Relato de integração de psicologia social com gestalt-terapia em um CDI

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Ao buscar integrar direitos do idoso, história de vida, compreensão de afetos e emoções que as permeiam, o CDI, na perspectiva de integração de psicologia social com gestalt-terapia, auxilia na construção de execução de planos e projetos de vida e na experimentação da cidade.

Por Fernando Cocolichio (*)


Este relato permite a reflexão de atuação profissional diante de um cenário de alta vulnerabilidade social ao se tratar de descrição de um caso de garantia de direitos humanos no Brasil frente a situações de violência, mas também propõe desafiar a perspectiva de interseção de instrumentos da Gestalt-terapia aplicadas na cidade. O caso é de um idoso e sua família que foram atendidos em um serviço de proteção social chamado de Centro Dia para Idosos (CDI). Convencionalmente adotaremos nomes fictícios de Jonas, para ele. Laura, Tina e Carlos, para seus filhos.

 O CDI, público, atende idosos que estejam em alguma situação de violação de direito na cidade de São Paulo e que tenham alguma necessidade de cuidados para atividades da vida diária – como mobilidade reduzida, demência, Alzheimer, entre outros. É um serviço integrado à rede de proteção nacional chamado SUAS (Sistema Único de Assistência Social). Existe neste serviço uma equipe multidisciplinar composta por psicólogo, assistente social, enfermeira, nutricionista e terapeuta ocupacional e cuidadores.

Esse cuidado acontece durante o dia ao trazer o idoso para um espaço social e comunitário e levá-lo de volta para casa. Este movimento é chamado de referência e contra referência, pois ao mesmo tempo que se propõe tirar o idoso de um ambiente violador e proporcionar a experiência de vivências sociais significativas, também trabalha com o próprio ambiente domiciliar e a família do idoso – na compreensão da situação de violação e nas múltiplas intervenções necessárias para superá-la. Esta configuração institucional é singular da cidade de São Paulo.

Dado esse objetivo institucional, Jonas, 80, chegou ao CDI por uma denúncia de violência por maus tratos e isolamento social. Ele tinha uma ferida na perna que limitava sua locomoção, tinha indícios de demência e morava em um quarto nos fundos de uma vizinha. O auxílio dado por ela era a compra de mantimentos para a sobrevivência de ambos, pois ela não tinha recursos próprios. Dessa maneira, além da intervenção direta de cuidados básicos de vida, o atendimento estava na reconstituição histórica desse idoso e na compreensão de como eram as relações afetivas e sociais.

Foi um desafio, pois Jonas apenas lembrava o primeiro nome dos filhos. Após algum tempo de busca, uma de suas filhas, a Laura, foi encontrada em um centro de detenção. Ela comentou que havia interesse de retomar o contato com o pai, porém compartilhou que sofrera violência doméstica nas mãos dele. Com Laura foi obtido o contato dos demais filhos. Tina preferiu não entrar em contato com ele. Carlos não foi encontrado.

O trabalho, dessa forma, passou pelo interesse mútuo de Laura e Jonas de se reaproximarem. O atendimento psicológico no CDI se pautava por um lado em criar espaço seguro de olhar para situações traumáticas e ao mesmo tempo proporcionar experiências novas com interações que utilizassem a cidade. Quando Laura saiu da prisão foi ofertado suporte. Quando Jonas, ao participar de festas comunitárias do CDI, pode criar novas memórias afetivas de cuidar e ser cuidado. O reencontro após 40 anos sem se verem. Foi um reencontro emocionante para todos. Ainda, houve espaços de cuidado dessas feridas que provocaram o distanciamento e fragilização dos vínculos.

Utilizando os princípios de gestalt-terapia as intervenções se pautavam pela awareness, nome dado para conscientização, de situações e sentimentos que possam auxiliar no crescimento e desenvolvimento.

O CDI é em si esse campo potencial de crescimento. Ao buscar integrar direitos do idoso, história de vida, compreensão de afetos e emoções que as permeiam. O CDI auxilia, assim, na construção de execução de planos e projetos de vida e na experimentação da cidade e do aspecto humano do ser idoso e ser sua família para que novas configurações possam se estabelecer assim como laços afetivos possam ser fortalecidos, tal qual foi para Jonas e Laura.

(*) Fernando Cocolichio é psicólogo. Atua com proteção social e direitos humanos desde 2014. Especializando em Gestalt-terapia pelo instituto Sedes Sapientiae e membro da IAAGT – International Association of the Advancement of Gestalt therapy. Atua com psicologia clínica em prática privativa e como psicólogo social em um Centro Dia para Idosos, público, na cidade de São Paulo. E-mail: [email protected]

Foto destaque de Vishnu Vasu/Pixabay


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