A relação de amor e ódio no cuidado

Tudo é amor. Até o ódio, o qual julga ser antítese do amor, nada mais é senão o próprio amor que adoeceu gravemente”. (Chico Xavier)

 

Todo tipo de relação pressupõe uma linha tênue entre alguns sentimentos. Em sua maioria, esses sentimentos resultam de uma ambivalência emocional, que ocorre quando uma pessoa tem sentimentos conflitantes em relação à outra pessoa, e isso pode ocorrer de diversas formas e em vários contextos.

Familiar essa situação?

Esse tipo de relação entre sentimentos ocorre com muita frequência no contexto de cuidados, principalmente, quando temos um ente querido que necessita de certa atenção e cuidado por parte de seus familiares ou, pelo cuidador contratado, pois, apresenta dependência em sua rotina de vida.

O momento de decidir quem realizará este tipo de cuidado é o estopim para que amor, ódio e indiferença passem a ser coadjuvantes na relação que será estabelecida neste momento, afinal, escolher e ser escolhido para realizar o cuidado são duas medidas diferentes na vida de quem cuidará.

Neste processo levamos em conta não só o momento de divisão dos cuidados, mas também o histórico emocional e familiar dessas pessoas. O quão se deram bem, se foram pessoas amigas, participativas, presentes, amorosas ou, se foram pessoas que pouco se viam, que não conversavam ou se houve qualquer outro evento que possa ter trazido desentendimentos para este núcleo. Ou seja, o tipo de relação que foi estabelecida durante toda uma vida poderá definir como acontecerá esse cuidado neste momento tão delicado.

Não é incomum encontrar relatos de pessoas que dizem que não cuidarão de seus pais na velhice, pois os mesmos o abandonaram emocionalmente ou financeiramente ou, de alguma outra forma, quando jovem. Este cuidar passa a ser uma obrigação para quem cuida e acaba por alimentar sentimentos negativos que nem sempre estão direcionados aos entes queridos que serão cuidados mas também, para outros membros da família, como por exemplo, aqueles que não querem, por algum motivo, participar do cuidado de alguma forma.

Não é incomum também ouvir relatos de pessoas que cuidam e estão exaustas, sem paciência e que acabam demonstrando sentimentos opostos ao amor à quem cuida, mesmo que momentaneamente.

Logo, amor, ódio, indiferença e até ciúmes podem surgir e atrapalhar essas relações. Para que fique claro, citamos como exemplo o ciúme de um filho no cuidado com os pais. Este filho ama tanto os pais que simplesmente passa a odiar outro parente que tente ajudar neste cuidado, acabando por viver na ambivalência de uma emoção negativa e outra positiva ao mesmo tempo e pela mesma pessoa.

O sentimento de ciúme, de ódio pode ter origem no medo de perder, de ser rejeitado por outra pessoa, de não ser aceito, de não ser perfeito.

Por mais contraditório que possa parecer, esses sentimentos fazem parte da relação de cuidado tanto pela família quanto pelos cuidadores contratados que irão vivenciar expectativas e adversidades nutridas em relação à pessoa neste novo processo.

Muitas vezes perderemos a paciência, estaremos exaustos física e emocionalmente, não iremos querer conversar ou estaremos mais quietos e está tudo bem. Somos humanos e não somos perfeitos. Porém, quando esses sentimentos e comportamentos começam a afetar a nossa vida trazendo mais prejuízos emocionais ainda, é hora de aceitar que é necessário ajuda.

Embora seja algo que depende de cada um, é preciso ter maturidade emocional para saber lidar com as possíveis frustrações que farão parte desta relação e evitar que esses sentimentos desencadeiem lembranças e outras emoções que possam tornar o processo de cuidado algo doloroso e sofrido.

É importante que cada pessoa possa refletir sobre suas próprias emoções, que possa compreender sua história de vida para que dessa forma consiga se relacionar de forma saudável com outras pessoas e a equilibrar os sentimentos ambivalentes que surgem dificultando todo o cuidado. Conheça suas limitações emocionais, para que dessa forma possa ter controle sobre os sentimentos que poderão de alguma forma contaminar suas relações emocionais, familiares, sociais e profissionais.

Já parou para pensar que quando você perde o seu equilíbrio emocional por causa de alguém, é porque essa pessoa tem características muito próximas às suas ou, porque você gostaria de ter ou ser como ela?

Aprenda a respeitar as diferenças, ninguém é igual, somos donos de características positivas e negativas. Respeitando as diferenças, o convívio e o cuidado se tornam saudáveis e livres de expectativas que, quando não atendidas, levarão o indivíduo à sofrimento.

Sempre reflita e tente identificar os motivos que o levam a nutrir esses sentimentos negativos em relação a alguém. Será que vale a pena alimentar ódio com tanto amor que podemos compartilhar?

 

 

 

 

Simone de Cássia Freitas Manzaro

Simone de Cássia Freitas Manzaro

Psicóloga, realiza atendimento psicológico de adultos e idosos. Voluntária na Associação Brasileira de Alzheimer-ABRAz. Experiência em estimulação cognitiva para pacientes com demências; atua com estimulação cognitiva preventiva e consultoria gerontológica, orientando familiares e cuidadores, criando estratégias e atividades para lidar com o paciente no dia a dia, supervisionando treinamento prático. E-mail: simonemanzaro@gmail.com

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