Tempo de necropolítica: retorno à Narayama?

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Estamos no século XXI e nos deparamos em uma realidade parecida com a do filme A balada de Narayama, como a fome e a miséria extrema. Qual o lugar da velhice nesta perspectiva?

Adriana de Oliveira Alcântara (*)


A história japonesa nos conta que, em seu contexto feudal, o sustento da comunidade era extremamente difícil, refletido numa contínua privação de alimentos, então, com o fim de garantir a sobrevivência dos que ainda não eram inúteis, a solução foi a prática de eleger as pessoas a partir de 70 anos de idade, consideradas excedentes, a irem ao Monte Narayama, se isolarem para aguardarem a morte, tal como é abordado no filme A balada de Narayama (1958), sobre o abandono dos idosos na montanha.

Lamentavelmente, este cenário de escassez não ficou no passado. Estamos no século XXI e nos deparamos com a fome, a miséria mais extrema, embora exista uma produção farta e progresso tecnológico num mundo de sobrantes, onde a humanidade de uma pessoa é dissipada frente a um poder que enuncia “quem pode viver e quem deve morrer”, conforme reflete Mbembe acerca da necropolítica, ao analisar a política como guerra, uma forma de exercer o direito de matar. Qual o lugar da velhice nesta perspectiva?

Recentemente, o Ministro da Economia, Paulo Guedes, reclamou do aumento da expectativa de vida da população brasileira, dado este apontado como uma grande conquista e avanço da medicina, contudo, pelo olhar do Deus mercado “a longevidade é insustentável aos cofres públicos”. O ministro que já é velho, critica que “todo mundo quer viver 100 anos”.  Quem é “todo mundo”? Evidentemente não seriam aqueles que, como ele se incluem na “melhor idade”. Ou seja, uma minoria cuja velhice é mais favorecida, tendo em vista os aparatos disponíveis como alimentação saudável, turismo para a “terceira idade”, assistência médica, apesar das limitações biológicas, mas a pior restrição é a social, a qual atravessa a classe trabalhadora, privada das necessidades mais básicas e impedida de uma vida digna.

Daí urge uma resistência à velhofobia, preconceito em relação à velhice, legitimado por um projeto societário que valoriza a rentabilidade econômica em detrimento do ser humano, especialmente a população idosa, responsabilizada incessantemente pela devastação do sistema econômico público. É inadmissível e perverso o nível discursivo do “peso econômico, uma grande falácia!

Na contramão da proposta da ONU – Uma sociedade para todas as idades, o senhor Guedes constrange e desrespeita velhos e velhas da classe trabalhadora e, mediante tal ofensa, é imperativo nos colocarmos como sujeitos engajados politicamente, na direção da  coletividade, como bem nos ensinou Milton Santos, isto é, de maneira a enfrentar a não política, aquela realizada pelas empresas, especialmente as maiores, pelo intermédio do Estado que, hoje, intenciona um tempo de vencimento para a velhice improdutiva e, portanto, o destino que  lhes reserva é Narayama.

Porém, lutemos, cantando com Arnaldo Antunes: Não quero morrer, pois quero ver como será que deve ser envelhecer e ainda nos inspirando nas tradições africanas em que a ancianidade é vista como um vir a ser, um caminho para nos aperfeiçoarmos.

(*) Adriana de Oliveira Alcântara – Assistente Social, Mestre em Gerontologia, Dra. em Antropologia Social, Professora do Curso de Serviço Social do Centro Universitário Fametro (UNIFAMETRO). Colaboradora do Portal do Envelhecimento. E-mail: [email protected]


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