam à barba azul de seus tiranos! Igual a elas, também quis ser heroína de meu destino. Na cartilha onde aprendi a soletrar mu-lher, di-rei-tos, ci-da-da-ni-a, i-gual-da-de, jus-ti-ça, fui somando sinônimos: desafios, coragem, envelhecer com dignidade, alegria, felicidade.

Ainda bem que conhecia essas palavras! Hoje, a injustiça é veloz, e o mundo desigual. Estou velha, num universo de milhões de velhos, cujo futuro é uma estatística. Do outro lado da rua, alguém vive no silêncio de uma solidão compulsória. Alguém perdeu suas memórias na cama de um asilo. A alegria se foi dos olhos dela, quando se viu presa num corpo que não reconhecia. Arroxeadas, as marcas sinalizam a dor do abandono.

Respiro fundo, porque preciso prosseguir. A missão, agora, é cuidar de quem perdeu as forças, antes que eu também precise que cuidem de mim.

Em 1957, a denúncia visionária dos versos de Cecília Meireles, já apontava o drama de quem envelhece: 

Como se morre de velhice/ou de acidente ou de doença,/morro, Senhor, de indiferença./Da indiferença deste mundo/onde o que se sente e se pensa/não tem eco, na ausência imensa./Na ausência, areia movediça/onde se escreve igual sentença/para o que é vencido e o que vença./Salva-me, Senhor, do horizonte/sem estímulo ou recompensa/onde o amor equivale à ofensa./De boca amarga e de alma triste/sinto a minha própria presença/num céu de loucura suspensa./ (Já não se morre de velhice/nem de acidente nem de doença,/mas, Senhor, só de indiferença.)

Nos últimos tempos, a minha casa vai parecendo com a do joão-de-barro, feita de terra molhada, amalgamada pelas mãos carregadas de lembranças. Como o joão-de-barro, busco um canto abrigado da chuva, do vento e do calor intenso. Do mundo, já vi mais do que pretendia. Se antes havia ohs! de espanto em meu olhar, hoje o que me mantém atenta são as dores alheias que não consigo acalmar. “Agradeçam a Deus por tudo que vocês têm de bom!”, exclamou a professora com um sorriso. Mas Deus sabe o que penso sobre esses agradecimentos…

Igual ao pai sento-me no alpendre da casa e ouço o silêncio. De vez em quando, um bem-te-vi canta, uma alma-de-gato me espanta, um cachorro late à distância.

Se um dia escrever um testamento, direi: “entreguei ao mundo um homem e uma mulher honestos e trabalhadores, que nunca me envergonharam. Amei cada pedaço de vida que me foi entregue, e sofri, desesperadamente, pela impossibilidade de mudar um único destino. Amei o silêncio porque me ensinou a ouvir minha própria voz e me rodeei da natureza e dos cães para ser amada sem precisar mudar o que sou. Peguem minhas cinzas e façam delas o que quiserem. Adubo para as plantas, névoa por sobre a lagoa, lembrança na estante da sala. O que importa é que me guardem no coração, como alguém que não teve medo de morrer, mas muita tristeza de deixar de viver”.

(*) Teresa Cunha é natural de Pelotas, Rio Grande do Sul, jornalista por 40 anos, aposentada, e atualmente, cuidadora de idosos, depois de realizar curso no  Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-riograndense, localizado em sua cidade, com recursos do Ministério da Educação. Após o curso, Teresa decidiu se dedicar às atividades de estimulação cognitiva, e hoje trabalha com duas senhoras que têm mostrado mais alegria e vontade de participar da vida em família e na comunidade.


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