Temos mais viúvas do que viúvos; é hora de mudar a postura em relação a elas

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Ao contrário das viúvas, os viúvos costumam ter um tempo de luto mais curto e recebem estímulos positivos para sair e buscar companhia, mesmo que seja apenas para satisfazer suas necessidades sexuais.

Fabrício Oliveira (*)


Depois dos 40 anos, quando o marido falece, a maioria das mulheres viúvas acaba entrando em abstinência sexual para o resto da vida. Ela se anula. Muitas não conseguem fazer o luto e seguem vestindo roupas sem cor, não soltam mais os cabelos, evitam maquilagens, param de sair a não ser para o cemitério ou a igreja. A sociedade pressiona para que seja assim. Um comportamento diferente da parte delas é visto como desrespeito à memória do falecido e a pecha de viúva-alegre cola na pele delas.

A mulher é pressionada pelos costumes a ter um único marido, e mesmo na ausência dele, na viuvez, não lhe é permitido outro. Especialmente se já passou dos 60 anos. Dona Alice, ao se tornar viúva aos 45 anos, com três filhos para criar, viveu essa realidade, mas ao se ver sozinha, depois que os filhos se casam, resolve questionar a situação e opta por seguir sua vontade, enfrentando a família do marido e a resistência do filho mais velho.

Não tenho em mãos o artigo, mas lembro de ter lido algo como: a morte do marido é um evento traumático para o qual a mulher nunca está preparada. A viúva pode levar anos para processar todos os sentimentos que ficam e, principalmente, para atribuir significado às histórias compartilhadas.

Mas vamos pensar diferente, mudar o gênero, morre a mulher e o homem fica sozinho, mesmo depois dos 60 anos, o que ele ouve da sociedade? Exatamente o contrário. Um homem não pode ficar sem mulher. Em pouco tempo, contando com esse suporte, com essa compreensão social, ele busca outra, preferencialmente mais jovem.

Nunca é bom generalizar. Eu mesmo atendi um senhor que os filhos queriam vê-lo sair, se divertir, e ele lá enlutado, por 13 anos remoendo as lembranças, chorando sua perda, cercado por fotos da falecida e indo ao cemitério todos os dias 15 e 28, datas dos aniversários de vida e morte da companheira que partiu.

Mas o que prevalece são casos como o do seu Sebastião que foi casado com Dona Gertrudes por 45 anos e tiveram quatro filhos. A filha estranhou ao ver o pai sair todo arrumado um mês após a morte da esposa.  

Ela leva suas desconfianças para os irmãos. O mais velho, que vive em São Paulo e tem uma cabeça mais aberta, manda ela parar de pegar no pé do pai. Não demora para uma mulher bater na sua porta. Não tinha mais do que sua idade. Sabia seu nome, conhecia bem cada um dos filhos, e estava preocupada com seu Sebastião. Apresenta-se como namorada e quer saber da filha se o pai toma Viagra com receita médica, pois sente que fica muito agitado na hora do sexo e tem medo que tenha um piripaque. 

– Falei para ele ir ao médico, mas não me escuta, queria que falasse com ele, mas não diga que estive aqui…

A filha pira, pois o quadro de saúde do pai talvez não permita aquela extravagância quinzenal, como diz a namorada. Seu Sebastião tem três pontes de safenas, é hipertenso e diabético. Liga para o irmão, desesperada.

– Você precisa conversar com ele.

– Betânia, deixa o pai, ele vai morrer feliz, é o que importa.

– Como deixa o pai? Essa mulher tá tirando dinheiro dele.

– Para começar, o dinheiro é dele, mas pense direito, ela não está tirando nada, é uma troca, e aparentemente é uma pessoa preocupada com a saúde dele, pois foi aí falar com você…

– Claro, ela não quer que ele morra porque se morrer ela fica sem o dinheiro dele…

– Se ela pensa assim, ótimo, pois vai cuidar dele, já que é sua galinha dos ovos de ouro.

– Ela tem a minha idade…

– Ótimo. Veja essa coisa do Viagra, mas não diga que a moça esteve aí. É melhor que fique amiga dela do que o contrário…

– Só faltava essa, nessa altura da vida ter uma madrasta da minha idade.

– Apenas deixe papai viver a vida dele.

Betânia me procura para saber o que fazer com o pai, e conta a conversa que teve com o irmão. Quase digo para ela que concordo em gênero, número e grau, mas faço diferente.

– Posso ligar para conversar com seu irmão?

Passa-me o telefone e o irmão o que faz é me dar carta branca para lidar com o pai nessa fase, pois para a irmã é difícil, já que voltou para casa com o intuito de cuidar da mãe, que não resistiu, e permanece para ajudar o pai que aparentemente está melhor do que ela.

Não cheguei a atender seu Sebastião, mas sua história de vida é importante porque nos permite ver a diferença de suporte que a sociedade oferece a um e outro. Ao contrário das viúvas, os viúvos costumam ter um tempo de luto mais curto e recebem estímulos positivos para sair e buscar companhia, mesmo que seja apenas para satisfazer suas necessidades sexuais.

Porém, de acordo com diversas pesquisas, são as mulheres que vivem mais. Temos infinitamente mais viúvas do que viúvos. Portanto, a sociedade precisa mudar sua postura, estimulá-las como se estimula os homens, incentivá-las, apoiá-las para que se mantenham ativas sexualmente e não as constranger, pressioná-las, condená-las a uma vida de reclusão.

(*) Fabrício Oliveira é psicólogo e atua exclusivamente com idosos. Trecho de um dos relatos incluídos no livro Sexualidade e Longevidade, a Essência da Maturidade, lançamento da Portal Edições. E-mail: [email protected]

Serviço
Livro Sexualidade e Longevidade: A Essência da Maturidade
Autor: Fabrício Oliveira
Ano: 2021
Páginas: 428
Editora: Portal Edições


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