Suicídio de idosos é tema de pesquisa

Médica geriátrica em Rio das Ostras (RJ), Jane Teixeira se impôs um importante desafio ao iniciar seu mestrado na PUC-SP, na área da gerontologia, em 2008. Decidiu esmiuçar um pouco mais os números sobre o suicídio de idosos a que teve acesso ao assumir a coordenação da Estratégia da Saúde da Família no município.

 

 

Seu primeiro passo foi se debruçar sobre os dados epidemiológicos da região em que atua. Depois se deteve nos números do Estado do Rio de Janeiro, até ampliar para outros estados. Também levantou informações sobre outros países.

No decorrer do estudo, chamou atenção da pesquisadora o grande número de pessoas idosas que cometiam suicídio. Nesse grupo, mulheres a partir dos 60 anos era outro dado que se sobressaía pela quantidade entre os números analisados.

Em Minas Gerais, por exemplo, o suicídio de mulheres idosas cresceu 115,7% entre 2000 e 2005. Na Bahia, Jane constatou o aumento de 728%. Ela levou em consideração no estudo os riscos associados ao suicídio entre idosos, elencando o desemprego, a perda de laços familiares, depressão e a migração de idosos que saem de suas cidades natais como os mais expressivos.

Jane defendeu sua dissertação, intitulada “Suicídio do Idoso, uma abordagem epidemiológica nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e Rio Grande do Sul, período de 2000 a 2005”, em 29 de outubro de 2009, sob orientação da professora doutora Ursula Karsch.

A seguir, ela relata um pouco da sua experiência como pesquisadora.

Por que decidiu fazer mestrado em gerontologia?

O meu atendimento ao idoso como médica necessitava de outros conhecimentos sobre o envelhecimento, além daqueles obtidos na prática da geriatria. Assim achei que o mestrado em Gerontologia, com os seus diversos saberes, iria contribuir à minha formação profissional.

Como se decidiu pelo seu tema de pesquisa e como foi o seu desenvolvimento?

Ao assumir a coordenação da Estratégia Saúde da Família no município de Rio das Ostras/RJ, observei por meio da análise dos dados epidemiológicos da região e do Estado o aumento quantitativo do suicídio praticado por pessoas idosas. Busquei dados contidos no Sistema de Informação Sobre Mortalidade-SIM/Ministério da Saúde e percebi que esse evento também ocorria em outras regiões do país e no mundo, com uma frequência bem maior.

A dissertação de mestrado acabou sendo pautada nesses dados coletados do SIM/MS. Os dados foram restringidos aos estados que, na época, tinham a maior concentração de idosos no país. Foi um estudo descritivo que apontou para a magnitude dos números encontrados, tanto em termos absolutos quanto relativos. Os números demonstraram que não é somente a faixa etária jovem que mais comete suicídio, a dos idosos também. Desvelou-se o crescimento do suicídio entre as mulheres a partir dos 60 anos demostrando, assim, a necessidade de estudos analíticos sobre o tema.

Que desdobramentos esta pesquisa teve na prática?

Creio que a visibilidade dada ao tema já teve as suas repercussões e novas pesquisas já estão sendo realizadas em nível nacional sobre o suicídio. Evidente que a Gerontologia da PUC-SP contribuiu muito para isso. Atualmente, por exemplo, uma discente do curso de Gerontologia está dando continuidade a minha pesquisa por meio de estudo analítico. Isso é muito gratificante! Além disso, escrevi artigos que foram publicados em revista internacional. É muito interessante e satisfatório ver esse desdobramento.

Acredito ainda que a pesquisa, que gerou pautas na mídia também, é um alerta para profissionais da saúde de modo geral. Outro dado importante é que minha pesquisa chama atenção para a necessidade de os gestores atentarem para políticas de saúde pública específicas para os idosos. Meu estudo apontou outro fator relevante: 62% dos suicídios são praticados no local onde o idoso reside. Qual a responsabilidade das famílias nisso?

Acho ainda que conhecer informações sobre a mortalidade é um importante mecanismo para se conhecer as condições de vida e saúde de uma sociedade e novas demandas por serviços médicos e sociais. Para os idosos, a mortalidade por causas externas ainda é pouco discutida e dimensionada, principalmente o evento sobre o seu suicídio. Esta dissertação contribuiu para lançar à luz a exploração de algumas variáveis epidemiológicas (sexo, idade, mês de ocorrência, raça/cor, estado civil, escolaridade, localidade e causa básica da morte) constituindo, também, como um objeto de atenção e investigação para os profissionais envolvidos, na academia ou fora dela, no processo de envelhecimento da população brasileira, bem como, à sociedade e ao poder público.

O que o mestrado e a pesquisa contribuíram para a sua vida pessoal e profissional?

O conhecimento obtido no curso e a troca de saberes com os colegas/alunos de outras áreas e professores foram essenciais na compreensão do processo de envelhecimento no mundo e no país, do meu próprio e a dos outros. Na prática profissional, em Rio das Ostras/RJ, com o conhecimento adquirido, implantei o Programa Saúde do Idoso com atendimento multidisciplinar. No dia-a-dia do consultório, o conhecimento adquirido no mestrado e na elaboração da pesquisa somaram-se às especificidades da parte biológica, possibilitando a maior compreensão nos temas relacionados com questões psicossociais e culturais. Outro desdobramento importante é que o suicídio de idosos no Brasil, assim como as possibilidades de atuação dos profissionais da saúde em relação a este fato, é agora tema de pesquisa, regularizada pelo Programa de Apoio à Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação em Saúde Pública (Inova-ENSP) e sob coordenação da renomada pesquisadora Cecília Minayo.

Quais os principais desafios que enfrentou durante o desenvolvimento da pesquisa?

O tema em si já foi um desafio. Ele é complexo, estigmatizado e pouco esclarecido à sociedade, até mesmo aos profissionais das mais diversas áreas como, por exemplo, da saúde. Era frequente eu ouvir: “O suicídio do idoso, existe?”. Creio que as poucas publicações, pesquisas e informações relacionadas ao suicídio e voltadas ao idoso só faz aumentar o preconceito e a negação do tema. Essas foram as minhas maiores dificuldades encontradas, pois não tinha muitas referências e parâmetros para minha pesquisa. Outros desafios de ordem pessoal foram a distância (sou do Rio de Janeiro), o tempo para os estudos e o orçamento apertado para manter o curso. Mas tudo foi superado com a vontade de fazer o mestrado, adquirir mais conhecimentos e terminar o meu propósito finalizando com a dissertação.

Quais são seus próximos passos na vida acadêmica a partir deste mestrado? E na vida profissional?

Atualmente sou doutoranda em Epidemiologia Saúde Pública na Escola Nacional de Saúde Pública-FIOCRUZ/Ministério da Saúde e o tema da minha tese é sobre a doença de Alzheimer. Profissionalmente, estou como coordenadora do Programa Saúde do Idoso de Rio das Ostras/RJ.

O que diria para quem está começando a estudar na área?

Aos que estão começando, inicialmente quero dar os “parabéns” pela escolha. Se puder dar algumas sugestões, gostaria de dizer que aproveitem ao máximo todas as disciplinas e estejam sempre antenados, participando de congressos, seminários, encontros com a temática e redes sociais. O Brasil precisa muito de mais especialistas na gerontologia. E-mail: janebteixeira@gmail.com

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