Somos as poderosas de 8.0 a 9.0 + com muito prazer, alegria e disposição

Ao conferir o balizamento da prova de 100m peito no 60º Brasileiro em Curitiba, foram constatadas que sete destas oito entrevistadas nadariam na 1ª série. A oitava nadaria outras provas, mas também estava na faixa 8.0. Foi a fonte de inspiração para a deliciosa entrevista feita com essas oito atletas, de diferentes agremiações, que estão nas faixas de 80+ a 90+. Cada uma tem um algo a acrescentar à comunidade master, com a vivência saudável e alegre de décadas de natação. Que as palavras deixadas por essas “poderosas” sirvam como fonte de inspiração aos nossos masters de todas as idades.

Elaine Romero (*)

 

Apresentamos as nossas entrevistadas em ordem alfabética: Irene de Macedo (83); Josefa Parellada Brandt (80): Lilia Marly Epaminondas de Almeida (81); Maria de Lourdes Sampaio – Delu (87); Nadir Lacerda de Figueiredo Taubert (84); Nora Tauz Rónai (93); Vera Vieira Espíndula (82) e Vilma Maria Sozzi Wagner (80).

Inicialmente a ABMN (Associação Brasileira de Masters de Natação) perguntou a cada atleta como foi a entrada na natação master, e elas explicaram ou que foram nadadoras na infância e/ou juventude, ou que aprenderam a nadar sozinhas. Também houve quem aprendeu a nadar na idade adulta, depois dos 50 anos. A maioria parou durante longo tempo. A entrada para a natação master se deu em circunstâncias diversas, Irene (83), por exemplo, foi por indicação médica e foi aprender a nadar aos 53 anos, Vera voltou a nadar depois de ficar viúva, pois foi “proibida de ficar no sofá”, Lilia (81), Nora (93) e Delu (87) foram convidadas a integrar equipe.

Talvez a mais descontraída forma tenha sido a de Nora que estava feliz nadando na piscina em Nova Friburgo/RJ quando um grande nome da natação master já falecido (Gastão Figueiredo) observando-a, disse-lhe que como nadava “direitinho” a convidava a integrar a equipe do Icaraí (RJ) a fim de disputarem o Sul Americano em Belo Horizonte. Nora disse que como gostava de competir, “topou na hora”, e a equipe foi de ônibus do Rio à Belo Horizonte. Podemos imaginar como deve ter sido divertida essa viagem.

A seguir foi perguntado “O que representava ser uma nadadora master, e se isso teria mudado sua vida ?”. As respostas evidenciaram que nossas entrevistadas sentem orgulho em pertencer à família master, de pertencer a uma equipe, e todas ressaltam as novas e velhas amizades; que se sentem paparicadas, como fez questão de enfatizar Vera (82) e Lilia (81). Por outro lado, Vilma (80+) acrescenta que a natação master é seu objetivo de vida; que esquece os anos passarem, e a recompensa é mais saúde, disposição, amizades, viagens e muitas alegrias nas competições.

E nessa linha de pensamento as demais fizeram questão de destacar que as viagens, as amizades, os passeios são o ponto alto da natação master, além da saúde, é claro. Para Irene (83) “Chegar a beira de uma piscina e saltar em companhia de concorrentes é uma sensação incrível!” De acordo com Nadir (84) a natação master, além de ser um alento à viuvez (de 14 anos), “os papos nos balizamentos, os abraços, as risadas, são uma verdadeira terapia!!!!”

Em relação ao que a natação master teria mudado na vida de cada uma delas percebemos a elevada autoestima, ao relatarem que são capazes de obter bons resultados, não só em medalhas, mas novas amizades, desligar-se do cotidiano e partir para momentos de maior felicidade e diversão ao lado de amigos. “E não esquecendo a vida saudável que a natação nos proporciona” (Irene, 83). Nadir (84) diz que “Os bons resultados, as medalhas, os recordes, nos trazem um novo sentido de viver, um misto de paz, de dever cumprido e principalmente de muita alegria e satisfação interior”, ela finaliza a questão com o desejo: “Quero continuar com minhas braçadas, ainda por muito tempo!!!”

Para Josefa (80) a admiração da família também conta nessa mudança que o movimento master propicia; “marido e filhos incentivam e netos adoram brincar com as medalhas (por pouco tempo, porque eu as guardo com carinho)”. Nora (93) entende que “Essencialmente é um divertimento e como tal, nos faz mais felizes, mais tranquilos. Acho que para mim só foi um lucro ser nadadora master. Estou me sentindo bem na minha pele”.

A ABMN solicitou que apontassem um fato marcante na natação master, e as respostas foram diversificadas. Nora (93) relata com brilho nos olhos que para ela foi o Campeonato Mundial em Montreal, não o primeiro que participou há 24 anos, mas o de 2014. Ela justifica: “tive muita sorte e ganhei todas as provas, bati 3 recordes – fiquei muito feliz e a minha filha Cora estava lá. Então foi assim – foi uma competição de muita felicidade”. Para Lilia o fato marcante e emocionante foi compor o “revezamento 280+ / 4x50m medley misto” que foi campeão em Palhoça em 2016, e também ganhar a medalha da Fina Top TEN de 2016. São recordações que ficam gravadas na memória e no coração”.

Vilma (80) que aprendeu a nadar na idade adulta diz que quando começou a competir achava muito bom estar com as “feras” da natação sem pensar em colocações. Mas viu que poderia ir mais longe e relata que “a emoção maior foi em 2001 quando ganhei o quarto lugar em três provas…chorei de alegria”. E quando ganhei a primeira medalha de ouro em 2003…Mais adiante, em 2007 aos 70 foi homenageada no Mais Mais e também estabeleceu o maior número de recordes no X Meeting Paranaense, o que repetiria em 2012. Mas para sua surpresa, em 2011 ao verificar seu currículo deu-se conta que tinha quebrado sete recordes Sul Americanos. Ela finaliza a questão dizendo: “ao recordar tudo isso fico emocionada. Nunca pensei chegar tão longe. Estou muito feliz em participar da entrevista porque consigo expor meus sentimentos e toda alegria que a Natação Master me proporciona”.

Irene (83) destaca que para ela o que mais marcou e a emocionou foram as homenagens recebidas com o seu nome no troféu de 2005, na IV etapa do Meeting Paranaense e em 2016 no XX Masters Mais Mais em Curitiba. Diz ela: “Estes foram momentos inesquecíveis, assim como alguns passeios pós competições, e dentre eles destaque foi ao conhecer os Lençóis Maranhenses – um cenário deslumbrante. Este me emocionou! E que venham sempre outros para a nossa alegria”. Nadir (84) relata ter vários momentos marcantes, mas que privilegia a medalha conquistada no Pan Americano & Sul Americano no Rio de Janeiro em 2011, dedicada ao seu neto Eduardo que acabara de nascer, competição essa em que conquistou medalhas em todas as provas que disputou. Também destaca sua primeira participação em mundiais, na Universidade de Stanford, “onde eu, sem grandes pretensões trouxe quatro medalhas”. E não fica por aí; lembra das medalhas de ouro ganhas em Sidney e Montreal, e as de TOP TEN da FINA, que vem recebendo há anos. Ao final, porém, ela diz que o momento mais marcante tenha sido mesmo o início, quando há 23 anos, aos 61 anos, reuniu grande parte da família para prestigiá-la e por ela torcer. Apesar de super nervosa e ansiosa, conta que não os decepcionou, ganhando três medalhas, que fazem parte de sua coleção com mais de 600.

A ABMN indagou o que significa competir, ganhar, perder e também o significado das medalhas. Vera (82) foi taxativa: “Não gosto de competir; o faço apenas por causa do Wilson (Brasil da D´Stak). As medalhas constituem um prêmio que guardo com muito carinho. Na direção oposta, as demais sentem prazer na competição. Lilia (81) manifesta que adora o clima de competição; “dá sempre um friozinho na barriga. Conseguir completar cada prova é sempre um desafio”, e as medalhas são a recompensa do seu treinamento. Irene (83) nos diz que quando ainda estava treinando suas primeiras braçadas, costumava imaginar que algum dia poderia competir e ganhar uma medalha. Era apenas um sonho até então, mas este dia chegou. “Nadei com muita ansiedade e o resultado foi inesperado; uma de ouro, uma de prata e uma de bronze. Que felicidade!!! Tenho muitas medalhas acumuladas nestes 23 anos de competições e elas representam a recompensa pelo meu esforço seja qual for a classificação. Me orgulho delas! Ganhar ou perder é um desafio”.

Vilma (80) informa que em todas as competições que participa a adrenalina fica a mil, e nem dorme direito. Para ela “ganhar é muito gratificante”, pois se considera principiante perto de colegas que nadam desde pequenas, por outro lado, tem muita admiração pelas melhores nadadoras. (…) “aprendo e tento dar o máximo e melhorar meus tempos. Para isso preciso treinar”. Josefa (80) compartilha do mesmo ponto de vista dizendo que “competir significa testar a mim mesma sobre minha capacidade de manter o tempo que tenha feito na competição anterior, e um compromisso comigo mesma de me superar ou manter os mesmos tempos (que nem sempre consigo). Ganhar é uma satisfação assim como quando a gente perde tem que reconhecer que a colega mereceu ganhar. A medalha é a prova material do esforço realizado. Levo para casa e mostro para todos que admiram e elogiam as minhas participações nas competições. É muito gratificante”.

Nadir (84) também tem o mesmo sentimento quando se expressa sobre o significado de competir. Para ela competir significa “dar minha parcela de colaboração à equipe. Significa também mostrar a mim mesma, o resultado de meus esforços, disciplina e dedicação aos treinamentos. Mas, o que acho mesmo o máximo, é o clima da competição!!!!! Os amigos, as prosas, as risadas, as torcidas, os aplausos, ah…… é bom demais…”. Ela acrescenta que ganhar é uma meta, que sempre traz consigo, mas….perder, faz parte….e não deve ser motivo de desânimo!!!!!!

Quanto às medalhas, “são o prêmio, o coroamento das metas a que nos propusemos e sempre um motivo de alegria, satisfação, de dever cumprido!!!!!” Nora (93) tem uma justificativa peculiar para o significado de competir. Para ela é uma “volta à minha infância porque eu era a única menina entre uma porção de meninos. Eu só tinha um irmão e vários primos. E eles gostavam de competir. Aí para eu poder brincar com alguém eu tinha que competir. E como eu era a única menina, tinha que ser melhor do que eles. Então eu competia de qualquer coisa, inclusive de coisas esquisitas, e quando eu não podia participar nessas coisas esquisitas, eu era juiz. Então, quando eu estou competindo eu me sinto criança de novo”.

Diante de tanto sucesso das entrevistadas, a ABMN teve a curiosidade de saber como eram os treinos dessas “Poderosas”. À exceção de Vera (82), que afirma não gostar de treinar, e que leva a alcunha de “Romário”, as demais cumprem treinamentos diferenciados. Josefa (80) compara os treinos com suas obrigações no tempo de criança na escola, quando tinha que estudar e também tinha a hora do recreio. Então o treino é “para manter a saúde e as competições são o recreio”. Nadir (84) lamenta que seus treinos não sejam regulares pois reside longe do Clube e o trânsito caótico de São Paulo dificulta bastante, mas nos finais de semana desloca-se com maior facilidade e treina sozinha seguindo o treinamento prescrito pela técnica (muito querida) Inês Corbetta. Lilia e Vilma treinam com afinco três vezes por semana e a última, em véspera de competição, todos os dias. Irene, independentemente da competição treina cinco vezes na semana, e Delu (87) treina cinco vezes na semana, mas intercala com musculação. Nora (93) tem um treinamento que algumas de nós, não conseguiríamos fazer; ela simplesmente nada 400m de cada estilo, aos 93. Está bom assim?

Seguindo a entrevista, a ABMN colocou as atletas diante da seguinte situação: “chamada para o banco de controle, papeleta na mão e sua série é a próxima. O que passa na sua cabeça até o momento de: `às suas marcas´? Ansiedade, preocupação, tensão e também descontração foi como elas responderam numa convergência de respostas. Josefa (80) reúne dois sentimentos – ansiedade e preocupação: “quando chamam para dar a papeleta acaba a ansiedade da espera e começa a preocupação de não queimar (sempre saio atrasada), pensar se meu óculos vai sair do lugar e tentar me lembrar de tudo que devo fazer para nadar direitinho”.

Vilma (80) e Irene (83) também vão nessa direção; e Irene ressalta: “sempre fico um pouco ansiosa quando vou competir e no momento em que estou aguardando a papeleta o nervosismo aumenta e o coração bate mais forte”. Nadir (84) diz que procura manter-se calma, apesar do friozinho na barriga. Lilia (81) preocupa-se em terminar a prova e fazer o seu melhor, ao passo que Delu (87) procura fazer uma “social” com as colegas da série. Vera (82) e Nora, não se preocupam, e é Nora (93) quem resume a situação: “Fico esperando que (o árbitro) diga às suas marcas; é só pular e nadar”. Simples, não?

Para finalizar, pedimos que cada uma deixasse uma mensagem de incentivo aos nossos associados, e como são oito as entrevistadas, em igual número serão as mensagens:

“Que nunca desista de nadar além de encontrar amigos, para a saúde não existe nada melhor e mais completo” (Lilia);

“Nada é impossível se quisermos fazer. Tudo passa muito rápido em nossas vidas vamos viver plenamente fazendo o que desejamos” (Vilma);

“Vamos juntos – vamos voltar a ser criança outra vez; nadar é tudo de bom” (Delu).

“Que tenham sorte e boas provas” (Nora);

“Aos que querem nadar – que se animem e comecem a praticar este esporte tão salutar, e aos nadadores, que não abandonem os treinos pois a natação é saúde e substitui os remédios” (Josefa);

“O ambiente é imperdível, alegre e descontraído durante e após as competições” (Vera);

“Para quem já é atleta master, parabéns, você está no caminho certo. Mas para quem ainda não é nadadora master, venha se aliar ao nosso grupo sem receio e sem se importar com a idade. Estamos no Masters Natação apenas para ser feliz!” (Irene);

“Caros amigos masters: nunca desanimem, mirem-se, espelhem-se nas ´velhinhas´, para chegarem, como elas, aos 80, 85, 90 desafiando os anos superando tempos, batendo recordes, com muita disposição, garra, disciplina e consequentemente esbanjando saúde de fazer inveja a muito jovem!!!!!!” (Nadir).
 
(*) Elaine Romero – Diretora Secretária da ABMN – Publicação da ABMN Informativo – Ano XXVI, nº 102 e 103 – (out/nov/dez 2017 – jan/fev/março 2018)

 

 

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