Sobre o tempo… parte II

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O tempo tem passado tão rápido que eu já deixo minha árvore de Natal montada dentro do armário. É como se ele tivesse encurtado e ficado mais rápido. Tudo sugere velocidade, urgência.

Devemos partir da confusão que cada um de nós sente, que foi bem demonstrada por Santo Agostinho em seu livro ‘Confissões’, livro XI. ‘Então, o que é o tempo?’, escreve Santo Agostinho.  ‘O que é o tempo?’  Se ninguém me pergunta, eu sei. Se me perguntam e eu quero explicar, não sei mais.” (André Comte-Sponville)


Depois de “O Tempo” de Mario Quintana, chegamos na nossa longa pausa reflexiva relacionada ao documentário “Quanto tempo o tempo tem” (2015) da diretora Adriana L. Dutra e do codiretor Walter Carvalho. Como fiz a transcrição de todas as falas – narradora e demais convidados – decidi, manter algumas delas na íntegra (tamanha relevância de conteúdo e argumentação. Digo algumas porque caso eu me decidisse discorrer sobre todos os relatos, esse texto se prolongaria em até 12 partes, o que considerei excessivo.

Sei que conselho não se dá, nem se vende, mas, de qualquer maneira, deixo a sugestão: assista, será um aprendizado e, ainda melhor, um profundo exercício sobre O Tempo.

Em cada um dos trechos, farei uma breve análise – Eu, a intrusa – claro, de acordo com meu entendimento particular sobre esse Senhor “O Tempo”.

Afinal, o que é o tempo?

– Narradora: O tempo tem passado tão rápido que eu já deixo minha árvore de Natal montada dentro do armário. É como se ele tivesse encurtado e ficado mais rápido. Tudo sugere velocidade, urgência. E eu, por mais que me dívida e me multiplique em várias, eu não tenho tempo.

Não tenho tempo para a demanda do meu trabalho, nem de ler todos os livros e ver todos os filmes que me interessam, nem de atender todas as ligações ou de responder tantos e-mails e curtir as milhares de fotos.

Não tenho tempo de dormir as horas que desejo e muito menos de estar ao lado daqueles que amo. Sinceramente, não tenho tempo nem para fazer esse filme, por isso, está decidido, vou parar tudo e me lançar pelo mundo, vou à procura de quem me ajude a encontrar uma resposta para entender o que aconteceu com o meu tempo. Vou à procura do tempo. Mas afinal, o que é o tempo?

– Eu: Se me perguntassem sobre Ele, eu diria que quando nos damos conta da sua existência, pronto, Ele já se foi carregando nossa vida na pesada bagagem. E tudo acontece tão rápido que parece que foi ontem e só não é ontem porque meu rosto e minha cara revelam os sinais Dele, O Tempo.

– André: Devemos partir da confusão que cada um de nós sente, que foi bem demonstrada por Santo Agostinho em seu livro “Confissões”, livro XI. “Então, o que é o tempo?”, escreve Santo Agostinho.  “O que é o tempo?”  Se ninguém me pergunta, eu sei. Se me perguntam e eu quero explicar, não sei mais.”

– Eu: Sim, as palavras escapam ao tentarmos defini-Lo. Acho que Ele tem vida, identidade própria, nega-se a nos dar maiores explicações sobre a sua dinâmica, sua existência. Dele apenas sabemos do seu nascimento e morte, que estranhamente se confundem com os nossos, determinados por Ele.

– Marcelo: O homem – falando genericamente a humanidade – é absolutamente obcecado pela passagem do tempo. Né? E a questão é: Por que isso?

– Eu: Óbvia a resposta: a constatação de uma inevitável finitude que insiste em bater a nossa porta e nos deixar assim, tão humanos.

– Thierry: Ao vir ao mundo, começa a contagem trágica e angustiante. Assim que nasço, que chego à Terra, chego para morrer.

– Eu: É a ameaça constante, a irritante ameaça iminente de morte. Se é a do outro, amanhã pode vir a ser a nossa ou, muito pior, a de quem amamos loucamente.

– Arnaldo: Tempo é uma invenção de viventes. Porque se não houvesse nenhum ser vivo, ou pelo menos nenhum que contasse a própria destruição, não haveria tempo. Se não houvesse nenhum ser humano, ou ser vivo, só o espaço, como haveria tempo? Meio estúpido. Já me disseram que tem, só que eu não entendo.

– Eu: Seríamos masoquistas contumazes? Viemos ao mundo para sermos eternos sofredores, carrascos de nós mesmos? Algozes implacáveis do tempo?

– Francis: Portanto, as coisas não são tão simples. Por que as coisas não são tão simples? Porque se pode dizer que o presente existe para nós, já que nós sempre existimos no presente. Não faz sentido dizer que existimos no passado, já que, no passado, existíamos no presente. E, no futuro, existiremos no presente. E até mesmo na minha memória o que está na minha cabeça agora, está no presente.

Me lembro de algo do passado, mas não vou até o passado, é agora. E quando imagino o futuro, é uma imaginação presente. Então, alguns filósofos concluíram: só o presente existe.

– Eu: É que o passado reside apenas na memória e o futuro restringe-se a uma ideia que pode ou não se tornar real. Então, o que nos resta é viver um presente, iluminado ou assombrado pelo que já foi e não é mais, e um vir a ser que, seguramente, pode nem ser.

– Francis: Aos poucos fomos percebendo que o presente se reduz, e reduz. Não é mais simplesmente nem um ano, nem um mês, nem uma semana, nem um dia, nem uma hora, nem um minuto, nem um segundo. É um instante. E um instante não existe. Um instante não existe, é um limite. Consequentemente, ao tentarmos dizer “só existe o agora”, temos muita dificuldade em capturar esse instante, pois ele não existe.

– EU: Exatamente por isso, insisto na ideia de um tempo que escorre, esvai, difícil capturá-lo principalmente quando a percepção é boa, prazerosa. Quanto melhor se está, mais esse instante se transforma em um mero fragmento, um estilhaço… e acabou.

– André: Então, tudo que está no tempo, por definição, vai desaparecer. Menos a única coisa que não desaparece: o presente. Mais uma vez, desde que você nasceu, que eu nasci, o presente nunca nos deixou. Nós nunca deixamos o presente. O que o tempo não faz desaparecer? O presente, quer dizer, o próprio tempo.

– Eu: E na esteira do tempo, estamos nós…

O documentário trabalha questões como: “quanto tempo os seres humanos levaram para ter consciência do tempo” e “como os humanos começaram a medir o tempo”.

A contagem do tempo

A narradora ainda aborda a “infinidade de máquinas que nos ajudam a administrar melhor nosso tempo: máquinas de poupar tempo, como o telefone, o avião, o carro; máquinas de enriquecer o tempo, como o rádio, os videogames, os DVD players; máquinas de estocar o tempo, como o computador, os CDs, a secretária eletrônica; máquinas de programar o tempo, como os despertadores, os cronômetros e  as agendas eletrônicas.” 

E, ela destaca tudo que, infelizmente estamos cansados de saber: “continuamos em estado de alerta esperando sempre pela próxima urgência”.

Assim, não damos conta nem de nós mesmos.

Solidão

– Narradora: Que espécie de solidão é essa? Solidão acompanhada. Solidão compartilhada. Nem o tempo, nem o espaço conseguem nos separar. Tão juntos e tão sozinhos Um bando de solitários cercados de informações por todos os lados à procura da felicidade instantânea.

– Eu: Felicidade essa que não existe, talvez fragmentos, ou melhor, instantes. São tantos os estímulos, bombardeios de informações que, muitas vezes, esquecemos que existe um alguém ao nosso lado. Desconhecemos os silêncios, os olhares. Ignoramos que apenas o fato de estarmos juntos, sem nada mais ao redor, já nos torna plenos. A atenção à presença do outro e à escuta são alimentos para essa dura solidão a dois.

“E fique aberto ao que se passa. É o presente. E você verá que esse presente permanece presente. E viverá, assim, alguns minutos de eternidade. O presente nunca falha. O presente sempre está lá, inteiro. Só você pode se apropriar de seu tempo. E se apropriar do seu tempo, é viver o presente.”

A finitude

Sim, não há mais nada a dizer: somos mortais.

E, para enriquecer ainda mais as reflexões, cada convidado, traz uma visão da finitude, de todos nós e cada um de nós, por uma perspectiva diferente e, devo dizer, intrigante.

Em certos momentos, creio que uma ou outra me veste melhor, mas devo confessar que não sei, oscilo entre o mais intenso otimismo e desemboco no pior dos abismos.

Como não chegaremos a um acordo, vamos às visões de quem, seguramente, entende bem mais que do eu, uma eterna aprendiz:

– Narradora: O nosso tempo tem um fim. Mas o tempo continua. O tempo parece ser infinito. Ele jamais cessa.

– Nélida: Eu penso na morte todos os dias. O que eu acho terrível é a dor. É a indignidade da morte. Muitas vezes você não tem quem te proteja, quem te cuide. Porque você é pautado pela delicadeza, pela limpeza, pelo bom trato, né?

– Nilton: Cada vez que acompanho esse processo das pessoas de terem vivido a vida, mais claro fica pra mim é de que há um grande alívio, em dado momento, pois você exerceu o que tinha que exercer. É um… É um processo natural e misericordioso. A morte.

– Marcelo: É justamente porque vivemos dentro desse tempo finito, que tentamos de alguma forma driblar esse limite temporal. Então, a gente cria teorias científicas, poemas, sinfonias, literatura, a receita que vai de geração em geração da família… Todas essas criações, na verdade, podem existir fora do tempo.

– Coen: A perspectiva da morte é muito agradável pra nós. Porque ao saber que isso termina, o sabor é melhor. (rindo) Se acharmos que isso não termina nunca, acho que perde um pouco a graça. Então, a morte é uma companheira muito querida da vida. E caminham juntas.

– Erick: Acho interessante que seja assim. Porque a finitude significa também a possibilidade de transformação. Se eu continuo sendo, a mesma coisa, né? E se continuo existindo, vivendo… Ahn, me replicando, ad eternum, eu não abro espaço pra diferença. E a diferença, pra mim, é o que produz vida. A diferença é o novo. Aí o novo só pode existir num mundo em que tem de lidar com a finitude, com aquilo que termina quando chega no final. Acho que precisamos disso.

-Coen: Um dia todos se tornarão budas. Ficarão dispersos e iluminados (rindo) e perceberão que não é bem isso. Que o tempo é o tempo. E que ele é precioso. Que o tempo-vida é precioso e é pra ser apreciado cada instante dele. Às vezes dá certo, às vezes não dá. Às vezes o dinheiro vem, às vezes não. Mas viver, com intensidade, essa é a coisa mais preciosa que existe. Apreciando a vida, dar valor a cada instante da existência. Isso é que vale.

Finalizando o documentário, a explosão da Narradora: “Dei a volta ao mundo em 80 minutos. Conversei com físicos, filósofos, jornalistas  sociólogos, cientistas, religiosos, escritores, pensadores, e agora o tempo do filme acabou. Volto pra casa, um ano depois, ainda sem saber quanto tempo o tempo tem. E parece que ninguém sabe.  Mas de certa forma, isso tudo me trouxe alívio. Em mim, agora, só cabe um instante de cada vez, mesmo que o mundo continue acelerado.”

O filósofo italiano Domenico Di Masi, sociólogo e escritor, completa a sua participação com um alerta, na verdade está muito mais para bronca:

“Se você continuar a viver o tempo como o vivia antes, este filme é inútil para você e para todos. É um roubo. Porque é inútil perder tempo trocando ideias se esta troca de ideias não muda a nossa existência.

O tempo é precioso. O tempo é precioso porque é cheio de possibilidades. Se, depois de passar o tempo, eu vivo como vivia antes, significa que não aproveitei as possibilidades. Portanto, todos nós temos que viver, devemos vivenciar esta ocasião como uma meditação sobre o tempo, que deve servir para mudar o modelo de vida do seu tempo.”  

E você, leitor, já sabe “Quanto tempo o tempo tem?”

Participam do documentário “Quanto tempo o tempo tem: Adriana L. Dutra, a diretora, como a narradora; André Comte-Sponville, filósofo e escritor; Marcelo Gleiser; físico e escritor; Arnaldo Jabor; jornalista e cineasta; Francis Wolff; filósofo e escritor; Domenico Di Masi, sociólogo e escritor; Arthur Dapieve, jornalista; Alexandre Kalache, médico geriatra; Monja Coen Sensei; monja budista; Tom Chatfield, escritor e teorista da tecnologia; Luiz Alberto Oliveira; físico e cosmólogo; Raymond Kurzweil; cientista futurista; Erick Felinto, professor especialista em cibercultura; Stevens Rehen, neurocientista; Nélida Pinõn, escritora.

Foto destaque de Mathias P.R. Reding no Pexels


Luciana Helena Mussi

Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: lucianahelena@terra.com.br.

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