Reflexões sobre a velhice e o morar

Uma comunidade afetivamente ativa ajuda a amenizar as dores das perdas na velhice. Viver plenamente desce o nascer até a morte, criando vínculos, elos de uma malha chamada vida, além dos familiares, a família simbólica, família escolhida e cultivada.

Por Gisele Trindade Flores de Lima (*)

 

As pessoas não se tornam velhas de repente, nem todos com a mesma idade, assim como não se tornam adultas no dia em que chegam à maioridade legal. São processos, onde cada indivíduo tem sua história, sua vivência, seus vínculos e seus cuidados. Além disso, existe o fator aleatório, o qual pode determinar o acometimento de uma doença crônica e incapacitante com a perda total ou parcial de autonomia e independência, tornando um cidadão frágil.

A dependência faz parte de todos os ciclos de vida, em menor ou maior grau: dependência social, afetiva, financeira, física, etc. O cuidar do idoso, em todas as disciplinas, precisa ter o enfoque no sentido emocional e social, além do corporal. Cuidar: ouvir, tocar e olhar! Não é criar um modelo, mas observar a demanda individual de cada ser. O pensamento comum de contraposição entre jovem e velho é um grande equivoco social. O velho é a continuidade do jovem, o reflexo de seus passos.

Com o envelhecimento a tendência é de diminuição das relações: os amigos morrem, os filhos cada vez mais se distanciam por exigências profissionais e pessoais na sociedade atual individualista, a aposentadoria encerra a rotina de contatos com um círculo de convivência mantido muitas vezes por anos, etc. Por isso, uma forma de promover o envelhecimento saudável é criar diferentes redes de relacionamentos enquanto se é lúcido, no decorrer da vida. Buscar ir além de si mesmo, através de uma ampla teia diversa de contatos e atividades. Uma comunidade afetivamente ativa ajuda a amenizar as dores das perdas. Viver plenamente desce o nascer até a morte, criando vínculos, elos de uma malha chamada vida, além dos familiares, a família simbólica, família escolhida e cultivada.

O isolamento social e a solidão são as principais causas de depressão, com efeitos podendo ser devastadores, influenciando a saúde e podendo levar inclusive à morte.  O quadro é agravado quando se trata de pessoas com mais de 75 anos, porque nesta fase estão mais vulneráveis ao surgimento de dependências físicas, déficits cognitivos e dificuldade de autocuidado. O pedido de ajuda não é fácil. Acostumados com a ideia de ser de sucesso, de ser autossuficiente, o pedido de ajuda é uma aceitação de fraqueza. Idosos acabam por se isolarem por não quererem incomodar outros, ou por receio de interferência de terceiros em seu ambiente, em sua casa ou até mesmo por insegurança diante das mudanças inerentes à adaptação.

Depressão é falta de coragem de reinvestir na vida. Viver não é apenas manter-se vivo, sobreviver. Os seres têm necessidades porque vivem, não porque lhes falta vida. Vida além do corpo vivo, suas potencialidades e sua mente precisam estar em expansão, estarem ativas. Por isso é importante o incentivo ao envelhecimento ativo, através de atividades coletivas, em grupos, onde o idoso tenha uma identificação, sentimento de pertencimento e acolhida. Porém, no incentivo da busca dessas atividades é necessário ter cuidado para não querer desmanchar defesas, pois elas podem ser um modo de lidar com uma dor, com uma angústia.

O delicado equilíbrio entre o ‘eu’ e o ‘nós’ é o desafio do novo tempo. Especialmente em relação aos modos de morar. Como atender esse publico de novos idosos? Como iremos morar nos nossos 80 – 90 anos? Estamos nos preparando individual e coletivamente para isso? Inspirados na edição N. 49 da Revista Portal de Divulgação, fizemos um recorte sobre as possibilidades de vivermos coletivamente.

Comunidades de vizinhança

Estudos mostram ser a ação de comunidades de vizinhança uma tendência de prevenção e o combate ao isolamento e a solidão na velhice. As relações de vizinhança com qualidade de pertencimento e onde haja o sentimento de identificação com o local e as pessoas, autoconfiança seja incentivada e atividades em prol de objetivos em comum gerem laços comunitários. As relações de aproximação intergeracional nessas comunidades combatem o preconceito etário. As atividades coletivas, mas respeitando o espaço individual, ampliam as redes sociais ativas e de solidariedade, com cuidado com o próximo, com o vizinho. Existem movimentos acontecendo nesse sentido de incentivo ao convívio comunitário de várias formas e em vários países. Entre eles, estão:

cohousing, cohousing sênior ( EUA/ Canadá/ Dinamarca/ Brasil entre outros): Um grupo cria sua própria comunidade e buscam ter vizinhos amigáveis, confiáveis e úteis. A ideia é viver em grupo, mas mantendo sua individualidade. As responsabilidades domésticas são compartilhadas, há um programa de refeições comuns e algumas atividades compartilhadas. Podem ser intergeracional ou apenas sênior. Características: ênfase nos relacionamentos, design e individualidade na sua área de morar, privacidade no seu lar, varanda espaço de conviver, casa comum de participação coletiva, auto gestão, apelos sustentáveis, pro-ativos para soluções de conflitos. Normalmente não tem enfermaria. Portanto, em caso de uma velhice muito fragilizada é necessitário outra estrutura de moradia. Ex.: Pioneer Valley Cohousing (Colorado); Quayside Village (Canadá)/ Vila ConViver (Unicamp)/ Cohousing Nikkeys brasileiros.

norc/ condomínios assistenciais (EUA): bairros naturalmente criados pela emigração jovem e imigração idosa e moradores que envelheceram no local (aging place), onde vive mais de 50% de pessoas acima de 50 anos. Condomínio de prédios com taxa mensal e oferta elevada de assistência de saúde em sua própria casa. Características: custos de contratações de serviços de cuidados de saúde e enfermagem menores e coletivos, transporte acessível, entrega de compras diferenciada, menor isolamento e depressão na velhice devido a facilidade de acesso a vizinhança, adiamento a eventual institucionalização, maior qualidade de vida comunitária. Ex.: Penn South House/ NY- St. Louis Norc Diferentes tipos: Endent Living, Assisted Living, Nursing Care e Memory .Care

Movimento Comunidades de Vizinhança (Porto, Portugal): Movimento Comunidades de Vizinhança se mantém em atividade, a partir de parcerias com a Fundação Filos, instituição particular de solidariedade social da congregação dos Missionários Claretianos, o Instituto Politécnico de Gaya e cidadãos da cidade do Porto. Apresenta-se como um movimento inspirado na “economia solidária”, de natureza cooperativa. Para sua constituição, os idealizadores se basearam nos artigos 263, 264 e 265 da Constituição daquele país, que contemplam a “intensificação e participação das populações na sua vida administrativa e local”. Para o Movimento, é fator determinante se transformar em expressão de cidadania participativa que valoriza a proximidade de vizinhança, berço de um novo conceito de parentesco: o “parentesco de proximidade”. Nas intervenções têm prioridade as pessoas idosas em situação de abandono, solidão e doença. A rua é o espaço de atuação no qual se procura transformar atitudes de indiferença em iniciativas de solidariedade e presença. Sua missão principal é o respeito aos direitos das pessoas idosas, expressos no artigo 72º da Constituição portuguesa: as pessoas idosas têm direito à segurança econômica, condições de habitação, convivência familiar e comunitária que evitem o isolamento.

Em dezembro de 2010, no mesmo endereço da sede do Movimento, foi inaugurada a primeira Casa dos Vizinhos, local destinado ao encontro. Várias atividades ali são desenvolvidas, como oficinas de tricô, artesanato, cinema e música. Além de entreter, permite criar laços de amizade e afetividade. Outros projetos, além de Sentinelas de Rua e Casa dos Vizinhos, são desenvolvidos pelo Movimento, como distribuição de aparelhos de tele assistência para idosos que vivem ou ficam muito tempo sozinhos. Esses aparelhos são usados como relógio, no pulso, colar ou pescoço, possuem GPS, que ajuda a localizar o idoso caso se perca. Os portadores ficam 24 horas em contato com uma central de enfermeiros e assistentes sociais, apta a receber chamadas não apenas em caso de emergência, mas quando sentem falta de se comunicar com alguém.

O projeto Gerações Empreendedoras tem como objetivos a promoção da solidariedade intergeracional, incentivo do surgimento de talentos que contribuam com ideias inovadoras para solucionar problemas como solidão, isolamento, ressignificação e valorização de experiências e histórias dos idosos. O projeto Mais Um é formado por pessoas/empresas/instituições que voluntariamente, ou por meio de “preços sociais”, inscrevem-se na Bolsa de Procura e Oferta e no Banco de Bens e Serviços, contribuindo para a criação de uma economia solidária, e Casa Doce Lar, projeto em que jovens universitários reconstroem a casa de idosos carentes.

Petits Frères des Pauvres – Voisin-Age – Irmãozinhos dos Pobres – Vizinho-Idade (França): A Associação Petits Frères des Pouvres criou o projeto Voisin-Age (Vizinho-Idade), cuja missão é o desenvolvimento das relações intergeracionais por meio da solidariedade, proximidade e vizinhança, atendendo idosos em situação de isolamento e precariedade, e que existe em várias cidades francesas – Nantes, Nice, Toulon, Grenoble – e em mais oito países. Dela participam voluntários que definem quando e como desenvolverão o trabalho. O site, muito bem elaborado, contém as principais informações sobre o projeto e como tornar-se um voluntário, além de artigos e relatos de pessoas que aderiram ao projeto. Uma chamada na página principal convida as pessoas a encontrarem vizinhos idosos próximos e tecerem ligações de vizinhança e amizade. Um vídeo de animação orienta, de maneira simples e bem-humorada, como fazê-lo. Um link responde a questões como o que fazer quando não se tem, sempre, tempo disponível. O tempo e o meio de fazer o trabalho são definidos pelo voluntário. O que fazer se a pessoa é capaz de somente “dar uma ajuda” em determinados momentos? Nada impede a participação, dentro do tempo disponível. O que fazer quando se sentir inquieto com a pessoa idosa que se visita e surge, por exemplo, um problema de saúde? A orientação é para se dividir o problema com outros voluntários. Se isso não for possível, deve se dirigir ao escritório mais próximo da associação para aconselhamento. Outro link orienta os voluntários como se posicionarem diante dos idosos a serem contatados, informando-lhes que o trabalho não é de ajuda e assistência, e, portanto, não dispensa os diferentes serviços de assistência domiciliar, sociais ou serviços domésticos. É um trabalho gratuito e requer que o idoso queira estar nele inserido. Quando o voluntário faz um primeiro contato e sente resistência por parte da pessoa idosa, é orientado a indicar que a pessoa ligue para o escritório local da Voisin-Age ou passe o número de telefone, para que um responsável entre em contato. São distintos os trabalhos desenvolvidos: uma visita, um telefonema para contar as novidades, um convite para um chá, uma caminhada, fazer artesanato juntos, um passeio, ir ao cinema, ao teatro, entre outros.

O Voisin-Age faz parte do projeto Monalisa – Mobilização Nacional contra o Isolamento Social dos Idosos – lançado no começo do ano de 2015 na França, que tem como principal objetivo chamar a atenção para a solidariedade em relação ao isolamento das pessoas idosas. A mobilização pretende ser um catalisador para recuperar e criar ambientes amigáveis de vizinhança e proximidade, essenciais à coesão social. São formadas equipes de voluntários a partir de instituições assistenciais existentes ou de novas equipes que queiram se organizar. O projeto favorece financeiramente a criação de equipes que se disponham a trabalhar em regiões de difícil acesso, nas quais vivam idosos em situação de vulnerabilidade e exclusão social.

Vila Dignidade (S.Paulo): moradia assistida e gratuita para idosos em pequenas vilas, projeto da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social de São Paulo (SEDS) e a Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU). Voltado ao atendimento de idosos independentes e em situação de vulnerabilidade, o programa oferece áreas de convivência social para o acompanhamento permanente do beneficiado. Desde a criação do Vila Dignidade em 2009, 17 municípios já contam com o projeto. Atualmente, atende 356 idosos com renda de até um salário mínimo, em 336 residências.

Programa Acompanhante de Idosos (PAI) (São Paulo): 2008, definido como modalidade de cuidado domiciliar biopsicossocial a pessoas idosas em situação de fragilidade clínica e vulnerabilidade social pela Secretaria Municipal de Saúde da cidade de São Paulo. Ele coloca à disposição a prestação dos serviços de profissionais da saúde e acompanhantes de idosos, para apoio e suporte nas Atividades de Vida Diárias (AVDs) e suprir as demais exigências de saúde e as sociais. Tem como objetivo desenvolver uma ação na rede municipal de saúde da cidade de São Paulo que contemple a assistência integral à saúde da população idosa dependente e socialmente vulnerável, com dificuldade de acesso ao sistema de saúde e com isolamento ou exclusão social devido à insuficiência de suporte familiar ou social.

Programa “Cidade Amiga do Idoso”: que se baseia nos quatro pilares propostos pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para o envelhecimento ativo: saúde, educação, participação e segurança. Acontece em regiões isoladas da cidade e não coloca em prática os 12 itens propostos pelo Guia Global Cidade Amiga do Idoso, guia oficial que fornece indicadores para nortear os agentes políticos, públicos e particulares a melhorar a qualidade de vida das pessoas idosas nas cidades de todo o mundo. Verifica-se, na prática, que há programas que não funcionam em concordância com a realidade da população idosa. Se o aumento do número de pessoas acima de 60 anos é crescente, igualmente é o número de idosos em situação de isolamento e condições precárias, principalmente em um país em desenvolvimento como o Brasil. Se as políticas públicas não forem suficientes para atender a esse segmento, alternativas precisam ser debatidas, especialmente aquelas que possibilitam a aproximação do setor social ao público, em ajuda mútua para identificação e solução de problemas locais. Desejar uma Cidade Amiga do Idoso remete, primeiramente, a refletir sobre comunidades amigas dos idosos, ou melhor, comunidades amigas. A expressão “amiga dos idosos” denota certa “piedade”. Projetos deveriam estar voltados para a criação de comunidades nas grandes cidades, colaborando para os indivíduos desenvolverem uma mais ampla socialização, oportunidades de trocas de experiências e conhecimentos, e a sensação de que a cidade não é lugar apenas para se locomover, mas para viver e se conviver intergeracionalmente. A criação de micro comunidades a partir do resgate das relações de vizinhança teria, em função do fator proximidade, lugar de destaque na aproximação do setor social ao público, principalmente na identificação, combate e prevenção do isolamento social.

A sociedade atual como um todo visa conquistas e ações individuais. Portanto, não estamos preparados para novas posturas diante da velhice e longevidade. Necessário reaprender a viver em comunidade e lidar com o tempo livre. Algumas atitudes devem praticadas no decorrer da trajetória de vida: formação e consumo cultural, diversificação das atividades ao longo da vida adulta, rompimento de rotinas, fazer amigos e cultivar amizades, elaborar vida interior própria.

Velhice é uma possibilidade de criar outro jeito de ser, de se transformar diante das limitações. Envelhecimento com o avanço da medicina e cuidados preventivos passa a ser um tempo longo e deve ser bem vivido, ser vivido ativamente. O velho vai estar, cada vez mais, num novo lugar social. O ambiente deve proporcionar ao indivíduo tornar-se criador e criado através da singularidade, sentir-se alguém único, com anseios e expectativas próprias. A realidade pouco acolhedora, esvaziada de relações sociais consistentes, leva a menor capacidade de sentir-se de fato como ser singular dotado de interioridade. O meio construído e emocional deve proporcionar recursos para uma vida de continuidade plena.

Referências 

BARIANI, E. “A arquitetura como fator de inclusão social do idoso: Uma proposta pedagógica para os cursos de Arquitetura e urbanismo”. UNESC- CRICIUMA/SC – NOV/2006

CADERNOS DA TERCEIRA IDADE,  v.21 – n.49 – nov.2010 – SESC SP

KATSOUO, H. “Cohousing, o sonho realizado por um grupo de nikkeis brasileiros” – – 31/07/17 – discoverynikkei.org

NERI, A. L. “Gerontologia moderna aponta grandes benefícios da vida em cohousing”. Longevidade ADunicamp, 03/04/16. Disponível em: adunicamp.org.br

LONGEVIDADE ADUNICAMP. “Vila ConViver consolida conceitos sobre o modelo de sênior cohousing”, 6/07/2016 – adunicamp.org.br

LUDOVICI, F. M. e MERCADANTE, E. F.  Modos de Bem dizer a Moradia e suas Questões – Caderno Temático Kairós Gerontologia – v.13 –S. Paulo- nov.2010 – Editorial.

PORTAL DO ENVELHECIMENTO. Caminhabilidade e velhice. Disponível em: https://www.portaldoenvelhecimento.com.br/caminhabilidade-e- velhice/.

REVISTA PORTAL DE DIVULGAÇÃO. Comunidades de Vizinhança em Portugal e na França: lidando com o isolamento social e a solidão dos idosos. Disponível em: https://www.portaldoenvelhecimento.com/revista-nova/index.php/revistaportal/article/view/620/675. Acesso em: 10 out 2017.

REVISTA PORTAL DE DIVULGAÇÃO, n.49, Ano VI, Jun. Jul. Ago. 2016, ISSN 2178-3454. www.portaldoenvelhecimento.com/revista-nova).

SOARES, B. “Cohousing também é opção para idosos”. Jornal Estado de S. Paulo – 05/11/17

SOARES, B. “Envelhecimento pede novo tipo de imóvel”.  Jornal Estado de S. Paulo – 22/10/17

 

(*) Gisele Trindade Flores de Lima, arquiteta prestadora do banco Itaú desde 2005, formada pela Universidade Mackenzie 1997, com cursos de extensão em Acessibilidade: Educação continuada e Certificação em Acessibilidade/ SMPED/SP,2012/. Curso de Arquitetura Inclusiva – Instituo BRASIL ACESSIVEL, 2007/ Acessibilidade e Mobilidade Urbana – G.T ACESSIBILIDADE -CREA/SP, 2005/ participação do GT de ACESSIBILIDADE – IAB/SP (2011) e no 1º Fórum de Moradia e Longevidade – Secovi, 2017. E-mail: giseletflima@gmail.com

 

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