Reflexões: “Era março de 2020…”

Tempo de Leitura: 4 minutos

Acredito que em tempos de incertezas e dores,  como neste março de 2020 que se finda, nasçam oportunidades, novas possibilidades para uma boa convivência e, acima de tudo, para a valorização daqueles que caminham ao nosso lado nesse breve percurso. Muita vida para todos nós!


A liberdade espiritual do ser humano, a qual não se lhe pode tirar, permite-lhe, até o último suspiro, configurar a sua vida de modo que tenha sentido. Pois não somente uma vida ativa tem sentido (…). Se é que a vida tem sentido, também o sofrimento necessariamente o terá.” (Viktor E. Frankl, Em busca de sentido)


E nas surpresas que preenchem nossos vazios, para alguns invadidos pela solidão, para outros tomados pela overdose da convivência, nunca antes imaginada, que recebo esse poema da autoria de Irene Vella e publicado no jornal Petit Hong Kong. Assim, trabalhando, imersa nos atendimentos online, eis que chega o chamado que sempre me alegra: meu amor enviando, em vídeo, o tal poema: “A primavera não sabia”. Então, tomo a liberdade e sigo o caminho das minhas próprias reflexões…

Era março de 1969…

Tenho para mim que esse terceiro mês do ano nunca foi bom. Há 50 anos, meu pai dava adeus à vida, uma existência todinha só para ele e para aqueles que o amavam tanto. É isso, alguns se vão muito jovens, são recolhidos ainda com os cabelos pretos, a pele lisinha, o corpo lépido, muito vigor e disposição para sentir com alegria o calor do sol e, também, porque não dizer, a melancolia da noite. Quem já não teve que enfrentá-la?

E agora, que já foi ontem e que, com certeza, não será o amanhã, lá está o inimigo invisível que espreita silenciosamente, calado, escondido pelos quatro cantos da terra. Aquele que se manifesta quando menos esperamos. Se ouso nomear, vira verdade, se ignoro, ele ataca. Sim, é verdade… Estamos vivendo tudo isso.

Mas o confinamento nos faz pensar.

Acho que não estamos muito acostumados a estar tão perto de nós mesmos. Que dura intimidade essa, impiedosa. Falar todos os dias e todas as horas pela tela de alguma coisa – Skype, Whatsapp, sei lá, hoje se inventa tanto dessas tecnologias que nem sei… Terrível!

E o toque, o ficar grudadinho no outro? Onde estariam? E agora José? Tantas pessoas por aí sozinhas… sofro por elas, sofro pelo mundo, sofro por mim, sofro pelo momento.

Então, vem o inevitável que as tais telas nos trazem: ah, essa é minha imagem, essa é minha voz? Por que fala e ajo dessa maneira? Uma total estranheza de quem somos. Sim, temos muito o que pensar…

Bem, você poderia me perguntar: mas e como fica o confinamento tendo que conviver, como já mencionei, com a overdose da convivência? Até porque só encontramos a pessoa com quem convivemos, normalmente, à noite e em breves instantes.

E agora, sim, não tem muito jeito, é toda hora, são todos os dias. Onde estará minha privacidade?

Não resta outra opção senão, olhar, escutar e implicar-se com o outro, sendo ele um querido seu ou não. Quem sabe você não tenha uma grata surpresa, que descubra que tem “gente” dentro desse “estranho” que dorme e toma café com você todos os dias. Talvez, você descubra que o amor ou o amigo que tanto procura, está aí e sempre esteve, ao seu lado.

Para finalizar: acredito que em tempos de incertezas e dores, nasçam oportunidades, novas possibilidades para uma boa convivência e, acima de tudo, para a valorização daqueles que caminham ao nosso lado nesse breve percurso.

E já vou encerrando minha reflexão, com o belo poema de Irene Vella.

Muita vida para todos nós!

“Era março de 2020…

As ruas estavam vazias, as lojas fechadas, as pessoas não podiam sair.

Mas a primavera não sabia, e as flores começaram a florescer, o sol brilhava, os pássaros cantavam, as andorinhas iam chegar em breve, o céu estava azul, a manhã chegava mais cedo.

Era março de 2020…

Os jovens tinham que estudar online e encontrar ocupações em casa, as pessoas não podiam fazer compras nem ir ao cabeleireiro. Em breve não haveria mais espaço nos hospitais, e as pessoas continuavam ficando doentes.

Mas a primavera não sabia. A hora de ir ao jardim estava chegando, a relva ficava verde.

Era março de 2020…

As pessoas foram colocadas em contenção, para proteger avós, famílias e crianças. Chega de reuniões, nem refeições, festas com a família. O medo se tornou real e os dias eram parecidos.

Mas a primavera não sabia, as macieiras, cerejeiras e outras floresceram, as folhas cresceram.

As pessoas começaram a ler, a brincar com a família, cantando na varanda convidando os vizinhos a fazerem o mesmo, aprenderam uma nova língua, a serem solidários e se concentraram em outros valores.

As pessoas perceberam a importância da saúde, o sofrimento, deste mundo que parou, da economia que caiu.

Mas a primavera não sabia. As flores deixaram seu lugar para a fruta, os pássaros fizeram o ninho, as andorinhas chegaram.

Então o dia da libertação chegou, as pessoas souberam pela TV que o vírus tinha perdido a batalha, as pessoas saíam para a rua, cantavam, choravam, beijando seus vizinhos, sem máscaras nem luvas.

E foi aí que o verão chegou, porque a primavera não sabia. Ela continuou lá apesar de tudo, apesar do vírus, do medo e da morte. Porque a primavera não sabia, ela ensinou as pessoas o poder da vida.”


Nosso mais novo ebook, adquira já!

Luciana Helena Mussi

Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: lucianahelena@terra.com.br.

lucianamussi escreveu 71 postsVeja todos os posts de lucianamussi