Sr. Jorge Haddad, 89 anos

Sr. Jorge me conta um pouco da sua história:

Em 1924 meus pais saíram de Corumbá e vieram para São Paulo. Estudei no colégio Oriental, na Rua Maria Figueiredo. Fiz até a 4ª serie do antigo curso ginasial.

Marisa Feriancic *

 

Chegando a São Paulo, meu pai abriu uma loja de tecidos na Rua Florêncio de Abreu e contratou vários empregados para expandir o comércio no interior de São Paulo. Com a crise de 1929, ninguém pagou o que devia e meu pai perdeu muito dinheiro.

Em 1934 meus pais decidiram viajar para o Líbano com toda a família.

Tínhamos amizade com um cônsul brasileiro, que sempre nos visitava e ele nos incentivou a abrir uma agência de viagens no Líbano.

Montamos uma agência de turismo em Beirute, chamava-se Brasília. O nome foi sugestão do nosso amigo cônsul, e assim, começamos a recrutar pessoas para viajar ao Brasil. Tínhamos uma filial em Marrovia (na África), e outra em Trípoli (no Líbano), mais tarde fechamos essas agências do exterior.

Ainda jovem, no Líbano, comprei um terreno numa área de 40 mil metros quadrados e plantei maçãs e peras. Na última guerra do Líbano, os sírios acamparam nesse terreno e acabaram com toda a plantação. Só sobrou terra.

Atualmente, no Líbano, a vida é normal, igual a todo país do mundo, mas naquela época, não se podia namorar, não existia namoro entre os jovens. Não podia sair com uma moça, se saísse tinha que casar. Os jovens não podiam ter contato com as moças, os pais não aceitavam e, além disso, tinha que ter dinheiro, se não tivesse, também não podia casar.

Em 1951 vim para São Paulo e abri uma agência de Turismo aqui no Brasil, Agência Brasília de Viagens Ltda. Trabalhei 55 anos nessa agência. No ano passado me aposentei e a passei para minha filha.

Tenho 50 anos de casado

Quando voltei ao Brasil em 1951, conheci Janete, gostei dela, houve um pequeno namoro e ficou conversado que nós casaríamos. O pai de Janete era muito amigo de meu pai e era meu padrinho de batismo.

Fiquei mais 5 anos no Líbano. Voltei em 1956, e em 1957 nos casamos. Nesse intervalo que morei no Líbano vim uma vez só para o Brasil, fiquei aqui 6 meses e depois voltei.

Saúde

Meus rins pararam de trabalhar a um ano. Agora tenho que ir ao hospital 3 vezes por semana, fazer diálise. Fico 4 horas na máquina de diálise.

Já passei por várias cirurgias, mas ainda estou firme.

Parece que o problema dos rins foi excesso de remédios, principalmente antinflamatórios.

Sr. Jorge Haddad

Envelhecimento

A gente envelhece na cabeça. Quem tem espírito jovem, pode ter 100 anos, que não está velho. Tem que ter idéias jovens. Tem pessoas que se sentem envelhecidos com 50 anos.

Eu acredito que o trabalho ajuda. Quanto mais a gente trabalha, melhor resultado para enfrentar o envelhecimento. Quem pára de trabalhar cedo, envelhece pior. Fica abandonado, desatualizado, envelhece antes do tempo. Eu trabalhei até 88 anos e me sentia muito bem. Isso me incentivou a ter uma expectativa de vida melhor. Parei porque os filhos decidiram. E, agora, também não me deixam mais dirigir meu carro. Acham que é perigoso. Eu não acho. Eu posso guiar, guio perfeitamente bem.

Quando a gente fica com certa idade os filhos começam a mandar na gente Às vezes é bom, porque querem cuidar, às vezes não é. Os filhos jovens não entendem os velhos. Os jovens sempre acham que têm razão, no entanto os velhos têm mais prática, têm mais vivência, entendem certas coisas que eles não enxergam. Até em negócios. O que eu enxergo que pode ser um bom negócio eles não aceitam. Os jovens não têm tanta coragem como uma pessoa de mais idade. Não têm a mesma segurança que um velho tem. Essa é minha impressão, pode ser que eu esteja errado, mas às vezes eu acerto.

Dirigir para mim é muito importante. Dá-me a liberdade de pode ir onde quiser. Outro dia, peguei o carro e fui até o clube, depois fui à feira. Minha filha ficou chateada, preocupada, não queria nem falar comigo. Eu acho que eles sabem conviver com a gente, mas nem sempre entendem os velhos.

A gente não quer discussão, então, a sabedoria do velho concorda, para não ter desentendimento com os filhos. São coisas, que às vezes não vale a pena discutir.

Eu dirigi 70 anos e nunca bati o carro. Então está bem, não vou mais guiar. Eu acho ruim, mas eles não acham então eu vou concordar. Eles dizem que nessa idade, se acontecer uma emergência, falta reflexo. Tá bom, então, quando preciso, uso o motorista.

Sr. Jorge Haddad

Uma lição de sabedoria

O envelhecimento é um ciclo de vida; não tem escapatória.

Tem gente que tem certa idade e ainda quer passar por mocinho ou mocinha.

Tem que aceitar a idade. Ser velho não é uma coisa ruim, não é um problema. Ser velho é o resultado de ter sido moço. É o ciclo da vida.

Tem pessoas que não sabem envelhecer. Tem mulheres idosas que usam muita maquiagem, usam roupas de moça. Fica uma palhaçada.

Quando a pessoa aceita a idade e vive de acordo com ela, tem uma posição na sociedade. Tem velha muito bonita. A idade não deixa as pessoas feias. Tem moças de 20 anos que são feias e velhas de 70 anos que são bonitas. É só manter o espírito jovem.

Velhice não é defeito, mas tem que saber administrar. Às vezes, um velho quer andar de bicicleta, mas não dá mais, mas dá para fazer outras coisas, tem que aceitar.

A mulher envelhece igual ao homem, nem pior nem melhor. É preciso ter saúde. Se não tiver saúde não tem nada. A saúde é tudo na vida da gente. Vale mais do que dinheiro, vale mais do que propriedade

Dicas de boa saúde

Para cuidar da saúde, o importante é prevenir. Evitar bebidas, não fumar, controlar os alimentos e não comer demais.

Conheci várias pessoas que morreram por causa do cigarro. Os jovens que bebem e fumam têm que se cuidar, porque é perigoso.

Cuido bem da minha alimentação. Gosto de frutas, queijos, como muita verdura e pouca carne.

Exercícios físicos também ajudam. Quando eu era jovem eu nadava. Hoje não dá mais, não tenho mais força física, nem muscular. Atualmente é só fisioterapia.

É importante ter com quem falar, conviver. A família também pode dar suporte. Hoje, por exemplo, almocei com meus dois filhos. A convivência e o apoio da família na velhice é muito importante.

Não sinto solidão. Tenho com quem conversar, trocar idéias. Isso ajuda.

Os amigos também são muito importantes. Principalmente quando se têm amigos sinceros, amigos verdadeiros.

A espiritualidade ajuda no envelhecimento. A verdade é que ela ajuda sempre, durante toda vida toda, não só no envelhecimento

Otimismo: “o lado bom das coisas ruins”

Até que a diálise deu um movimento na minha vida. Tenho que sair de casa. Lá no Hospital, sou bem recebido, sou bem tratado e a gente acaba fazendo amizades. Fico lá, 4 horas, parado, mas a gente conversa e troca idéias.

A diálise acaba sendo uma distração, apesar de me impedir de viajar, sair por longo tempo. Já que os rins não fazem o serviço, tem que deixar para a máquina.

Lazer

Estou aposentado e hoje minhas atividades se resumem a fazer algumas compras, ler bastante e usar a Internet. Converso pelo skype com parentes do Líbano.

Aos sábados vou ao clube encontrar os meus amigos. À tarde, jogamos um pouco de snooker. Antes, eu ia ao clube durante a semana, agora não vou mais porque não me deixam guiar. Aos domingos saio com a família para almoçar fora.

Gosto muito de ler. Leio diariamente o jornal e também gosto de livros de aventuras. Ainda bem que tenho boa visão. A leitura é muito importante. Distrai bastante. Gasta o tempo. Na velhice sobra muito tempo.

Só uso óculos para ler. Atualmente estou precisando usar óculos para longe, há um tempinho atrás, não era necessário.

Também gosto de teatro e de assistir uma boa orquestra.

Viajei o mundo inteiro. O lugar mais bonito para se conhecer é Paris.

Tinha facilidade para viajar, porque tinha agência. Viajava 2 vezes por ano para Paris.

Faz 4 anos que eu não viajo. Não posso mais sair para longe. Só posso fazer passeios curtos; sair sexta-feira e voltar no domingo, porque na segunda, tenho diálise. É muito ruim, me limita a vida.

A finitude

As pessoas têm que saber que ninguém vai viver eternamente.

A morte não me assusta. Já comprei meu túmulo e já estou preparado. Já vendi tudo que tinha e distribuí para os filhos. Quando eu morrer eles não têm herança e podem administrar a vida deles agora com mais tranqüilidade.

Acho que é importante organizar tudo antes de morrer. Ainda tenho uma firma que está no nome dos filhos, mas eu que administro e controlo tudo daqui de casa mesmo.

As pessoas têm que saber que ninguém vai viver eternamente, mas aprender a viver bem.

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