Residências não são hospitais

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Espanha assinala residências para idosos menores, apartamentos ou casas com 10 ou 12 pessoas, salas individuais e um ambiente mais acolhedor de moradia.


Na Espanha, metade de todas as mortes por coronavírus ocorreu em residências para idosos, ou como dizemos por aqui, em Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs), cerca de 20 mil. Nos Estados Unidos, 43% das mortes foram registradas em lares de idosos. Na Espanha se admitiu que as ILPIs são locais muito favoráveis ​​ao contágio, com contato físico frequente, população muito vulnerável, espaços comuns, falta de equipamentos de proteção, dificuldades na identificação e isolamento de positivos e falta de pessoal. As recomendações não foram suficientes, apesar da ministra da Defesa Margarita Robles, no dia 23 de março, ter declarado na mídia espanhola que os governantes seriam “absolutamente implacáveis ​​e vigorosos com o tratamento dado aos idosos nas residências”. No entanto, o que de fato aconteceu foi outra coisa, “O Exército, em algumas visitas, conseguiu ver alguns idosos absolutamente abandonados, se não mortos, em suas camas”.

Os muitos idosos mortos encontrados em suas camas mostram a desumanidade de um país e tantos outros, localizados em regiões consideradas mais desenvolvidas, ou seja, civilizadas. Mas se isso é civilização, para onde caminhamos como humanidade? Qual é o sentido que a vida tem na atualidade? No mesmo dia em que o Exército espanhol relata o estado em que estes idosos foram encontrados, mortos, o Ministro da Saúde do país concedeu às comunidades autônomas um período de três dias para estes entregarem ao governo todas as informações disponíveis sobre o que estava acontecendo nas ILPIs, escrevem Diego Lillo e José Luis Fuentecilla para o jornal Nius. Era 5 de abril. Dois meses e meio depois, esses dados ainda não tinham sido apresentados, somente tempos depois.

Fazendo uma relação com o Brasil, cujas mortes em ILPIs não foram maiores porque simplesmente os idosos institucionalizados são muito poucos, eis uma lacuna em nossas políticas públicas. Mas também por aqui não se sabe quantas ILPIs existem de fato. Sim, é isso mesmo. E talvez seja possível terminarmos este período pandêmico sem sabermos quantas ILPIS existem no Brasil, tanto púbicas quanto privadas e filantrópicas; nem tampouco em quais condições elas se encontram.

Joseba Zalakain, especialista em dependência da Fundação Eguía Careaga declarou que “Não sabemos quantas pessoas morreram de Covid nas residências… Não podemos saber se isso tem a ver com hospitalizações, com propriedade pública ou privada, com o horário de fechamento das visitas, com a falta de equipamentos de proteção, com o grau de epidemia na região, com o peso de dependência, uma residência com idade média de 70 anos não é a mesma de 90 anos. Os dados são tão ruins que você só pode ter hipóteses”. O Ministério Público espanhol atualmente investiga mais de 200 queixas de familiares por suposta negligência dos funcionários para com os residentes.

Faltam dados, muitos dados, mas pelo menos a Espanha, Itália e Estados Unidos nos dão certezas sobre o que deve mudar nessas instituições, para que os idosos sejam melhor protegidos contra uma nova epidemia. Entre essas certezas obtidas a partir dos últimos dados espanhóis que são destacadas por Diego Lillo e José Luis Fuentecilla, estão algumas que apresentamos a seguir, esperando esperançosamente que em ano eleitoral no Brasil, candidatos de diversos partidos e cores possam incluir em suas propostas municipais algumas delas.

A) Pensar em outro modelo de residência, menor…
Espanha assinala residências para idosos menores. O modelo apontado como ideal seriam apartamentos com 10 ou 12 pessoas, salas individuais e um ambiente mais acolhedor do que as macro-residências com serviços massivos e padronizados, que acabam negando as identidades e singularidades das pessoas idosas que ali residem.

Portanto, pequenas unidades de coexistência permitem um maior acolhimento, ambiente aconchegante de moradia e, se alguma dessas pessoas for infectada, a taxa de infecção será menor. Enfim, avançar para um modelo coletivo de moradia mais humanizado, afinal, estamos falando de residências cujo modo de morar deve estar no centro das atenções do cuidado.

B) Residências não são hospitais …
Que estas residências, menores, não sejam abandonadas pelas autoridades de saúde, afinal, um residente ainda é um cidadão e se precisar de um médico, deve ter. Residências menores têm maior capacidade de isolar casos suspeitos em grandes casos, além de melhor coordenação com a saúde pública – ou seja, mais pessoal, com equipamentos de proteção e melhor treinamento em epidemias.  A Espanha mostra que o que falhou não foi o atendimento residencial, mas sim o atendimento médico em ILPIs justamente na pior epidemia de coronavírus, principalmente nos locais onde os hospitais estavam mais lotados; e alguns idosos mortos permaneceram lá até a chegada dos serviços  que também estavam sobrecarregados no pior da epidemia.

Mas atenção, melhorar os serviços médicos em residências não significa convertê-las em hospitais e preenchê-las com médicos e enfermeiras; mas melhorar as visitas médicas que os idosos têm direito a receber, que sejam regulares, e que estes possam ser ofertados pelo SUS. É isso que Espanha nos ensina, que deve haver nas ILPIs uma pessoa de referência com os cuidados da atenção primária de saúde.

C) A maioria dos residentes está doente …
Tantos nos países desenvolvidos quanto aqui no Brasil constata-se que o perfil mais comum dos residentes de ILPIs é composto em sua grande maioria de mulheres com mais de 85 anos de idade, com mais de três doenças e que tomam pelo menos sete medicamentos por dia; 44% são admitidos com risco de úlcera, 77% com algum tipo de incontinência e 17% com insuficiência respiratória; e que 18% são pacientes cronicamente avançados com expectativa de vida inferior a seis meses. Esses são os dados mais recentes que a Espanha obteve. Não se sabe qual é o perfil atual dos idosos institucionalizados no Brasil. Mas não deve ser muito diferente.

D) O problema está na gestão privada de um serviço público …
A Espanha nos mostra que a pandemia se concentrou na “privatização e precariedade dos trabalhadores residenciais”, em que esta é uma cortina de fumaça, pois 67% das residências são pequenas empresas e que a questão está em como cada entidade gerencia. Os dados obtidos não dizem que existe um tipo de residência que, devido à sua propriedade, se pública ou privada, teve mais mortalidade, afinal, o Covid-19 não distingue as formas de provisão e administração. Isso, no entanto, não exime a necessidade e urgência de investimentos públicos em residências, as condições em que os lugares são concedidos, a proporção de funcionários e as fiscalizações nas ILPIs.

E) As residências se tornaram uma pechincha para os investidores …
Na Espanha, existem 380 mil residências, 70 mil abaixo da recomendação da OMS; 60% são financiadas publicamente, embora a grande maioria seja administrada por entidades privadas através de um convênio com as administrações públicas. Na Espanha – e começa-se a observar por aqui também -, nos últimos anos, grandes empresas (especialmente as francesas) e fundos de investimento investiram dinheiro no setor residencial. É necessário que o país cumpra as leis existentes e ofereça residências públicas e conveniadas (desde que pague o justo e fiscalize), pois a demanda é muito maior do que a oferta e essa tendência só tende a crescer.

F) Nada é de graça, melhorar as residências exigirá mais dinheiro público
Diego Lillo e José Luis Fuentecilla assinalam no artigo que para os espanhóis ficou claro que se o país quer melhorar a qualidade da assistência e avançar para mais centros de convivência pessoal, esse número, sem dúvida, terá que aumentar. Citam que na França e na Alemanha, quando fizeram a lei da dependência, criaram novas contribuições. E o governo disse às pessoas que, quando existe um novo direito, o dinheiro não vem do céu. No Brasil esse direito está desde nossa Constituição de 1988, depois no Estatuto do Idoso, no entanto, ele nunca foi cumprido apesar de tantos impostos que pagamos. Está na hora de exigirmos dignidade para as velhices de hoje e as de amanhã, a velhice de todos nós.

Foto destaque: Andrea Piacquadio/Pexels


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Beltrina Côrte

Beltrina Côrte

Jornalista, Especialização e Mestrado em Planejamento e Administração do Desenvolvimento Regional, Doutorado e Pós.doc em Ciências da Comunicação pela USP. É docente da PUC-SP. Coordena o grupo de pesquisa Longevidade, Envelhecimento e Comunicação. CEO do Portal do Envelhecimento, Portal Edições e Espaço Longeviver. Integrou o banco de avaliadores do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior – Basis/Inep/MEC até 2018. Integra a Rede Iberoamericana de Psicogerontologia (Redip) e a Red Iberoamericana Interdisciplinar de Investigación en Envejecimiento y Sociedad (RIIIES). E-mail: beltrinac@gmail.com

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