Tempo nas mãos

O que vem a ser a velhice, suas representações na cultura, no tempo atual e qual impacto esse imaginário gera em nosso viver?

Silmara Simmelink (*)

 

De quem é essa mão?

Foi separando algumas fotos de uma oficina que realizo com grupos idosos que tive essa dúvida ao ver uma foto, mas algo me pareceu familiar, a cor do esmalte que costumo usar. Opa! Essa é a minha mão! Mas ela está com marcas. Estão enrugadas. Foi assim que tive contato com o meu processo de envelhecimento. A notícia que eu estou envelhecendo surge nesse momento e com ela diversas indagações. Agora não era o envelhecimento do outro, mas o meu.

Nas leituras e nos trabalhos que desenvolvo com os grupos de idosos, ela estava lá e percebi nesse instante que a velhice não pode estar apartada de mim. Discutir bilateralmente faz parte da minha inclusão nesse processo. Foi aí que me dei conta que já estava acontecendo.

Há diversos autores que citam que o envelhecimento começa desde a concepção do ser. Para Neri (2004), o envelhecimento é um processo e a velhice uma fase de vida. O envelhecimento não ocorre igualmente para todos. A genética, o estilo de vida e as reservas psíquicas contribuem para as transformações que serão individuais. São diversas velhices, cada um com a sua.

Falamos aqui da singularidade do sujeito, da minha velhice.

Mas por que a mão me parecia desconhecida num primeiro momento? Recorri à psicanálise e daí surge uma resposta inconsciente – seria um mecanismo de defesa de negação e de projeção. Como se a mão vista na foto fosse da idosa que acompanho.

Mas como não reconhecer parte do próprio corpo? Para Freud o que ocorre é uma alienação, algo recalcado, a mão não era algo novo ao meu conhecimento e sim, familiar (Freud, O “Estranho” 1919/2006 p. 258).

Em processo analítico, surgiu à minha consciência a réplica de que recalquei o meu amadurecimento. O luto da juventude estava em elaboração, o início da caminhada rumo ao desconhecido, um chamado ao ingresso na segunda metade da vida.

Esse chamado me ocorreu aos 40 anos, período em que a Psicologia junguiana dita a meia idade, podendo iniciar na faixa dos 35 a 40 anos. Para Carl Gustav Jung, esse processo é o de individuação, um encontro para o autoconhecimento, integração da personalidade. Contrário do individualismo, trata-se de uma trajetória psíquica que poderá conduzir o indivíduo à sua totalidade e, assim, a se relacionar consigo e com o mundo de uma forma melhor, tornando-se uma resposta a si mesmo.

Este processo pode ter como prelúdio um evento externo ou um conflito interno. É uma viagem mais profunda na própria história de vida, com a possibilidade de aproximação aos conteúdos inconscientes e conscientes, oportunidade de reconhecer as próprias sombras e as luzes, rever valores e mudar alguns papéis sociais.

Esses papéis, ainda na visão de Jung, são denominados como personas, conforme descrito a seguir:

Ao analisarmos a persona, dissolvemos a máscara e descobrimos que, aparentando ser individual, ela é no fundo coletiva; em outras palavras, a persona não passa de uma máscara da psique coletiva. No fundo, nada tem de real; ela representa um compromisso entre o indivíduo e a sociedade, acerca daquilo que alguém parece ser: nome, título, ocupação. De certo modo, tais dados são reais, mas em relação à individualidade essencial da pessoa, representam apenas algo secundário, uma vez que resultam do compromisso no qual outros podem ter uma quota maior que a do indivíduo em questão. A persona é uma aparência, uma realidade bidimensional como se poderia designá-la ironicamente”. (Jung, vol. 7, § 246)

Como beira o início, o processo que está começando pode ser longo a ponto de durar uma vida – ou não, mas trata-se de um possível encontro rumo ao Self – quem realmente sou.

O ponto principal para nossa reflexão é entender as oportunidades que nos aguardam na segunda metade da vida, assim como as possibilidades de alcançar a totalidade do eu, o que pode resultar na potência e na criatividade do ser.

Para elaborar e me identificar com o meu processo de envelhecimento preciso entender o contexto social em que estou, de como a cultura presente acolhe o velho, de que forma estou influenciando e, sendo influenciada pelo imaginário social – construído com práticas e discursos, de que forma ele nos rege.

Mas, o que vem a ser a velhice, suas representações na cultura, no tempo atual e qual impacto esse imaginário gera em nosso viver?

Essa é uma pergunta que pode nos levar a diversas ramificações de resposta, como por exemplo: se lidamos com os avanços da tecnologia; se existe a valorização da última geração; se o produto novo e se o antigo é obsoleto.

O conjunto desses conceitos pode direcionar-nos a um olhar para o outro como um sujeito ultrapassado. Perdas e doenças relacionadas à velhice tornam-na indesejada e incentivam a ilusão do desejo em se manter jovem ou o desejo de adiar essa fase.

Assume-se a velhice como um fim, como se os planos e conquistas não fizessem mais parte dessa nova etapa. Exclui-se o amor, sexo, trabalho e um lugar ativo na sociedade.

Muitas vezes unificamos o significado das palavras juventude e vitalidade. Em alguns dicionários a vitalidade é a capacidade de viver e de se desenvolver; força vital; vigor. Já a juventude é um período da vida do ser humano compreendido entre a infância e o desenvolvimento pleno de seu organismo.

Necessitamos de uma reflexão, a começar com a construção da palavra, rever o dito: velho, idoso, maduro ou terceira idade. Optamos por qual delas?

Idoso e palavras afins representam a domesticação da velhice pela língua, a domesticação que já se dá no lugar destinado a eles numa sociedade em que, como disse alguém, ‘nasce-se adolescente e morre-se adolescente’, Velho é uma conquista. Idoso é uma rendição”. (Eliane Brum, “Me chamem de velha”).

Se a fase é velhice e estou dentro dela, logo sou velha! Posso me reconhecer como legalmente descrito no estatuto, a partir dos 60 anos. Me reconheço como pertencente a esse grupo, faço valer meus direitos e cada vez mais dou visibilidade para as políticas públicas.

Temos também a construção da velhice como algo próximo à morte. Em “Velhice pra que te quero?”, Jorge Forbes em sua palestra cita o filósofo Martin Heidegger (1889-1976), “um minuto de vida é o suficiente para morrer”.

Na novela “Deus Salve o Rei”, a bruxa Brice já centenária, se configura em uma bela jovem que, para manter essa aparência, procura homens mais jovens para que em um beijo, sua juventude possa ser recuperada. É isso que a mantém viva, deixando o homem que recebeu o beijo, com a aparência de velho, sugando juventude. Vemos nesse contexto a questão do velho próximo da morte, a valorização da beleza e a busca da vitalidade sendo retirada do jovem.

No entanto, ao se olhar no espelho Brice tem a sua aparência de velha ressurgindo como sua real imagem, o que nos remete também a um enfrentamento do real e da fantasia.

Um paralelo a esta metáfora da personagem, poderia ser o uso de artifícios para mascarar as rugas das mãos e continuar a negação a este processo. Porém, as marcas estarão em minhas mãos sempre e carregam nelas um forte significado. Afinal, não há um corpo sem um sujeito em sua essência. Cada marca é um registro de minhas vivências e da construção da minha identidade.

Não há receitas, fórmulas ou modelos a serem seguidos, pois cada velhice está baseada em uma única história e em sua singularidade.

Ponderando, o que tenho em meu processo de envelhecimento é de autoanálise: O que busco para viver mais? O que de fato faz sentido para minha vida? O quanto as respostas dadas estão se encaixando no imaginário social ou estão mais próximas do meu eu?

Esse é um exercício diário, em alguns momentos se faz necessário desconstruir para construir novos padrões, significados, um jeito de ser e estar em que a essência possa se fazer mais presente.

Somos relacionais e essa interação se baseia em boas trocas e acordos, não cabendo apenas unicamente à busca pela adequação, mas ao que “eu” posso ter em ressonância interna com o mundo externo.

 

(*) Silmara Simmelink – Psicóloga graduada pela Universidade São Judas Tadeu, especialista em gerontologia pelo Albert Einstein. Atua em clínica com abordagem psicanalítica e desenvolve oficinas terapêuticas com grupos de idosos. Texto escrito para o curso Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento, ministrado pelo Cogeae (PUC-SP), no primeiro semestre de 2018. Email: silmara@psicologiadaleveza.com

Foto de JORGE LOPEZ

Portal do Envelhecimento

Portal do Envelhecimento

Redação Portal do Envelhecimento

portal-do-envelhecimento escreveu 2499 postsVeja todos os posts de portal-do-envelhecimento