Saramago: ateu graças a Deus

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“Há também quem diga que, para nós, é uma grande sorte que Deus não queira aparecer-nos por aí, porque o pavor que temos da morte seria como uma brincadeira de crianças, ao lado do susto que apanharíamos se tal acontecesse. Enfim de Deus e da morte não se têm contado senão histórias…”

Carlos Alberto Fernandes *

 

saramagoJosé Saramago. Fragmentos do livro: As intermitências da morte. Para todos, sempre chega o momento em que você tenta fechar as contas de sua vida. Diante dessa realidade, o que lhe dá a medida de como viveu é o que vai faltar para o mundo quando você não estiver mais. José Saramago, Prêmio Nobel de literatura de 1998, está morto. Todavia, para o crítico literário norte-americano, Harold Bloom, “um gênio morto está mais vivo do que nós.” Em 2003, por meio do seu livro Gênio, os 100 autores mais criativos da história da literatura, Bloom considerou José Saramago o mais talentoso romancista vivo, referindo-se a ele como “um dos últimos titãs de um gênero literário que se está desvanecendo”.

Nesse aspecto, os países de língua portuguesa e, por que não, toda a humanidade, está com seu patrimônio diminuído. Esse genial formulador e contador de histórias, inclusive, sobre as intermitências da morte, desapareceu, mas permanece vivo na história literária da hum anidade. Na sua literatura, é mestre na forma e no conteúdo.

O estilo de Saramago é inteiramente contrário à recomendação de frases curtas. Ele é conhecido por utilizar frases e períodos longos, usando a pontuação de uma maneira não convencional. Muitas das suas “sentenças” ocupam mais de uma página, usando vírgulas onde a maioria dos escritores usaria pontos finais. Todavia, o seu estilo não torna a leitura mais difícil, mas é único, na literatura contemporânea.

A carreira de Saramago foi acompanhada de diversas polêmicas. As suas opiniões pessoais sobre religião ou sobre a luta internacional contra o terrorismo são discutidas e criticadas. Logo após a atribuição do Prêmio Nobel, o Vaticano repudiava a honraria a um “comunista inveterado”. De outra parte, alguns críticos achavam que ele era contra os judeus; mas ele se defendia dizendo que apenas criticava a política de Israel em relação aos palestinos.

Logo após a sua morte, o nicho inquisitório que ainda sobrevive na igreja católica apressou-se em declarar que Saramago era um intelectual aprisionado em sua confiança profunda no materialismo histórico. O que não era novidade para ninguém. Afinal, para eles, ser agnóstico pode ser um mal maior do que os pecados cometidos pelos religiosos pedófilos.

Uma das razões dessa cisma resulta da obra de Saramago: “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, ocasião em que o autor, usa da sua genialidade para apresentar Jesus dentro dos limites da natureza humana. Adaptado para o teatro em 2001, o livro, foi motivo de crítica ferrenha por parte de grupos religiosos que consideram a obra uma ofensa à Igreja. Por isso, seria difícil imaginar o acolhimento da igreja à memória do homem que transformou em literatura de qualidade o fato de Jesus ser humano.

Certamente, se existisse mais pessoas com as qualidades pessoais de Saramago, o mundo seria um lugar melhor para se viver. Independente de sua genialidade literária e de suas convicções pessoais, Saramago era um homem de origem humilde, ético, e, comunista, sempre. Defensor de causas humanitárias declarava-se agnóstico e, com relação à morte e a Deus, só lamentava o fato de estar hoje e amanhã não estar mais aqui.

* Economista e professor da UFRPE

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Fonte: Acesse Aqui, Terça-feira, 22 de Junho de 2010.

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