Só sobraram os idosos na cidade fantasma

É o que trata a matéria, publicada no jornal Hoje em Dia e oje Em Dia e e assinada por Ana Lúcia Gonçalves, em 17/10/2010. O que está acontecendo nesta pequena e simpática cidade no Vale do Rio Doce, reinaugurada em 2004, após seu território original, a sete quilômetros de distância, ser inundado para a construção da Usina Hidrelétrica de Aimorés?

 

 

Nenhuma maldição ronda a pequena Itueta. A resposta é simples: por total falta de uma perspectiva profissional os jovens de Itueta, completamente desiludidos, acabaram migrando para outras cidades em busca de trabalho.

Para a professora e diretora da Escola Estadual Américo Vespúcio e também presidente da Rede Vidas, uma ONG que promove o desenvolvimento sustentável da cidade -, os jovens são a maior preocupação. “A expectativa da maioria dos meninos que concluem o segundo grau é conseguir trabalho. Como não conseguem, vão embora”. A gerente executiva da Rede Vidas, Cyntia Carreira Boechat, acrescenta ainda: “E como os jovens estão indo embora em busca de trabalho e renda, ficam as poucas crianças e os moradores mais velhos”.

Envelhecimento da população

A pesquisa do Censo no período de 1970 a 2000, mostra uma diminuição do percentual de crianças e jovens até 15 anos e aumento da expectativa de vida, ou seja, os casais estão tendo menos filhos e os idosos, vivendo mais e, dessa forma, Itueta, uma cidade que tem cerca de 5.600 habitantes vai se tornando uma cidade habitada por crianças e idosos.

Esse, aliás, é um fenômeno que está ocorrendo no mundo inteiro, mais significantemente na Europa, Russia, parte de Ásia e da América do Sul. As pessoas estão demorando mais para morrer porque estão se cuidando, praticando hábitos alimentares saudáveis e se exercitando. A maioria dos casais está optando por ter menos filhos ou nenhum porque os custos para criar um filho dentro de um padrão bom estão ficando cada vez mais altos. Esses fatores fazem com que aumente o número de idosos e diminua o número de crianças, isso é o que se chama de envelhecimento da população e, com a população envelhecendo mais rapidamente, alguns especialistas apontam graves consequências para a sociedade, particularmente no que diz respeito à saúde, trabalho e renda.

Inúmeros problemas podem e já estão ocorrendo com o envelhecimento da população, tais como altos gastos com a previdência social, como temos visto recentemente acontecer com a França, por exemplo. Problemas com serviços de atendimento ao idoso, diminuição da mão de obra (menos crianças significa ter menos trabalhadores no futuro) também são comuns.

Em Itueta, por exemplo, com os jovens indo embora em busca de uma oportunidade profissional, toda rotina que seria normal de uma cidade, passa a ser modificada por conta desse fator. Como nem todas as estradas vicinais foram realocadas, moradores da porção norte abandonaram o comércio de Itueta e agora preferem se deslocar até municípios mais acessíveis, pois ficaram isolados por conta da construção da usina. O comércio que não encontra mais clientes na cidade, fecha as portas e vai se estabelecer em cidades vizinhas. O município também sofre com falta de lazer. Não tem cinema, teatro e a diversão fica então limitada às praças, quadras poliesportivas e uma única pizzaria.

Em entrevista à imprensa, a dona de casa, Amélia Evangelina (foto) de 68 anos, diz que só não vai embora porque não tem para onde ir. A idosa que passou a metade da vida trabalhando na cidade vendendo biscoitos e doces na linha férrea da cidade aos passageiros do trem, lamenta: “Eu tinha muita plantação no quintal, pés de manga e coco. Recebi esse lote limpo e tive que plantar tudo de novo. Ainda não consegui me acostumar. Conheço muita gente que se foi, não aguentaram viver nesse lugar, que mais parece um cemitério de tão vazio”. A idosa vive com os dois filhos na “nova Itueta” – os outros sete mudaram-se para cidades maiores e para o exterior.

Abandonados, com os filhos morando em outras cidades, estados e até países, os idosos passam a viver sozinhos, sem opção de lazer, de autonomia, relegados ao poder do Estado, do Município.

E dessa forma, a pequena Itueta vai sobrevivendo e estabelecendo grandes desafios para quem é responsável pelo desenvolvimento sustentável da cidade, para o Estado e para toda a sociedade.

O conceito de autonomia, como uma forma de quantificar qualidade de vida passa a ser muito discutido e a própria redefinição do conceito de envelhecimento, também. Precisamos debater esse tema desde já, se não quisermos todos, num futuro não tão distante, sermos habitantes de outras cidades fantasmas.

Fonte: Acesse Aqui. Créditos de imagem: Leonardo Moraes

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