Sexo na maturidade

Especialista em medicina geriátrica e envelhecimento pela Fundação Educacional Lucas Machado (Feluma/FCMMG), em medicina de família e comunidade pela Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC), Daniel Moura é professor titular do curso de enfermagem da Universidade Salgado de Oliveira (Universo-BH), além de atuar na atenção primária e no serviço de urgência pela Prefeitura de Belo Horizonte e prestar atendimentos domiciliares em serviço de home-care, exclusivamente para idosos. Em entrevista ao Bem Viver, ele fala sobre a relação entre sexo e o processo de envelhecimento, incluindo mudanças biológicas e psicológicas.

 

O que muda com relação ao sexo quando ficamos mais velhos? Qual é a resposta sexual normal nos humanos?

Com o envelhecimento, notam-se mudanças na resposta sexual humana, com conseqüente aumento da incidência dos distúrbios sexuais nesse segmento populacional, relacionados com fatores presentes nessa fase da vida, entre os quais podemos destacar a queda do status hormonal (esteróides sexuais), a deterioração das condições sociais, sintomas depressivos e uma relação pobre em diálogo e afeto entre os casais. Para falar sobre as mudanças biológicas no processo de envelhecimento, é necessário que antes se faça uma introdução acerca do ciclo de resposta sexual normal nos humanos. O homem e a mulher têm um ciclo de resposta sexual que podemos didaticamente separar em quatro fases: excitação, platô, orgasmo e resolução. Esse ciclo tem algumas diferenças entre os gêneros: na fase de excitação, o homem atinge a ereção a partir de um estímulo visual, um toque ou uma fantasia. Segue-se o platô, quando se elevam as tensões sexuais antes de atingir o ponto máximo, que é a seguinte fase – orgasmo – e normalmente se associa à ejaculação. A fase de resolução é quando ocorre o relaxamento. A fase de excitação na mulher marca o período em que ela se lubrifica pelos estímulos eróticos e é seguida pelo platô, quando a mulher se encontra com as tensões sexuais elevadas. Marcante nesse ponto é a lubrificação vaginal, para atingir o clímax. Quando a mulher está no seu grau máximo de excitação ela pode atingir um ou mais orgasmos. Depois desse tempo, tem-se a fase de resolução, com um relaxamento das tensões sexuais.

Quais são as principais mudanças biológicas no processo de envelhecimento?

No processo de envelhecimento ocorrerão mudanças nesse ciclo, que não podem ser encaradas como perdas, mas sim transformações, que podem ser vivenciadas com menos ansiedade e angústia, desde que haja esclarecimento. Ao chegar à maturidade ou meia-idade, a mulher viverá uma nova realidade hormonal, com redução da capacidade ovariana de produzir estrogênio (esteróide sexual feminino) e também androgênios (outro esteróide sexual), entrando no período que chamamos de climatério, depois da menopausa. O climatério indicará na mulher uma transição entre a vida adulta e a terceira idade, com um declínio na produção dos esteróides sexuais. Esses hormônios são diretamente relacionados ao comportamento, desenvolvimento e uso das funções sexuais. Além de seus efeitos sobre o sistema nervoso central, os estrogênios têm também uma ação sobre os genitais. Em virtude do declínio da ação dos hormônios sexuais no sistema nervoso central, pode-se notar uma redução do desejo sexual e uma diminuição das fantasias e sonhos eróticos. Na fase de excitação sexual, nota-se uma resposta sexual mais lenta; redução da congestão sangüínea local; diminuição do entumescimento mamário (aumento dos seios); menor capacidade de elasticidade vaginal para acomodar o pênis, com certa atrofia genital e diminuição dos pêlos pubianos; diminuição da lubrificação vaginal e redução da sensibilidade do clitóris. Pode haver também uma diminuição da duração, intensidade e freqüência do orgasmo. O declínio na produção de androgênios pelo homem com o avançar da idade é um pouco diferente das mulheres. O desejo sexual; o grau das ereções no coito, sono, masturbação e freqüência das ereções matinais; a freqüência de coito e masturbação sofrerão reduções na quantidade ou intensidade. Na fase de excitação, poderá haver uma demora maior em atingir e manter uma ereção plena e firme – o que também não impossibilita a penetração. Poderá também haver uma maior ocorrência de ejaculação retardada; diminuição da quantidade de sêmen ejaculado. Na fase de resolução, temos uma demora maior no intervalo entre uma ereção e outra, o que pode levar horas e até dias. Finalmente, é importante frisar que não existe um padrão no ritmo do envelhecimento, que é individual. As transformações são graduais e cada um vai vivenciá-las de um modo diferente. O declínio progressivo da atividade sexual não é regra geral para todos os indivíduos.

Geralmente, os casais que estão há muito tempo juntos reclamam do excesso de intimidade, da falta de libido e do afastamento. Como evitar que isso ocorra?

O nível de comportamento do interesse sexual é essencialmente o mesmo entre indivíduos casados e solteiros. É sabido que experiências sexuais passadas, classe social e fatores objetivos e subjetivos da saúde contribuem para a variação do comportamento sexual. Muitos casais deixam o exercício da sexualidade por achar que ele não resiste ao processo de envelhecimento, prejudicando assim a troca afetiva que poderá ser realizada em qualquer fase da vida. O processo de genitalização do sexo que impera em nossa sociedade faz com que a excitação sexual e o desejo estejam mais conectados ao estímulo visual erótico, preocupando-se menos com o caráter mais romântico das relações sexuais. Assim, a falta de libido e o afastamento podem ser amenizados com o incremento das fantasias e da troca de afeto entre os casais, retornando a uma situação vivida no namoro, quando a expectativa do toque, do carinho e do olhar estimulavam o desejo contido no outro.

Como os idosos conseguem lidar com a sexualidade dos jovens de hoje, tão exposta em todos os sentidos?

Atualmente, a oferta do sexo genitalizado pênis/vagina, da valorização dos corpos jovens e sarados e a pornografia exposta são marcantes no nosso dia-a-dia. Mas a exposição da sexualidade é antiga na humanidade, desde as pinturas rupestres em cavernas. O responsável pela má reputação do voyerismo e do exibicionismo são os aspectos mais grotescos e agressivos dessa prática do olhar e se mostrar. A bagagem cultural que essa geração de idosos carrega, que vem da época do “eu finjo que não me mostro e você finge que não me vê”, pode encarar com certas restrições essas manifestações explícitas de hoje em dia, mas eu não diria que essa atitude seja característica de pessoas de alguma faixa etária definida. Existe uma versão que a partir da velhice há uma assexualização do corpo, o que não é verdade. A vontade de mostrar os genitais sempre existe, de um modo mais ou menos explícito, mas o importante é se a pessoa está ou não preparada para desfrutar da sexualidade e afetividade sem culpas ou negativismos.

É verdade ou mito que os casais com mais de 60 ou 70 anos perdem o prazer pelo sexo?

Há um aumento das disfunções sexuais na terceira idade, sendo que a atividade sexual e, em menor extensão, o interesse pelo sexo diminuem. O desejo sexual hipoativo ou inibido pode estar relacionado ao processo biológico do envelhecimento, bem como a doenças sistêmicas crônicas (como o diabetes melitus, insuficiência cardíaca etc.), medicamentos, conflitos conjugais, mas sempre levando-se em conta que, concomitantemente, poderá haver também uma diminuição das manifestações de carinho e afeto. O fim das atividades sexuais do casal está relacionado principalmente à falta de desejo e problemas de ereção nos homens. Alguns autores chegam a afirmar que metade das mulheres na terceira idade classifica a disfunção sexual como um dos piores problemas nessa etapa da vida. Entre os homens, um estudo americano recente mostra um crescente aumento da incidência da disfunção erétil e de desejo com o aumento da idade, afirmando que cerca de metade dos homens com mais de 40 anos apresentarão certa dificuldade de alcançar ou manter uma ereção em alguma oportunidade. Entretanto, apesar das alterações fisiológicas, a perda de prazer pelo sexo é uma característica muito individual, na qual estarão implícitos muitos fatores psicossociais, inerentes ao parceiro (por exemplo viuvez, parceiros com doenças graves, entre outros); inerentes à própria capacidade de manifestar afeto, como aspectos religiosos; culturais, entre outros. Não se pode afirmar certamente se há uma fase da vida em que atingimos o auge sexual, porque pode-se ter um auge tanto no ponto de vista quantitativo quanto qualitativo. O declínio progressivo da atividade sexual não é regra para todos, sendo que alguns podem até experimentar um aumento do interesse sexual em virtude de uma diminuição dos comportamentos repressivos ou mudanças do estilo de vida.

Quais são os principais problemas sexuais dos homens e mulheres na terceira idade?

Independentemente do sexo, a idade modifica o funcionamento fisiológico dos órgãos genitais por vários motivos, o que, no entanto, não prejudica tanto a sensação prazerosa do toque, do contato e da manifestação do afeto. Portanto, seria de se esperar que o índice de abstinência e disfunção sexual entre os idosos fosse menor. Entretanto, o abandono do exercício da sexualidade pode ser decorrente de fatores emocionais desencadeados por experiências negativas ou traumáticas, repressão sexual e solidão. Alguns autores afirmam que, associado aos fatores fisiológicos e psicossociais, as mulheres atribuem mais a diminuição do desejo sexual à falta de parceiro, isto é, as idosas, por motivos externos, têm seu desejo diminuído exclusivamente pela dificuldade de estabelecer uma relação, ou seja, obter um parceiro sexual. Já os homens afirmam que, por causa de sua dificuldade no genital (disfunção erétil), o desejo sexual diminui, ou seja, o desejo sexual masculino estaria ligado diretamente ao funcionamento perfeito do pênis. Dessa forma, podemos concluir que, além das experiências sexuais passadas e fatores objetivos e subjetivos da saúde que contribuem para a variação do comportamento sexual, os homens associam mais seu desejo às condições do próprio pênis, enquanto as mulheres a fatores ligados ao parceiro.

Qual é o melhor tratamento para o casal quando o problema é o sexo?

Em comparação com os jovens, os idosos apresentam mais disfunções sexuais de ordem física do que psicológica, até mesmo porque estas já poderiam se manifestar antes da terceira idade. O primeiro passo é tentar identificar quais são os reais motivos da disfunção sexual, desde os psicológicos até os orgânicos. Daí pode-se partir para uma avaliação com um profissional que possa ajudar e guiar o tratamento, com o intuito de desenvolver possibilidades físicas e afetivas de melhora do desempenho sexual, seja um médico, um terapeuta ocupacional, fisioterapeuta, terapeuta sexual, psicólogo, entre outros. A informação e a educação são fundamentais para a compreensão das mudanças que se sucedem no envelhecimento, sendo chave nos tratamentos. Contudo, os problemas orgânicos podem ser tratados com terapias medicamentosas paliativas ou definitivas, desde o uso de lubrificantes vaginais durante o coito até o uso de medicamentos vasodilatadores locais, terapias de reposição hormonal ou colocação de próteses penianas. Assim, cada caso deverá ser tratado particularmente, devendo ser valorizado o papel do profissional preparado para cada situação, não havendo um tratamento melhor, e sim o mais indicado para determinado problema.

Como os idosos estão lidando com a avalanche de estimuladores sexuais no mercado?

A procura por substâncias estimulantes, que possam melhorar ou tratar a disfunção sexual, tem sido maior nos últimos tempos, mas ainda é cercada de mitos e fantasias. A maioria dos homens e mulheres está pouco ou mal informada sobre o que é sexualidade. Esse conhecimento é ainda abalado por uma série de mitos e crenças com base em conhecimentos errôneos e fantasiosos, que prejudicam a sexualidade de quem acredita neles. A falta de informação profissional precisa sobre o assunto gera muita confusão e mitos a respeito de estimuladores sexuais. A fantasia de um desempenho sexual vigoroso entre idosos, do elixir da juventude, faz parte do imaginário de muitos há muito tempo, sendo até retratada por Hollywood em filmes (lembram-se daquele filme em que casulos extraterrestres foram colocados em uma piscina e idosos que se banhavam nela adquiriam uma vitalidade maior – Cocoon?) e diariamente veiculada na mídia. Antes de usar qualquer medicamento ou substância, é necessário procurar um médico para as devidas orientações, pois deve-se interar sobre qual o tipo de disfunção sexual e, a partir daí, iniciar um tratamento correto voltado para o problema.

E o que podemos esperar do futuro?

No futuro, espera-se que as disfunções sexuais sejam menos freqüentes, com um melhor uso da informação (educação sexual) e de métodos preventivos contra doenças que possam gerar disfunções sexuais. Hoje em dia, as preparações hormonais para homens na andropausa (queda na produção de hormônios masculinos, que desencadeia disfunções sexuais) contendo testosterona podem ser encontradas em formas fáceis de aplicação, como adesivos cutâneos ou em gel. O recente aparecimento de facilitadores da ereção por via oral, como o sildenafil, a fentolamina, foi um considerado avanço no tratamento. Outras opções são encontradas na homeopatia, principalmente com o uso de tranqüilizantes em pacientes com ejaculação precoce. Na homeopatia também há substâncias consideradas estimulantes, com efeitos comprovados sobre a sexualidade. Entre as mais estudadas estão o ginseng, a maca (originária do Peru) e o Tribulus terrrestris. Enfim, há uma gama de produtos disponíveis no mercado, mas o mais importante diante de uma disfunção sexual é procurar um profissional indicado para adquirir as informações e o tratamento voltados para desenvolver possibilidades físicas e afetivas de melhora do desempenho sexual.
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Fonte: Saúde Plena, disponível Aqui. Dia 13/11/2006.

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Redação Portal do Envelhecimento

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