Rever o passado facilita entender o presente e projetar-se no futuro

O filme “Uma casa à beira mar” nos ensina: rever o passado facilita entender o presente e projetar-se no futuro. Foi o que aprendemos no dia 28 de agosto em mais uma sessão de cinema e debate Itaú Viver Mais, projeto desenvolvido especialmente para pessoas com mais de 55 anos, em seis estados brasileiros: São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Curitiba, Brasília e Salvador.

 

O nome original do filme é “La Villa”, dirigido por Robert Guédiguian, com estreia em 2017, e que competiu no Festival de Veneza, e também no de Toronto, do mesmo ano. Nesta trajetória de festivais, La Villa conquistou dois prêmios e foi indicado a outros dois. Os prêmios que ele recebeu foram no Festival de Cinema de Veneza: o Prêmio SIGNIS e o Prêmio UNIMED, ambos para o diretor Robert Guédiguian.

Como curiosidade, apontei no debate em que participei, em São Paulo, no Bourbon Pompeia, que, os três atores, Ariane Ascaride (Angèle), Jean-Pierre Darroussin (Joseph) Gérard Meylan (Armand), sempre acompanham os filmes de Guédiguian, sendo que a atriz é sua mulher na vida real. É por esse motivo que eles, quando jovens, surgem alegres num flashback nostálgico, num mesmo cenário à beira-mar, cena que foi incluída agora, mas é do longa “Ki lo sa?”(1986), ao som de I Want You, de Bob Dylan. Pelas declarações do diretor na mídia, fica claro que ele simpatiza com a Esquerda, e nesse filme podemos observar que se debruçou nos problemas sociais e políticos, onde a igualdade, a fraternidade e a liberdade são apresentadas pelos sonhadores Maurice e seu vizinho Martin (Jacques Boudet), que sofrem com a decadência e abandono da Vila, onde só restam, além da família principal, o jovem pescador e apaixonado Benjamim (Robinson Stévenin), o casal Martin e Suzanne (Geneviève Mnich) e o filho Yvan (Yann Trégouët).

Em “Uma casa à beira mar”, o patriarca Maurice (Fred Ulysse) tem um AVC, e os dois filhos Angèle (Ariane Ascaride) e Joseph (Jean-Pierre Darroussin) que por muitos anos se distanciaram voltam ao vilarejo, onde está o irmão, Armand (Gérard Meylan), o filho que ficou na ilha cuidando do pai, da propriedade da família, e do restaurante, que para ele simboliza os sonhos, ideais e o exemplo paterno. A reunião deles acaba tratando sobre o passado e o presente do local, e com outros desdobramentos do filme, que indicam possíveis projetos para o futuro dos personagens. 

Considerando que os temas que poderiam nortear o debate viriam do próprio público, estes foram estimulados a refletir sobre o que o filme despertou, qual foi o olhar deles, qual cena chamou mais a atenção. Foi o suficiente para começarem a falar sobre suas interpretações. Interessante que, um a um, eles foram pontuando os diversos aspectos do filme que possibilitaram avançar para uma abordagem de temas bem relevantes para essa faixa etária, como relações familiares; conflitos intergeracionais; afetos, ressentimentos; culpas; solidariedade; questões políticas e econômicas. Salientamos temas mais contemporâneos, como a questão dos refugiados que chegam à Europa a cada dia; as vilas e vilarejos “abandonados” de diversos países europeus com a queda da natalidade e com o envelhecimento da população; e o choque cultural e de expectativas entre as gerações anteriores, e as que vieram depois. Quanto aos refugiados não entramos em discussão, mas fizemos uma breve pontuação dos que estão chegando ao Brasil neste momento.

Na medida em que o público fazia suas observações, usávamos suas falas, contextualizando os temas. Assim, ao apontarem as relações familiares dos personagens, discorremos sobre a influência das escolhas atreladas ao exemplo dos pais nas trajetórias dos filhos; a diferença entre o sonho que se tem quando é jovem de mudar o mundo, e como ele se revela na prática quando somos mais velhos. Lembramos que não existem culpas, mas escolhas, e estas sofrem influências do ambiente, da época, das necessidades, das limitações e das expectativas sociais.

Algumas pessoas da plateia apontaram as questões das perdas, visto tanto no discurso dos personagens, quanto na situação local, esta por conta da eminente exploração da Vila pelas incorporadoras e do turismo. Nesse aspecto refletimos sobre as mudanças que acontecem sempre, sendo que a vida segue como o trem, que a todo instante passava no aqueduto, indo e vindo, como simbolizasse o presente, passado e futuro, ecoando em nossas perdas, seja do lugar que nos identifica (casa, bairro, cidade, país), ou de nossa própria juventude, do tempo que se foi mas não volta. A nostalgia dos personagens os faz pensar num passado mais feliz, um tempo que se foi e que hoje só ficou na memória, de um mundo melhor que foi deixado para trás, que envelheceu e que não tem futuro.

Para o casal Martin e Suzanne, o que está em jogo é a recusa de viver num mundo diferente do que se acostumaram, falam da saudade do tempo em que as pessoas tinham palavra, e de quando um ajudava o outro e não pensavam apenas em si mesmos. A decepção deles com o novo cenário os fazem questionar se ainda há espaço para eles nesse “novo mundo”, e essa rigidez, os leva para um desfecho trágico, o suicídio.

Foi no momento que a plateia discutia a relação do casal com o filho Yvan, um médico bem sucedido, que uma das senhoras pediu a palavra para dizer que os pais não gostavam do filho porque não só recusavam sua ajuda financeira, como nunca fez um gesto de carinho. O murmúrio que seguiu na plateia foi intenso, o que nos deu oportunidade de falar que a interpretação dos fatos seria diferente, não esquecendo que se dá pelas experiências pessoais, portanto respeitar o outro e as diferenças seria um ato democrático. Colocamos que atitudes, como abraço e beijos não são frequentes nas famílias europeias, quanto nas latinas, e talvez isso também pudesse ser levado em conta na interpretação.

A questão da solidariedade surgiu na figura das três crianças refugiadas (interpretados por Haylana Bechir, Ayob Oaued e Giani Roux), que foram encontradas pelos irmãos na ilha, que as escondem dos soldados que buscam por elas. Aparentemente essa aparição detona entre eles uma espécie de expiação, que os leva a se reconciliar com o passado, visualizar e ressignificar um futuro.

Quanto ao suicídio do casal, algumas pessoas disseram que eles não queriam ser dependentes e que foi o amor que os fez morrer juntos, para não sentirem a perda do outro. Novamente, usando uma interpretação pessoal, mostrei que o suicídio poderia ser um ato simbólico, da morte em vida do idoso que não se relaciona com este mundo, portanto perguntei se essa seria a maneira escolhida para não enfrentar o envelhecimento e as possíveis perdas inerentes dessa fase de vida, que deveríamos refletir se essa atitude é a saída, ou se podíamos viver o presente com projetos de vida futuro, buscando novas maneiras de enfrentar a velhice.

No fechamento do debate, apontamos que não se visita o passado para se punir, mas para reconstruir nossa vida, e buscamos nos erros e fracassos, o sucesso e a sabedoria que a experiência de vida nos deu, deixando de lado o que teria acontecido, caso nossas escolhas fossem outras. Não basta dizer que “naquele tempo era melhor”. Afinal, que tempo era esse? É necessário questionar que tempo era aquele e que tempo é hoje, ter uma visão crítica, não valorizar somente o que passou. Tudo se renova, e essa dificuldade em abrir-se ao novo, apenas impossibilita ao indivíduo a viver o presente, e que essa rejeição a mudanças o impede de participar do futuro, afastando-o da oportunidade de estar interagindo com o outro. Quando só reproduzimos o passado, ficamos na “mesmice”, nada muda, e devemos entender que o ser humano também se transforma, assim, atualizando-se e aceitando novas formas de se inserir neste tempo ou mesmo vivendo experiências novas é que será possível prosseguir vivendo, produzindo e transformando o seu meio. É preciso abandonar os preconceitos e abrir sua mente para entender o estilo de vida das novas gerações.

O debate em algumas regiões do Brasil

A sessão de cinema Itaú Viver Mais ocorre sempre na última terça-feira de cada mês, e após a sessão sempre há um especialista do Portal do Envelhecimento mediando o debate. Como sempre, no início do debate, alerta-se sobre a importância de respeitar o olhar do outro, salientando que as interpretações são pessoais, pois elas derivam de suas histórias de vida, referências culturais, religiosas e sociais. Assim, o cinema irá permitir a compreensão do outro e de nós mesmos, porque na tela nos projetamos nas histórias e nos personagens com que nos identificamos.

Salvador contou com as debatedoras Cristiane Magalhães e Silvia Correa e acolheu o filme de braços abertos. O estilo lento e delicado do diretor Guédiguian, agradou a esmagadora maioria dos espectadores que participaram do debate. O isolamento inicial dos personagens, que, em contato com a simplicidade da pacata vila, o resgate das relações familiares e a chegada das crianças, se dissolve, dando espaço a laços renovados, à esperança e ao recomeço, sintetiza boa parte dos depoimentos.

No debate ocorrido em Curitiba, que teve como debatedora Lígia Schiavon Ferreira Barrichello, diversas opiniões e aspectos interessantes foram levantados. Ressaltaram a união que foi provocada pela doença, e que foi preciso acontecer algo grave para que acontecesse a reaproximação, e assuntos que estavam pendentes fossem tratados.  Isso envolve a questão de como é importante olhar para si e se perdoar; e olhar para o outro, tendo empatia e perdoando também; pois muitas vezes as situações tomam proporções muito grandes, e deixamos de viver coisas boas por rancor e mágoa.

No Rio de Janeiro, Arthur Moreira da Silva Neto e Arianna Kassiadou Menezes foram debatedores, e apontaram que o filme é riquíssimo em subtramas e possibilidades de reflexões. O destaque foi para as diferentes perdas que desestabilizam as relações intrafamiliares, gerando conflitos que parecem insuperáveis. Segundo os debatedores, o tempo foi curto para tantas outras discussões pertinentes, como o cuidador masculino.

Em São Paulo, no Espaço Itaú Cinema Frei Caneca, a debatedora Natalia Carolina Verdi assinalou que o filme proporciona uma reflexão sobre a família, os valores pessoais e o convívio em sociedade, e desperta a necessidade de praticarmos a empatia, já que sobre as atitudes dos que tantas vezes estão próximos, não cabe o julgamento, mas a compreensão de que, à ótica de quem as pratica, é uma razão que precisa ser respeitada antes de ser julgada, independentemente da idade que se tenha.

Em Brasília Lucy Gomes, debatedora, conduziu com maestria as colocações, muitas delas com foco no perdão.

Regina Pilar G. Arantes

Regina Pilar G. Arantes

Pedagoga; Mestre em Gerontologia; Especialista em Orientação Profissional; Coordenadora do ECAP/SP; Coordena Oficina de Orientação e Revisão de Projetos de Vida; Coautora do livro Nós Mulheres, volume 3; Pesquisadora e responsável por Relacionamentos do Portal do Envelhecimento; Pesquisadora do grupo de Pesquisa Longevidade, Envelhecimento e Comunicação (LEC) da PUC-SP; palestrante. É colaboradora do Portal desde sua fundação, em 2004, contribuindo com artigos, e na função que exerce até hoje, a dos Relacionamentos. Sua atuação junto aos leitores é gratificante, pois em diversas situações acredita tê-los auxiliado em suas necessidades, não só direcionando suas questões a áreas específicas de atuação dos colaboradores do Portal, como indicando caminhos, enviando material, dando-lhes atenção e palavras de apoio. Email: reginaarantes@uol.com.br

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