Sr Genésio, educar a planta

Tempo de Leitura: 3 minutos

Um dia, disse-me sua filha, ele foi dormir e não acordou mais. Estava com 85 anos. Trabalhou com as plantas até dia anterior: era o que lhe dava sentido à vida.

Garatujas do Cotidiano (*)


Eu havia plantado no jardim, bem na entrada da casa, uma bouganvile rosa. Tomada por uma força própria, a planta crescia em direção à porta, ofertando suas flores e espinhos ao espaço exato que tínhamos para passar. Era teimosa. Eu a cortava e, cedo ou tarde, ela voltava a ocupar a entrada da casa. Um dia, já irritada, coloquei um prego na parede ao lado da porta, peguei um barbante e amarrei ali os galhos da planta de modo a impedir-lhe o caminho do hábito. O tempo foi passando e a planta não crescia mais, nem dava flores.

Ficou caída, desolada. Sem saber o que fazer, chamei seu Genésio. Ele tinha a pele sulcada, queimada pelo sol. A cabeleira basta era alva como um grande chumaço de algodão. Seu Genésio tinha 82 anos. Era jardineiro, cuidava das plantas de toda a vizinhança. No caminho entre uma casa e outra, cuidava também das plantas da rua.

Seu Genésio chegou na minha casa com o cigarro aceso:

– Qual é o problema aqui? Ele perguntou, entre uma baforada e outra.

– É essa bouganville que não cresce mais. Queria que o sr colocasse um adubo nessa terra, talvez ajude.

Seu Genésio olhou para planta e me disse:

– Quem colocou esse prego aqui?

– Fui eu, disse meio envergonhada, já entendendo o tom da pergunta.

– Deixa eu perguntar uma coisa: a senhora gosta de ficar presa? Amarrada num prego?

Sem esperar a resposta, o velho seguiu:

– Nem ela. Não adianta botar adubo. Tem que soltar a planta, ela gosta de espaço, de liberdade!

– Mas seu Genésio, ela toma conta da porta, a gente mal consegue entrar em casa. E esses espinhos imensos machucam!

– Ela precisa de educação, não de prisão.

– Ah sim, eu disse, mas como é que a gente educa a planta?

– A senhora precisa olhar para ela, perceber o que ela lhe diz. E cuidadosamente ir indicando para ela o caminho. Esse é o sentido da poda.

Seu Genésio passou a tesoura no barbante, arrancou o prego da parede e seguiu:

– Agora ela está livre. Vamos acompanhando o movimento dela, indicando o caminho. A senhora vai poder passar pela sua porta tranquilamente e ela vai crescer, florescer e alegrar seus dias.

E assim foi. A bouganville cresceu, seu Genésio me ensinou como educá-la. A planta foi tomando o caminho do muro, por ali se expandiu, encheu de flores e de vida a entrada da minha casa. Não moro mais nessa casa. Mas sempre que passo por lá, vejo na bouganville o gesto de seu Genésio, que já não está mais trabalhando de jardineiro.

Um dia, disse-me sua filha, ele foi dormir e não acordou mais. Estava com 85 anos. Trabalhou com as plantas até dia anterior: era o que lhe dava sentido à vida, disse-me a filha, confirmando o que seu Genésio havia me dito. Tenho certeza de que seu Genésio está naquela bouganville e mais em todas as plantas que soube, amorosa e cuidadosamente, escutar.

(*) Garatujas do Cotidiano é uma página do facebook e, ao mesmo tempo, uma hastag por meio da qual uma de nós publica histórias do cotidiano. Escrito em 21 de julho de 2020.


Portal do Envelhecimento

Redação Portal do Envelhecimento

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