Suzana Medeiros sem meias palavras

Naquela manhã de 26 de maio, a professora Suzana Medeiros, ao final da apresentação de mais uma pesquisa realizada pelo Nepe (Núcleo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento), na PUCSP, me chamou de longe, gesticulando.

Maria Lígia Mathias Pagenotto *

 

Cheguei ao seu lado e ela me perguntou, ansiosa: “Você já redigiu aquela conversa que tivemos?”. Eu disse que não, e, meio sem graça, pedi desculpas pelo meu atraso.

Ela suspirou aliviada. “Ah, que bom, eu deixei de falar pra você uma coisa muito importante, fundamental, que é a minha prática espiritual. Não sei como deixei isso passar no meio da conversa…”

Fez questão de dizer que sua vida espiritual, longe de ser uma obrigação, algo que a sufoca, é mediada pela alegria, pelo prazer. “Sei que para muitas pessoas isso pode soar como algo castrador, mas para mim é libertação. Quero que coloque isso, por favor, porque a espiritualidade é algo muito importante na minha vida.” De fé católica, ela diz que tem, em sua rotina, seus momentos de recolhimento e meditação.

Seu jeito contundente, ao contar isso, chamou-me atenção. Suzana Aparecida Rocha Medeiros, ou simplesmente profa. Suzana, como a maioria dos alunos se refere a ela, completa 85 anos em outubro. Pelo pouco que a conheço, percebo que não é uma mulher de meias verdades, nem meias palavras. O que tem a dizer, diz. Com um jeito manso muitas vezes, mais duro noutros, ela se coloca. Como fez questão de frisar para mim a sua fé, mesmo estando num ambiente acadêmico e em meio a tantas pesquisas científicas.

Em uma tarde em meados de maio, sentamos as duas na sala do programa de Gerontologia e trocamos algumas ideias sobre sua vida e, especialmente, sobre o envelhecimento. Essa é a “conversa” a que ela se referiu naquela manhã no Nepe.

Expliquei-lhe que gostaria de entrevistá-la para o Portal do Envelhecimento e fui prontamente atendida. Suzana nos surpreende, especialmente, por sua vitalidade, qualidade que já foi bastante enaltecida em textos na PUC, no próprio Portal e em homenagens que os alunos e outros professores lhe rendem com frequência. Mas o fato é que é difícil não se encantar com a alegria de viver da profa. Suzana.

Formada em Serviço Social, mestre e doutora na área, Suzana foi responsável pela implantação do Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia na PUCSP, que teve início em 1997. Atualmente ministra duas disciplinas na Gerontologia, orienta alunos e coordena alguns Nepes, além de participar de grupos de pesquisas.

Nesta conversa, ela nos mostra como sua trajetória de vida apontou o caminho para os estudos sobre o envelhecimento. Sem cunho assistencial, mas sempre numa perspectiva de desenvolvimento pleno. Suzana vive hoje o que dizia quando lutava pela aprovação do pós em Gerontologia nas esferas do poder: que o velho tem diversas possibilidades e precisa ter direito a viver essa sua etapa de vida. Suzana explora muito bem suas possibilidades e vive com plenitude sua velhice.

Confira abaixo os principais trechos do nosso encontro:

P- Acho que todo mundo aqui da Gerontologia sabe um pouquinho da sua história, pois muitas vezes, nas aulas, a senhora mesmo comenta passagens da sua vida. Mas vamos falar para aqueles que são de fora, não conhecem… A senhora nasceu onde?

R- Eu nasci em São Paulo, e minha família é de Iguape. Mas fui para Santos menina, porque meu pai era engenheiro agrônomo e foi chamado para trabalhar no porto, fiscalizando a exportação de frutas. Isso nos anos 1940, 42. Mas, como meus pais davam muita importância aos estudos, vim para a Capital para estudar, pois Santos naquela época não tinha faculdade.

– E por que a senhora escolheu o Serviço Social?

– Eu queria uma profissão que lidasse com gente diretamente, mas não sabia qual. Sempre gostei de ler e um dia fiquei sabendo de um livro que falava de uma nova profissão que estava surgindo, que tratava do lado social da vida das pessoas. Comentei com meu pai, ele comprou o livro para mim e aí vi que se tratava do Serviço Social, nascido nos Estados Unidos. A história do Serviço Social no Brasil é muito interessante, você conhece?

– Não, não sei nada.

– Surgiu na época da revolução de 1932, em São Paulo. Como muitos civis morreram, suas famílias ficaram desamparadas e isso chamou atenção de um grupo de mulheres, que ficaram preocupadas com a situação daquelas pessoas. Assim, ligada à Ação Católica, grupo da Igreja, nasceu a primeira escola de Serviço Social do Brasil. A visão das fundadoras da escola foi fundamental para transformar o assistencialismo em desenvolvimento.

– E a senhora trabalhou como assistente social?

– Sim, na AACD. Gostava muito do trabalho, mas a diretora da escola em que me formei, que depois foi integrada à PUC, me chamou para lecionar. Havia poucos professores de Serviço Social. Eu aceitei e nunca me arrependi. Gosto muito do trabalho de docente.

– Desde quando a senhora está na PUC?

– Cheguei aqui em 1964. Eram tempos duros. Vim para pensar o Serviço Social. Fazíamos reuniões, por causa da ditadura, com as janelas fechadas, mas os portões da escola sempre ficavam abertos. Essa forma de acolher me chamava atenção. E na época, muita gente achava que o Serviço Social não iria para frente. Fiz muitas reuniões em Brasília, com a Capes, e hoje temos um curso muito reconhecido, tanto na graduação como na pós. E foi no Serviço Social que eu percebi que o tema do envelhecimento precisava ser discutido.

– Como foi isso?

– Os alunos do Serviço Social faziam muitos trabalhos sobre o envelhecimento. Percebi que as questões da longevidade estavam exigindo outro tipo de reflexão, mais complexa. Quando cheguei em Brasília com a proposta do curso de Gerontologia, ouvi de muita gente que era para deixar os velhos sozinhos, pois eles estavam tão bem quietinhos em seu canto (risos). Mas a experiência tem mostrado o contrário… Bem, o máximo que conseguia era gente que dizia pra Gerontologia se tornar uma disciplina do Serviço Social.

– E como a senhora conseguiu mudar a mentalidade dessas pessoas?

– O professor Salvador Sandoval, da psicologia social, me falou de uma pesquisa que estava sendo feita pela ONU. Eles queriam saber que tratamento tinham os velhos no mundo. O Brasil foi o único convidado da América Latina e o Salvador me disse para espalhar cartazes na PUC sobre esta temática, chamando pesquisadores interessados em participar. Assim foi que eu conheci a Beth, a Ruth… o curso nasceu de uma pesquisa posta para comunidade e tomou uma proporção imensa. Fui coordenadora nos primeiros dez anos.

– E como foi sua saída deste cargo?

– Nunca tive dificuldades em deixar o cargo, preparei gente para me substituir. O grande mérito deste curso é ter vários professores, sempre atentos, muito bem posicionados em suas várias áreas, com trabalhos interessantes.

– Como a senhora avalia o mestrado em Gerontologia hoje?

– Acho muito bom, pois temos uma série de professores de áreas diferentes, formulando conhecimentos novos. Isso é interdisciplinaridade: visões diversas sobre uma mesma problemática. As diferenças, no nosso curso, incentivam a discussão.

– O que a senhora pensa em relação ao curso quando olha para o futuro?

– Vejo que há muitas possibilidades de crescimento. Nossos professores são constantemente chamados para palestras. Há indícios de que é uma área em expansão, as instituições nos procuram, somos referência no tema.

– Acha que há um campo promissor para os alunos que saem mestres?

– Sim, claro, muitos alunos que vêm para cá já trabalham com idosos. Mas querem se aprofundar, se preparar melhor para isso. E também preparar melhor as pessoas que lidam com isso numa outra esfera.

– Pode explicar melhor?

– É preciso formar pessoas competentes para pesquisas sobre envelhecimento, para ministrar aulas também. E hoje há demanda em vários níveis. Por exemplo, precisamos de gente que promova excelentes cursos de acompanhantes de idosos. E várias outras coisas neste sentido. Há muitos serviços necessários a esta população, pois o Brasil está envelhecendo.

– Hoje, quando a senhora olha para trás, o que pensa?

– Que o meu pensamento inicial sobre a Gerontologia estava certo… rsrs… A novidade que trazemos em relação à velhice está em tratar o envelhecimento como uma etapa a mais da vida e não como a etapa final. A morte pode ocorrer em qualquer etapa da vida. Não é exclusiva da velhice.

– E como a senhora vive esta etapa?

– Pois então, eu mesma que estou vivendo isso acho muito interessante. Estou realizando hoje coisas que não tinha feito antes e acho que ainda podem aparecer muitas outras. Mas gosto de dizer que não acho esta a melhor etapa. Não sei qual é a melhor, se existe. Acho que não. A vida é constituída por momentos cheios de prazer, em todas as etapas, e também pelos muito tristes, chatos.

– Como é a sua vida hoje?

– Ora, eu trabalho, o que me dá muito prazer. Saio com amigos, família. Gosto muito de cinema, mas vejo mais em casa, por facilidade. Confesso que tenho certo medo de sair à noite na cidade, por causa da violência. Torço para o Santos, acompanho os jogos, gosto muito de futebol. Sabe, aproveito melhor meu tempo hoje, eu acho. Não perco muito tempo com coisas desnecessárias.

– Como assim?

– Acho que a vida é feita de momentos e a sabedoria consiste em saber reconhecer os momentos especiais, não deixar passar em branco. Isso só se aprende com os anos. Acho fundamental a gente perceber quando estamos vivendo um bom momento em nossa vida e saber aproveitar bem isso.

– Acho que todo mundo tem um pouco de curiosidade de saber qual o seu segredo para ter essa vitalidade toda… como é sua alimentação?

– Ah, eu como pouco … quer dizer, almoço bem, como de tudo, evito gordura, açúcar. Penso na cintura… rsrs… Gosto de frutas, verduras. Sou louca por café também, mas evito álcool. Também não janto, tomo só uma sopa e já está bom.

– Muita gente diz que a senhora nunca fez exercícios…

– É verdade. Mas sempre andei muito. Até por não dirigir. Mas bem que eu gostaria de ser uma esportista, mas não consigo… rsrs…

– E da sua aparência, como cuida?

– Olha, tenho minhas vaidades, mas sem exagero. Nunca pintei o cabelo para não ficar escrava da tinta. Pura preguiça, talvez. Sou míope e uso lentes de contato há muitos anos.

– O que a senhora projeta para o seu futuro?

– Está nos meus planos uma aposentadoria definitiva. E a minha maior preocupação em relação a isso talvez seja a parte econômica. Quero ter dinheiro para comprar revistas, jornais, livros. Quero ter tempo para ler com calma e acho que só na aposentadoria… rsrs… Também penso muito num trabalho voluntário, em que eu tenha contato com pessoas. Mas não quero horários muito rígidos, quero fazer tudo com prazer.

– E em relação à moradia, o que a senhora planeja?

– Bem, eu tinha um plano conjunto com amigos, que era dividir um espaço em Cotia. Chegamos a realizar, mas meus amigos morreram antes de mim. Hoje moro com uma tia e penso em ficar mesmo em São Paulo. Moro em Pinheiros há muitos anos, gosto de lá. Vamos ver. Esse é um assunto que me instiga, por isso faço parte de um grupo que discute a moradia para idosos.

– Além da vitalidade, a senhora chama atenção pela tranquilidade… de novo, qual o segredo?

– Ah, eu só acho que muita gente que envelhece assume uma postura, a respeito da velhice, construída por quem não envelheceu ainda… aquela ideia de que todo velho é rabugento, não aprende, não quer nada com nada… Isso é que é preciso mudar. Precisamos fazer os velhos acreditarem que eles podem ter outras possibilidades nesta etapa da vida, sair desses estereótipos. E nisso a Gerontologia tem dado sua contribuição.

*Maria Lígia Mathias Pagenotto – Jornalista, mestranda em Gerontologia pela PUCSP. É colaboradora e faz parte da Equipe Portal. E-mail:mlpagenotto@gmail.com

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