Sobre o Tempo… parte III

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Santo Agostinho: “Pois não me venham mais dizer que é o movimento dos corpos celestes que constitui o tempo… É em ti, meu espírito, que eu mensuro o tempo”.


Aqui estamos nós, nessa terceira e última parte de “Sobre o Tempo…”, mas agora mergulhados no pensamento do filósofo italiano Giorgio Agamben. As informações contidas neste breve resumo foram extraídas do trecho “Tempo e história: crítica do instante e do contínuo” do livro “Infância e história: destruição da experiência e origem da história”, do mesmo autor.

Concepção do Tempo pela Antiguidade Grego-Romana

O movimento circular, que assegura a manutenção das mesmas coisas através da sua repetição e do seu contínuo retorno, é a expressão mais imediata e mais perfeita (e, logo, a mais próxima do divino) daquilo que, no ponto mais alto da hierarquia, é absoluta imobilidade.

Para Platão, o tempo é medido pela revolução cíclica das esferas celestes, o tempo é definido como uma imagem em movimento da Eternidade.

Aristóteles reafirma o caráter circular do tempo. O tempo sendo essencialmente circular, não tem direção. Não tem início, nem centro, nem fim, ou melhor, ele os tem somente na medida em que, em seu movimento circular, retorna incessantemente sobre si mesmo. Representação do tempo como um continuum pontual, infinito e quantificado.

O instante, em si, nada mais é que a continuidade do tempo, um puro limite que une e, simultaneamente divide passado e futuro.

A incapacidade do homem ocidental de dominar o tempo (e a sua consequente obsessão de “ganhá-lo” e de “fazê-lo passar” tem o seu primeiro fundamento nesta concepção grega do tempo como um continuum quantificado e infinito de instantes pontuais em fuga.

A determinação do ser autêntico como “presença ao olhar” exclui uma experiência da história, que é aquilo que já está sempre lá sem jamais estar sob os olhos como tal.

Concepção Cristã do Tempo

A imagem que guia a conceitualização cristã é a de uma linha reta. “Ao contrário do helenismo, o mundo, para o cristão, é criado no tempo e deve acabar no tempo. De um lado, a narrativa do Gênese, de outro, a perspectiva escatológica do Apocalipse. E a criação, o Juízo Final, o período intermediário que se desdobra de um a outro desses dois eventos são únicos. Este universo criado e único, que começou, dura e acabará no tempo, é um mundo finito e limitado dos dois lados de sua história. Não é nem eterno nem infinito em sua duração, e os eventos que se desenrolam nele não se repetirão nunca.

Santo Agostinho: “Pois não me venham mais dizer que é o movimento dos corpos celestes que constitui o tempo… É em ti, meu espírito, que eu mensuro o tempo”.

Todavia, o tempo assim interiorizado é ainda a sucessão contínua de instantes pontuais do pensamento grego. Para ele o tempo contínuo e quantificado não é abolido, mas simplesmente transferido do curso dos astros à duração interior.

Guilherme de Auvergne: “Para teres uma imagem da relação entre eternidade e tempo, tenta imaginar a eternidade como uma roda imensa e, dentro dela, a roda do tempo, de modo que esta última toque a primeira em um só ponto. Dado que a eternidade é totalmente imóvel e totalmente simultânea, toda vez que a roda do tempo toca a roda da eternidade, tal contato ocorre apenas pontualmente em sua rotação, razão pela qual o tempo não é simultâneo.”

Concepção do Tempo na Idade Moderna

A concepção do tempo da idade moderna é uma laicização do tempo cristão retilíneo e irreversível, dissociado, porém, de toda ideia de um fim e esvaziado de qualquer sentido que não seja o de um processo estruturado conforme o antes e o depois.

Esta representação do tempo como homogêneo, retilíneo e vazio nasce da experiência do trabalho nas manufaturas e é sancionada pela mecânica moderna, a qual estabelece a prioridade do movimento retilíneo uniforme sobre o movimento circular.

A experiência do tempo morto e subtraído à experiência, que caracteriza a vida nas grandes cidades modernas e nas fábricas, parece dar crédito à ideia de que o instante pontual em fuga seja o único tempo humano.

O antes e o depois, estas noções tão incertas e vácuas da antiguidade, e que, para o cristianismo, tinham sentido apenas em vista do fim do tempo, tornam-se agora em si e por si o sentido e este sentido é apresentado como o verdadeiramente histórico.

Concepção do Tempo por Hegel

Hegel pensa o tempo de acordo com o modelo aristotélico do instante pontual. Hegel pensa o agora como ponto. Este agora, que “não é mais do que a transição do seu ser ao nada e do nada ao seu ser”, é a eternidade como “verdadeiro presente”. O tempo (…) é o ser que, enquanto é, não é e, enquanto não é, é: o devir intuído. Como tal, ele é formalmente idêntico ao homem, este ser negativo que “é o que não é e não é o que é”.

O Modo de Marx pensar a história…

A história não é para ele algo em que o homem cai, ou seja, ela não exprime simplesmente o ser-no-tempo do espírito humano, mas é a dimensão geral  do homem, enquanto ser capaz de um gênero, isto é, de produzir-se originalmente não como mero indivíduo nem como generalidade abstrata, mas como indivíduo universal. A história não é então determinada, como em Hegel e no historicismo que dele descende, a partir da experiência do tempo linear enquanto negação da negação, mas a partir da práxis, da atividade concreta como essência e origem do homem.

O homem não é um ser histórico porque cai no tempo, mas, pelo contrário, somente porque é um ser histórico ele pode cair no tempo, temporalizar-se.

Concepção Ocidental do Tempo

Quer seja pensado como círculo, quer como linha, o caráter que domina toda concepção ocidental do tempo é a pontualidade. Ao círculo da experiência grega e à linha reta do cristianismo, ela contrapõe uma concepção cujo modelo espacial pode ser representado por uma linha de partida.

O tempo homogêneo, infinito e quantificado, que divide o presente em instantes inextensos, é, para os Estóicos, o tempo irreal, cuja experiência exemplar se encontra na expectativa e no diferimento.

A subserviência a este tempo inapreensível constitui a enfermidade fundamental que, com o seu adiamento infinito, impede a existência humana de possuir a si mesma como algo único e completo. Defronte a ela o estóico coloca a experiência libertadora de um tempo que não é algo de objetivo e subtraído ao nosso controle, mas brota da ação e da decisão do homem.

O tempo infinito e quantificado é assim repetidamente delimitado e presentificado: o cairós concentra em si os vários tempos e, nele, o sábio é senhor de si e imperturbável como um deus na eternidade. Ele é a “última demão” dada, a cada instante, na própria vida, que livra radicalmente o homem da sujeição ao tempo quantificado.

Finalizando…

Aristóteles já havia percebido que o prazer não é homogêneo à experiência do tempo quantificado e contínuo. “A forma do prazer é perfeita em qualquer momento”, e acrescenta que o prazer, diversamente do movimento, não se desenrola em um espaço de tempo, mas é “a cada instante um quê de inteiro e de completo”.

Isto não significa que o prazer tenha o seu lugar na eternidade. A experiência ocidental do tempo está cindida em “eternidade e tempo linear contínuo”. O ponto de divisão, através do qual estes se comunicam, é o instante como ponto inextenso e inapreensível. A esta concepção, que condena ao fracasso toda tentativa de dominar o tempo, deve-se opor aquela outra segundo a qual o lugar próprio do prazer, como dimensão original do homem, não é nem o tempo pontual contínuo nem a eternidade, mas a história.

A história, na realidade, não é, como desejaria a ideologia dominante, a sujeição do homem ao tempo linear contínuo, mas a sua liberação deste: o tempo da história é o cairós em que a iniciativa do homem colhe a oportunidade favorável e decide no átimo a própria liberdade.

Assim como o tempo vazio, contínuo e infinito do historicismo vulgar deve-se opor o tempo pleno, descontínuo, finito e completo do prazer, ao tempo cronológico da pseudo-história deve-se opor o tempo acirológico da história autêntica.

Verdadeiro materialismo histórico (…) é aquele que, a cada instante, é capaz de parar o tempo, pois conserva a lembrança de que a pátria original do homem é o prazer.

Referências
AGAMBEN, Giorgio (2008). Tempo e história: crítica do instante e do contínuo. Em A,G. Infância e história: destruição da experiência e origem da história. Belo Horizonte: UFMG.

Foto destaque de Sonam Yadav no Pexels


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Luciana Helena Mussi

Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: lucianahelena@terra.com.br.

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