Tempos que se encontram

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Walter, solitário professor universitário, tem 62 anos e já não encontra prazer na vida. Ao viajar a Nova York para uma conferência, encontra o casal Tarek e Zainab, imigrantes sem documentos, morando em seu apartamento. Eles não têm para onde ir, e Walter acaba deixando que fiquem.


“Na verdade, o inacabamento do ser humano ou sua inconclusão é próprio da experiência vital. Onde há vida há inacabamento.” (Paulo Freire)


Palavras, onde estarão? Por que o abandono? Qual parte se perdeu? E esse silêncio? Vem do mundo ou de algum canto que sempre temi existir? Será novamente o vazio da existência que em tempos tão sombrios, negacionistas e arrogantes insiste em nos derrotar? Alguém aí tem a chave de pandora? Ou os olhos que bem sabem iluminar o caminho da escuridão da noite? A lamparina, que tanto ajuda na trilha, a quem pertence?

O mitólogo Joseph Campbell argumentava que a trilha, se é que possamos usar a palavra, não passa pela procura sobre o sentido da vida. Se assim o fosse, bastava apenas preencher os vazios, eliminar os maus, reforçar os bons, encontrar o paraíso e, num passe de mágica, tudo se acomodaria.

Não. A essência, o que está no âmago de todas as coisas é sentir na carne, leia-se na própria existência, não apenas no espírito, a experiência de estar vivo, é fazer reverberar no outro a emoção, a ética e a generosidade de todos nós.

“Tempos que se encontram”, pertence a você, o título é “seu”, a todos esses escritores da liberdade, professores que lutam diariamente por seus alunos, desde os pequeninos até aqueles já adultos, como eu, que retornam para os bancos escolares em busca do conhecimento das coisas, do compartilhar de sentimentos, das dores e alegrias, indignações e contentamentos.

Fagulhas ou grandes atos, o que importa? Essa é a verdadeira experiência, é o enlevo de estar vivo: pelo outro, pelos outros, por você.

E assim, como sempre me agrada demais, dou um pulinho lá no túnel do tempo, no cantinho que acolhe, na matéria do curso do tempo, e trago nosso Walter, professor universitário do filme “O visitante”.

Exemplo de compaixão e solidariedade, a história retrata o desprender-se de um homem das suas próprias angústias, de um longo processo de autoconhecimento centrado nas necessidades daqueles que precisam de atos e ações efetivas, de troca, de ressonância.

Esse é o nosso professor, Walter Vale (Richard Jenkins). Será mais um que padece da dor, do luto, do cansaço, da falta de sentido? E… o que seria exatamente isso?

Isso se expressa no tudo e no nada da vida que leva, da mesmice do emprego, do espaço imenso em que apenas habita, talvez no insuportável da própria existência.

Tendo que conviver com a “presença” da perda real, vivida pelo falecimento da esposa, uma pianista de sucesso, e a certeza da ausência de um filho distante, Walter segue sua rotina na paleta cinza dos dias, cumprindo deveres e obrigações, como a viagem à Nova York para participar de um seminário, como representante da universidade onde trabalha.

Mas vejam, ao chegar lá Walter se depara com um casal de imigrantes, Tarek e Zainab (Síria, Senegal), morando no apartamento que mantém na cidade. Surpresas a parte, constrangimentos esclarecidos, ou supostamente compreendidos, desculpas trocadas, os “estranhos” e suas histórias se preparam para ir embora.

Então, a vida tem lá suas ironias. Quem poderia imaginar que a intensa perspectiva da solidão, velha conhecida do professor, faria com que ele os convidasse a permanecer e, aos poucos, os mundos dos diferentes se encontrariam em uma perfeita nota só.

Terá sido a melancolia? Ou o amor? A foto apaixonada do jovem casal estampada num porta-retrato esquecido?

Bem, tudo passa pela mescla – desejo de vida e medo do ser só – essa mistura um tanto explosiva, incompreensível pela mente racional. “O visitante”, foi a chance que Walter deu ao outro, à vida, à arte simbolizada na música de Tarek, o “djembê”, a batida do tambor africano “um, dois, três…”.

Os novos toques, cores, ritmos, anunciam uma relação delicada, singela, sincera, genuína e inesperada.

Penso que a presença de Deus está nas surpresas, esconde-se nos olhares, abriga-se nos atos e acaba cumprindo seu propósito na esperança de bons ventos e encontros abençoados. É a mais pura nutrição da alma: esses são os tempos que se encontram.

Na entrada da porta da casa de Carl Gustav Jung, em Küsnach (Suiça), há uma citação latina que significa “Invocado ou não, o Deus aparece”.

E as palavras, surpreendentemente, antes ausentes, voltaram…

Referências
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz & Terra, 2019.

Fotos: Divulgação


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Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: [email protected]

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