Rememorando o gol de Mazzola

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1958, vai começar o campeonato do mundo de futebol. Vamos ouvir pelo rádio, a maravilha da comunicação, aprimorada durante a guerra recém findada. A guerra acabou antes de eu nascer e começo a viver em um país com alegria.

José Roberto Castilho Piqueira (*)


Pensar sobre o tempo sempre nos remete a Santo Agostinho: se não me perguntam, sei o que é; se me perguntam, não sei. Ao estudar Física nos deparamos com uma simplificação: sem grandes reparos filosóficos, aprendemos a medir algo que chamamos de tempo, observando algum fenômeno repetitivo. Os antigos usavam as posições da Lua, em relação à Terra e a alternância entre dias e noites.

Hoje há medidas muito precisas, usando padrões de emissão de ondas em escalas de frações minúsculas do segundo. Teorias sofisticadas colocam o tempo como uma quarta dimensão, em conjunto com as dimensões espaciais.

Entretanto, parece que nossos sentidos permitem estabelecer uma certa objetividade para as dimensões espaciais, possibilitando a criação de imagens mentais para réguas e fitas métricas.  As escalas temporais, apesar da objetividade dos relógios, sempre soam como construções relacionadas com modelos mentais internos.

O isolamento compulsório estabelecido pela ação de um vírus torna essa constatação quase uma evidência. Com movimentação espacial limitada, começamos a viajar como se tivéssemos a máquina idealizada por H. G. Wells1. Como a máquina do tempo não existe para nossa realidade externa, podemos criá-la  internamente, em meio às nossas sinapses neuronais e às entradas e saídas de íons de nossas células cerebrais.

Parece um trabalho difícil se tentarmos usar nosso conhecimento científico para construir a máquina de Wells, contudo podemos simplificar a oficina de construção: basta relaxar um pouco e deixar o cérebro agir sob nossa supervisão.

Wells relata sua viagem para o futuro, mas o passado também era acessível. Assim, vou levantar a barra de direção rumo ao passado para olhar o que anda acontecendo lá por onde nasci e cresci.

Interior de São Paulo, bairro de imigrantes, operários e pequenos comerciantes, tentando viver melhor. Estou nascendo na casa dos meus pais, pois o costume de levar as grávidas para instalações hospitalares ainda não é totalmente estabelecido.

Passo por tudo que é possível: sarampo, rubéola, catapora são lembranças vagas que deixaram uma cicatriz na testa e uma marca de vacina no braço esquerdo. Tento fotografar minha rua, mas não consigo.

Adianto a máquina cinco anos e me vejo, perto do Natal de 1957, escrevendo uma lista para o Papai Noel. Brinquedos da geração pré-plástico: carrinho de madeira e bola de futebol de couro.

O bondoso velhinho veio e trouxe os dois presentes, para minha felicidade. Com o carrinho, brinquei um pouco, mas a bola era minha paixão. Saí na rua e corri atrás dela com os meninos da vizinhança, até a exaustão.

Outros meninos também tinham as famosas bolas de capotão, lustradas pelo sebo fornecido pelo açougue do meio do quarteirão.

Assim começo a viver o ano de 1958, ouvindo futebol pelo rádio e admirando o trabalho de um vizinho, amigo do meu irmão, cujo pai o abandonara. Inteligente, perspicaz e, por isso, mesmo com 15 anos de idade, já era discotecário da PRD-7. Discotecário é o que hoje se chama DJ e, ainda esclarecendo, PRD-7 é uma rádio da cidade.

Felizmente, na minha casa temos uma vitrola e o nosso vizinho empresta da PRD-7 os discos de 78 rotações, as bolachas negras da época. Aprendo a gostar de Chuck Berry, Hank Willians e do jovem ídolo Elvis Presley.

Música e futebol se misturam. Há boa música brasileira também: Nélson Gonçalves, Demônios da Garoa, Alvarenga e Ranchinho. Domingo pela manhã a PRD-7 se rende ao Cururu, com o Dito Silva se transformando de carregador do mercado em poeta do desafio.

Vai começar o campeonato do mundo de futebol. Vamos ouvir pelo rádio, a maravilha da comunicação, aprimorada durante a guerra recém findada. A guerra acabou antes de eu nascer e começo a viver em um país com alegria.

Estamos no quintal de casa: eu, meu irmão e nosso amigo DJ. O Brasil está jogando contra o País de Gales e nosso otimismo é grande. Afinal, acabamos de destruir o futebol científico da União Soviética.

O jogo é duro e o País de Gales joga fechado na defesa. O gol sai em uma bicicleta de Mazzola. A jogada é tão genial que o juiz não compreende e anula o gol, cometendo uma injustiça histórica.

Eu estou lá e ouvi. Em seguida, Pelé dá um lençol no galês e marca, acabando com o sofrimento. A alegria é geral.

Acho que quero ficar aqui, na Rua Tereza Lopes, 48, no dia 19 de junho de 1958, em que o Brasil se classificou para as semifinais da copa do mundo. Nesse tempo, o brasileiro era cordial e eu, inocente.  

Nota
(1) WELLS, H.G. A máquina do tempo. Rio de Janeiro, RJ: Editora Objetiva,  2010.

(*) José Roberto Castilho Piqueira – é Engenheiro.

Foto de destaque: Jordan Benton/Pexels


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