Reflexões sobre o medo da Morte

O medo mais humano, o mais constante, o mais universal de todos os medos: o medo da morte. É o medo menos político e o medo menos histórico, ainda que não seja independente dos fatos históricos.

 

Recentemente, presenteei um cliente com meu livro “O envelhecer diante da ameaça de morte e do desejo de vida – Uma reflexão bergmaniana”. Qual não foi minha surpresa, quando, ao ler o título, ouço da referida pessoa: “Nossa, Morte?!?! Meu Deus, que medo!!!

Você deve se perguntar por que insisto em escrever esse “M” com letra maiúscula. Para mim, ela ou ele, ou os dois simultaneamente, devem ser tratados como soberanos que são, reis e rainhas que comandam, ditam as regras do exato momento de partir. Quando será? Apenas eles poderão dizer. Apenas eles possuem a chave da Caixa de Pandora, simples assim. Então, no meu entendimento, toda reverência e respeito são poucos.

Retornando, a manifestação do medo extremo em questão me fez pensar ainda mais, muito além de tudo que, até então, tenho pesquisado ao longo dos anos. Assim cheguei em “Ensaios sobre o Medo” de Adauto Novaes (jornalista e professor), uma obra que reúne textos de vários intelectuais que buscam refletir sobre um tema tão familiar e ao mesmo tempo tão obscuro, uma vez que cresce nos recantos mais arenosos da nossa imaginação, no qual germinam conflitos e dúvidas existenciais desde sempre.

Na trilha da leitura, lá cheguei, no âmago dos piores dos medos, na emoção que se obtém fora de qualquer controle, que não depende de nós, de sim ou de não, na mais universal: a Morte. “Devemos temer a Morte?” O que seria isso? Dá para conceituar?

Bem, vamos lá, seguindo o pensamento do filósofo francês Francis Wolff, a Morte é o medo menos político e o medo menos histórico, ainda que não seja independente dos fatos históricos: certos períodos, como o da Idade Média, parecem obcecados pela ideia da morte; outros, como o nosso, parecem sobremaneira preocupados em dissimulá-lo, em uma espécie de falso pudor hipócrita.

Falamos abertamente de doenças, de sofrimentos, de assassinatos, de massacres, de terror, mas da própria morte só falamos de maneira camuflada, e do medo que ela inspira – do medo que a nossa própria morte nos inspira – não falamos absolutamente nada.

É como se existisse uma indecência, hoje, no fato de confidenciarmos que sentimos medo de morrer, enquanto foi justamente a partir desse medo que todas as grandes religiões e uma grande parte das obras da humanidade se edificaram.

É possível que não exista um só homem sequer que não tenha sentido esse medo, qualquer que seja a sua nacionalidade, sua classe social, seu sexo, sua idade. A própria criança, na verdade, começa um dia a pensar na morte, na morte dos outros, e às vezes, infelizmente, um dia, na sua própria morte. A criança pensa mais na morte do que um adulto ou até mesmo que um idoso… Para este, a morte já é uma velha ideia que nada mais tem a lhe ensinar, é uma velha companheira com a qual está bem acostumado.

Para a criança, morrer está longe, mas a ideia está próxima, e então ela descobre que morrerá um dia, necessariamente. Ela começa a pensar: “eu”. E pensar “eu” é pensar “eu sou”, “eu sou hoje” – o que quer dizer “eu não estive sempre, houve o mundo antes de mim, haverá o mundo depois. Um dia não estarei mais. Um dia morrerei”.

E essa consciência repentina, essa nova ideia, esse novo medo, o medo da morte, torna-a provavelmente mais fraca (por se saber mortal), mas como criança ela se acha invencível, protegida por toda a eternidade de todos os perigos, protegida por sua mãe, por seu pai; por outro lado esse medo a deixa mais forte, faz com que seja consciente de si mesma.

Seja quem for o homem ou a mulher, todos estão destinados a morrer. Atrás de toda forma de expressão, está desenhada a ideia da morte. O homem é, então, o animal mortal que, como dizia Hegel, o filósofo, deixa de ser animal quando se lembra que é mortal.

Enquanto os homens em geral se comportam como avestruzes e preferem não pensar nisso, e sim em “divertir-se”, filósofos como Epicuro chamam-lhe a atenção: pensem nisso, pensem em sua própria morte. É um chamado à humildade, um chamado à nossa condição precária e efêmera, ao pó que um dia fomos e ao qual voltaremos. Freud, o “pai” de todos os teóricos da psicologia, lembra:

Todas as vezes que tentamos representar nossa própria morte, percebemos que assistimos a isso como espectadores; é por isso que, no fundo, ninguém acredita na própria morte, ou, o que dá no mesmo, no inconsciente, cada um está convencido da sua própria imortalidade”.

A crença mítica de que a alma nunca morre é apenas a contrapartida imaginária do fato de que o pensamento jamais pode se considerar não-existente.

Assim como não se pode pensar que não pensamos, não se pode viver sem se projetar para o futuro.

Não que verdadeiramente nos desejemos imortais, mas acontece que o desejo é, hipoteticamente, desejo de se imortalizar, desejar a imortalidade. E é por isso que o temor da morte, leva a vida, com todas as suas forças, a resistir à morte, ao desejo de matar a morte, desejo de viver sempre.

No pensamento de Epicuro: “habitua-te a pensar que a morte nada é para nós”. O difícil não é saber disso, mas acreditar nisso e viver com isso. O medo é natural.

Referências
Imagem de “Túnel”: Extraída do filme de Akira Kurosawa “Sonhos” (1990).
Trailer de “Túnel” (representando a ideia de Morte): https://www.youtube.com/watch?v=x1HXcnXu5lU
WOLF, Francis. Devemos temer a morte? In: NOVAES, Adauto (org.). Ensaios sobre o medo. São Paulo: Edições SESC/Editora SENAC, 2007.

Serviço
Workshop: Devemos Temer a Morte? 
Data:08/04 – Devemos Temer a Morte?
Horário: 13h30 às 16h30
Aberto ao público interessado no tema
Vagas: Máximo de 15 pessoas

Local:
Espaço Longeviver: Avenida Pedro Severino Junior, 366 – Sala 166 – Vila Guarani
Próximo ao metrô Conceição – linha azul
Maiores informações pelo email:cursos@portaldoenvelhecimento.com.br

Luciana Helena Mussi

Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: lucianahelena@terra.com.br.

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