Roberto Aureliano Salmeron: longevidade e ciência

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Uma viagem fascinante, por uma vida de trabalho honesto e dedicado, que nos leva a refletir sobre a longevidade e a ciência. A aleatoriedade dos fatos relacionados às vidas das pessoas pode abreviá-las ou estendê-las, mas parece que atuar em busca do bem comum, ajuda a prolongá-la. 

José Roberto Castilho Piqueira (*)


Nesta semana, entre notícias sobre ministérios, pandemia e alardes sobre o eterno abuso de recursos públicos, uma perda real para a ciência e educação de nosso país: faleceu o professor Roberto Aureliano Salmeron, brilhante pesquisador brasileiro, radicado na França, aos 98 anos. Um trabalho que representa quase um século de dedicação ao conhecimento, descobertas e transmissão. Como hoje temos acesso rápido à informação, sugiro que, via sites de busca, pesquisemos as realizações do sempre querido professor.

É uma viagem fascinante, por uma vida de trabalho honesto e dedicado, que nos leva a refletir sobre a longevidade. A aleatoriedade dos fatos relacionados às vidas das pessoas pode abreviá-las ou estendê-las, mas parece que atuar em busca do bem comum, ajuda a prolongá-la.

Nestes tempos de raciocínios binários, alguém pode dizer: era brasileiro, mas trabalhava para a França, em uma bravata pseudonacionalista. É sobre isso que quero falar, uma vez que os feitos científicos do professor Salmeron estão à disposição de todos.

Salmeron - ciência e longevidade
Foto: site FAPESP

Quero falar um pouco de como ele contribuiu para minha vida acadêmica e de como trabalhou pelo Brasil, durante toda sua longa trajetória.

No final da década de 1960, a corrida espacial e o desenvolvimento tecnológico fascinavam parte dos jovens que, mesmo vivendo fora dos grandes centros, sonhavam em participar desse progresso. Eu começava a estudar Física no chamado curso científico, em uma escola pública do interior do estado de São Paulo.

A Física me fascinava, mas as aulas eram confusas e desinteressantes. Eu perambulava pelas livrarias e sebos, procurando livros sobre o assunto e, para minha felicidade, encontrei dois livros, de capa mole e em formato de apostila: Óptica1 e Eletricidade/Magnetismo2. O autor: Roberto A. Salmeron.

Clareza de exposição e interconexão da teoria com o mundo real, fizeram desses dois livros, meus companheiros durante toda a vida. No vestibular, na graduação e nos cursos que lecionei, foram suporte essencial.

Quando adquiri os livros, talvez em 1967, eu não sabia da importância científica de seu autor que, alguns anos antes voltou ao Brasil para tentar, na UnB (Universidade de Brasília), realizar nosso sonho, por uma universidade livre, plural e democrática para benefício de todos brasileiros.

Esse sonho e sua destruição encontram-se muito bem descritos no livro: “A Universidade Interrompida”, escrito, também, pelo professor Salmeron, que revela o físico e humanista que ele sempre foi3.

Posso dizer que, até o final dos anos 1990, fui seu admirador sem conhecê-lo. Nessa época, na condição de membro da comissão de graduação da Poli-USP, tive a honra de conhecê-lo pessoalmente.

Ele era professor da Politécnica de Paris (École Polytechnique) e conduziu de maneira altruísta, o primeiro acordo de duplo diploma da Poli-USP. A iniciativa de Salmeron com a Poli-USP propagou-se por toda USP e pelas principais universidades do país. Vivendo na França, ajudou, mais uma vez, a melhorar o Brasil.

Havia, entretanto, um grande obstáculo. Os alunos da Poli-USP iam para a França e tinham dificuldade em Matemática que, por lá, é ensinada de maneira mais formal e rigorosa do que por aqui.

Para ajudar nossos alunos, ele visitou a Poli-USP e fez várias reuniões com os professores, para orientação e preparação dos alunos. Numa delas, eu estava.

Pude conversar com ele, discutir ideias sobre ensino e pesquisa. A partir daí, passei a ter contato com o professor Salmeron sobre vários assuntos. Suas conversas eletrônicas sugeriram, entre orientações acadêmicas seguras, a internacionalização da “Revista Polytechnica”, implementada de maneira competente pelos professores da Poli-USP.

Sempre preocupado com o Brasil e com a Poli-USP, era assim que o querido professor pensava: conhecimento em benefício da humanidade, sem esquecer suas origens.

Obrigado, professor Roberto Salmeron.

Referências
SALMERON, R.A. Introdução à Óptica. São Paulo – SP: do autor, 1956.
SALMERON, R.A. Introdução à Eletricidade e ao Magnetismo. São Paulo – SP: do autor, 1959.
SALMERON, R.A.  A Universidade Interrompida: Brasília 1964-1965 Brasília, DF: Editora da UnB,  1998.  
ENTREVISTA: “Vida na Ciência” de Roberto A. Salmeron (03 de janeiro de 2013)

(*) José Roberto Castilho Piqueira – é Engenheiro.


Narrar é longeviver

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