Sem sonhos, não dá para viver nem morrer

Ann mostra as pequenas coisas que dão sentido à vida pela lista de sonhos que lhe fazem viver. E se a vida é feita de escolhas, sabe que morrer não é. É uma condição de nossa espécie, faz parte da vida, e que é necessário encontrar oportunidades para enfrentar a última partida.


Não sei sentar na frente de uma pessoa e dizer que ela vai morrer. Essa é a fala do médico ao dar a notícia a Ann (Sarah Polley), 23 anos, que ela tem mais ou menos 2 a 3 meses de vida. Essa é a trama do filme canadense “Minha vida sem mim” (2003), com direção e roteiro de Isabel Coixet. Ann é mãe de duas garotinhas, Penny (Jessica Amlee) e Patsy (Kenya Jo Kennedy), e é casada com Don (Scott Speedman), que constrói piscinas. Ela trabalha todas as noites na limpeza de uma universidade, onde nunca terá condições de estudar, e mora com sua família em um trailer, que fica no quintal da casa da sua mãe (Deborah Harry). Seu pai há dez anos está na prisão. Um dia, após passar mal, Ann descobre que tem câncer nos ovários e que a doença alcançou o estômago e logo estará chegando no fígado, assim ela terá no máximo três meses de vida. Sem contar a ninguém seu problema e dizendo que está com anemia profunda, Ann faz uma lista de tudo que sempre quis realizar, mas nunca teve tempo ou oportunidade. Ela começa uma trajetória em busca de seus sonhos, desejos e fantasias, mas imaginando como será a vida sem ela.

O que gostaríamos de refletir sobre o filme é que em primeiro lugar a morte não está associada a velhice, mas faz parte da vida. E em segundo lugar, se tivéssemos a possibilidade de sabermos nossa partida quais seriam nossos últimos desejos, independente da idade que se tenha? Ann fez uma lista. Nela estão coisas banais, como mudar o cabelo, colocar unhas postiças, dançar, sentir-se viva com outro homem que a desejasse além de seu marido, comer doce, dizer às filhas que as ama, enfim, desejos que representam pequenos prazeres aos quais não damos importância em nosso cotidiano, de tão atolados que estamos.

Ann mostra as pequenas coisas que dão sentido à vida. E se a vida é feita de escolhas, a maioria sociais, a morte não é uma delas. É uma condição de nossa espécie, faz parte da vida, apesar de a colocarmos no lado sombrio de nossa existência, negando-a. Com Ann verificamos que é possível encontrar oportunidades para enfrentar a última partida.

Sabendo de sua gravidade e querendo aproveitar o resto de tempo com suas filhas e marido, ela rejeita fazer qualquer tipo de tratamento, pois não quer que o hospital seja sua última lembrança nem de suas filhas. O médico, depois de dar a sentença, passa a atendê-la sentando-se frente a ela, e não mais ao seu lado. Em uma consulta lhe diz:

– Morrer não é tão fácil quanto parece.

E Ann sabe que não é, a começar ela não tinha a prática de pensar sobre sua vida, a vida em si, e passou a fazer isso depois que soube que seu tempo era curto. Em outras palavras, a morte lhe trouxe vida. A reflexão que faz no supermercado é bem interessante, pois ali ninguém pensa em morte, mas os produtos que se compra são verdadeiros “venenos” que vão intoxicando nossos corpos, matando-os vagarosamente. Nessa mesma linha de pensamento Ann, em certo momento diz que “os mortos não sentem nada e nem lamentam”, fazendo uma alusão à uma sociedade entorpecente, como a que vivemos atualmente.

“Minha vida sem mim” leva o espectador a refletir sobre a vida e sua finitude, de forma simples, às vezes piegas, infantil, mas de forma a fazer com que cada um reflita sobre a sua, a começar pela lista de sonhos a ser elaborada. Caneta em mãos?


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