Sonho, Velhices e a Casa Amarela de Van Gogh

O Faça Memórias em Casa é a minha Casa Amarela e nela construo cada parte com os desejos de engrandecer as velhices renegadas. Em cada caixa uma possibilidade de intervenção positiva a favor das velhices esquecidas. 

 

A experiência adquirida no Centro Dia público onde ministro aulas de História da Arte e oficinas de Arteterapia comprovam o que sempre, intuitivamente, soube. Envolver os idosos com a História da Arte é uma potente ferramenta para engrandecer velhices com problemas de esquecimento, seja esquecimento social ou patológico.

A possibilidade de sonhar e aprender mantém os velhos ativos nesta vida que insiste em colocar de lado quem tanto tem a nos ensinar. Cruel realidade esta que aponta apenas a juventude como o belo e ativo.

Van Gogh tem sido tema de conversa em nossos encontros. Sua história cheia de emoção e sua arte genial encantam os idosos que se aproximam deste importante pintor holandês que nasceu em 1853, vivendo apenas 37 anos. Uma vida breve mas marcante por sua arte, por sua insanidade e por seu profundo relacionamento com seu irmão Theo. Com ele, Van Gogh trocou correspondências que se tornaram importantes documentos para a compreensão de sua obra. Theo era pobre mas fazia questão de ajudar financeiramente seu irmão que usava todo dinheiro para comprar materiais de arte, deixando os cuidados com a saúde e alimentação à deriva.

Em 1888 Van Gogh muda-se para Arles, cidade ao sul da França numa tentativa de encontrar a tão desejada realização profissional que vinha ao encontro da necessidade que ele tinha em buscar novas cores para sua vida e sua obra.

Idosos com problemas de esquecimento e em situação de vulnerabilidade social, vivem uma velhice cinza e a necessidade de encontrar novas cores é gritante em um mundo que abafa as velhices não desejadas. O Centro Dia Público é uma possibilidade de colorir essas velhices, pena que ainda favorece uma parte tão pequena de velhos.

Em Arles, Van Gogh aluga a parte direita de um prédio de dois andares: A Casa Amarela. Nela os desejos de formar uma escola de arte ao lado do amigo e também pintor Paul Gauguin pulsavam em seu coração.

Para esperar o amigo, Van Gogh pinta seu primeiro quadro dos Girassóis, numa tentativa de enfeitar a Casa Amarela e quiçá seus sonhos. A expectativa de uma vida onde a solidão e os transtornos mentais que o acompanhavam pudessem ser deixados de lado, serviu de combustível para sua vivência doída e cheia de dificuldades e que precisava, mesmo assim, seguir adiante.

A Casa Amarela simbolizava seus desejos e realizações.

O convívio com os idosos do Centro Dia e com os idosos do Projeto Faça Memórias, especialmente formulado para idosos com problemas de esquecimento, mostram as diversas “Casas Amarelas” existentes em cada velho e velha que cruzam meu caminho.

Fernando Pessoa já dizia: Tenho em mim todos os sonhos do mundo e são eles que nos impulsionam a favor da vida. A Casa Amarela existe em todos nós e é ela que nos faz seguir em frente mesmo sabendo que o percurso é sempre repleto de obstáculos. Dona Alzira vive o avanço do Alzheimer mas em meio ao seu olhar perdido, percebo sua “Casa Amarela” misturar-se ao desejo de realizar um pequeno gesto que comprove sua “ainda” existência.

É comum o desprezo pelas Casas Amarelas dos idosos com demência já que a patologia ganha uma força muito maior do que a potência de cada sujeito ali escondido. Já Dona Sofia acredita que seus filhos e maridos ainda estão vivos. Ao esquecer uma dor sem tamanho, ela constrói nas atividades propostas, as paredes de sua Casa Amarela.

A Arte coloca, em nossas mãos, a oportunidade de realizar pequenos projetos. Para as velhices, a Arte quando atrelada a Arteterapia é capaz de colorir velhices sofridas, isoladas e amarguradas por diversos contratempos da vida.

Seu José não lembra quem foi Van Gogh mas ao pintar sua Casa Amarela, seu olhos parecem se encher de desejos de vida. A sensação permanece mesmo quando a memória não registra os fatos.

Sim! Temos em nós todos os sonhos do mundo e eles cabem em uma pequena caixa enviada aos lares dos idosos sedentos por desejos de existência.

Faça Memórias em Casa

O Faça Memórias em Casa é a minha Casa Amarela e nela construo cada parte com os desejos de engrandecer as velhices renegadas. Em cada caixa uma possibilidade de intervenção positiva a favor das velhices esquecidas.

Sim! Tenho em mim todos os sonhos do mundo e que nossos sonhos possam sempre ser compartilhados com velhices que buscam mais e mais dignidade e cores.

Como o sonho de Van Gogh: Sejam bem-vindos à Casa Amarela.

 

Cristiane T. Pomeranz

Cristiane T. Pomeranz

Arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte, e mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. Idealizadora do Faça Memórias em Casa que propõe o contato com a História da Arte para tornar digna as velhices com problemas de esquecimento. www.facamemoriasemcasa.com.br E-mail: crispomeranz@gmail.com.

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