A solidão está nos matando

Relatório aponta que a solidão é mais mortal do que a obesidade e que o desafio agora é ajudar as pessoas solitárias a se conectarem. Deve-se tratá-la como uma das doenças mais mortais do mundo. As amizades ajudam pessoas mais velhas a desenvolverem sua resistência e capacidade de se recuperarem após adversidades, assim como a capacidade de ganhar força a partir de situações estressantes, ao invés de ser diminuída.

Philippa Perry *

 

a-solidao-esta-nos-matandoQue a solidão é um problema de saúde não teria sido uma surpresa para Madre Teresa de Calcutá, que uma vez disse: “A maior doença hoje não é a lepra ou câncer ou tuberculose, mas sim o sentimento de não ser desejado, cuidado e abandonado por todos”.

Mas agora os médicos quantificaram os efeitos da doença solidão, advertindo que pessoas solitárias são quase duas vezes mais prováveis de morrer prematuramente do que aqueles que não sofrem sentimentos de isolamento. Ser só, parece, que é muito mais preocupante para a saúde do que a obesidade.

Em um relatório chamado Rewarding Social Connections Promote Successful Ageing (Premiando Conexões Sociais Promove o Envelhecimento Bem Sucedido) que o professor John Cacioppo apresentou recentemente em Chicago a medição do efeito dos relacionamentos satisfatórios dos idosos.

A equipe de Cacioppo descobriu que amizades ajudaram as pessoas mais velhas a desenvolverem sua resistência e a capacidade de se recuperar após adversidades, assim como a capacidade de ganhar força a partir de estresse, em vez de ser diminuída.

Não surpreendentemente, não há boas notícias correspondentes para aqueles menos bem conectados a outras pessoas. Solidão tem consequências dramáticas na saúde. Se sentir isolado dos outros pode atrapalhar o sono, aumentar a pressão arterial, baixar imunidade, aumentar a depressão, diminuir o bem-estar subjetivo geral e aumentar o hormônio cortisol do estresse (em níveis elevados contínuos, cortisol gradualmente desgasta seu corpo).

As pessoas mais velhas podem evitar as consequências da solidão ficando em contato com ex-colegas, participando de reuniões de família e compartilhando bons momentos com a família e amigos, diz Cacioppo. Afastando-se de uma comunidade estabelecida para se aposentar, para um idílio à beira-mar pode muitas vezes ser um erro, mas bom senso como esse provavelmente não chega muito longe.

The Lonely Society (A Sociedade Só), um relatório de 2010 encomendado pela Fundação de Saúde Mental, citou uma relação entre a nossa “sociedade individualista” e o aumento dos transtornos comuns de saúde mental nos últimos 50 anos.

Ele também tem uma pesquisa que mostra que os problemas de saúde mental ocorrem mais frequentemente em sociedades desiguais, onde as pessoas vulneráveis são muitas vezes deixadas para trás. Ao desperdiçarmos “capital social” na busca individualista de maior riqueza, ou tratamos redes sociais como incidental, estamos negligenciando uma parte da vida que nos faz feliz e nos mantém saudáveis por mais tempo?

Este relatório também cita pesquisas que sugerem que pessoas solitárias, muitas vezes compartilham certas características: incluem mais histórias de perda ou traumas e uma infância passada com uma parentalidade negativa, crítica e severa.

A solidão é muitas vezes a sensação central que dá origem a emoções de raiva, tristeza, depressão, inutilidade, ressentimento, vazio, vulnerabilidade e pessimismo. Pessoas solitárias frequentemente sentem que não são queridas, são muitas vezes auto-obcecadas e não têm empatia pelos outros. Eles temem rejeição e mantêm-se distantes, o que alimenta a solidão.

As pessoas que estão sós acham, muitas vezes, que todo mundo está bem enquanto eles não estão. Elas pensam que são as únicas que carregam um fardo. Tive clientes que falaram sobre colocar seu avatar em vez de compartilhar a verdade sobre si mesmo. E pode ser difícil saber quando é apropriado fazer a mudança do que é para o que deve ser.

Portanto, em uma sociedade que está envelhecendo, com mais e mais pessoas vivendo sós, qual é a solução? Eu acredito que nunca é tarde demais para mudar, e que a psicoterapia pode ajudar as pessoas a curarem as feridas de seus passados e estabelecerem novos padrões de relacionamento com os demais. Mas a dependência desta relação com o especialista também pode se desenvolver, com o terapeuta tornando-se um substituto de confidentes fora da sala de consultoria.

Estou no conselho consultivo do The Talk for Health Company Ltd (T4H), que é uma empresa social, instituída pela psicoterapeuta Nicky Forsythe. Ela treina as habilidades das pessoas para deterem a solidão, para terem compartilhamento autêntico e escuta empática.

Depois de um curto treino inicial, os grupos criam sistemas de apoio a longo prazo que comprovadamente melhoram o bem-estar de forma significativa. O objetivo final do T4H é criar redes de confidentes, nas quais qualquer um pode encontrar um lugar para se conectar em um nível mais profundo.

* Por Philippa Perry, do The Guardian, em 17 de fevereiro de 2014. Tradução: Sofia Lucena. Disponível Aqui

 

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