Reflexões: “como lágrimas na chuva”

Qualquer intervenção que atue meramente sobre a função cognitiva do ser idoso, na construção de novas memórias e desconsidere o curso existencial já percorrido, se revelaria como uma ação enfraquecida de potencialidade, como “lágrimas na chuva”.

Wagner Paulo da Silva (*)

 

Acompanhando o olhar da fenomenologia existencial, desde nosso nascimento somos marcados por um espaço (mundo) já estruturado e impelidos a conquistar nossa história, entre escolhas e renúncias, dentro do acontecer de nossa trajetória.

A chegada da velhice carrega consigo a continuidade deste movimento repleto de possibilidades. Temores que nos acompanham em nossa jornada de vida, antigos ou novos, podem ser amparados por meio de suportes mais refinados, ancorados nas experiências, nos sabores e dissabores já vivenciados. O sentimento de proximidade da morte, por vezes exacerbado pelo senso comum, pela ciência, pelo mercado, pela mídia, por sua vez, pode acabar colaborando com o despertar de histórias mais próprias, favorecendo a construção de novos significados e, consequentemente, propiciando maior autenticidade nesta nossa estadia.

Podemos ponderar, desde já, que qualquer intervenção que atue meramente sobre a função cognitiva do ser idoso, na construção de novas memórias e desconsidere o curso existencial já percorrido, se revelaria como uma ação enfraquecida de potencialidade. Deste modo, a reflexão sobre o “como” são pensadas, planejadas e executadas as ações voltadas à pessoa idosa, independentemente de quais profissionais estejam efetivamente inseridos, ganha uma extrema importância, como apontado no excelente artigo da Profª Silvana Tótora, Apontamentos para uma ética do envelhecimento.

Particularmente falando, o conjunto de temas presentes neste aprimoramento trouxe-me, dentre diversos outros, um aprendizado sobre o pensar como a segregação dessa fase do desenvolvimento humano, a velhice, diferentemente com o que acontece com as demais fases como infância, adolescência e fase adulta, contribui efetivamente para a dificuldade em semear alternativas que proporcionem melhoria na qualidade de vida dessas pessoas, além de contribuir diretamente como um processo que retroalimenta a representação negativa que o envelhecer arrasta consigo até os dias de hoje.

Como funcionário público municipal, pertenço ao atual quadro de colaboradores do Grande Conselho Municipal do Idoso – GCMI, do município de São Paulo e, ainda que, na atuação em psicologia, grande parte de minha trajetória tenha sido voltada ao âmbito social, por meio de atividades voltadas à Psicologia Social Comunitária, a temática do idoso surgiu em minha vida de repente.

O contato com a discussão sobre a política pública voltada ao idoso, a intensa experiência do contato com este outro ser, muitas vezes em estado de fragilidade humana, seja por meio das inspeções de fiscalização de instituições de longa permanência, seja por meio do atendimento do munícipe, instaurou um novo mundo de reflexões que não se restringiam ao âmbito profissional.

Como será que enfrentarei o desafio de envelhecer em meu percurso de vida? Como tenho participado do envelhecimento de meus entes mais próximos? Quem foram os velhos que deram origem à minha família? Como, de fato, lidamos atualmente com os nossos velhos e velhas?

Enfim, uma maravilhosa tormenta de indagações surgiu neste momento. Obviamente, tenho que dar crédito ao grande provável impulsionador deste fenômeno: O Curso de Extensão Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento, da PUC/SP.

Encontro com a finitude

Assistindo mais uma vez uma obra clássica da ficção científica no cinema dos anos 80, Blade Runner – O Caçador de Andróides (Ridley Scott – 1982), e, certamente, muito influenciado pelo temporal mencionado neste relato, tomei instintivamente a liberdade poética para subtrair alguns momentos do filme e relacioná-los ao universo do envelhecer.

Dentre seus diversos motes, o filme trabalha com desdobramento de questões provenientes da ambiguidade concebida entre réplicas que reproduzem de modo muito fiel a humanidade, vivenciando, inclusive, os dramas que envolvem esta condição (a morte, o tempo, a memória, dentre outras questões) e o restante da sociedade de humanos in natura. Uma das marcas mais forte entre a condição dos replicantes, a questão da limitação de sua vida útil em somente quatro anos lança um conflito em que o que aparentemente os distanciam do ser humano, paradoxalmente, é o que mais os aproxima destes, ocasionando até uma revolução desses andróides contra seu criador, o próprio homem.

De antemão, podemos observar que os temas citados estão intimamente ligados com a existência humana de modo geral, independentemente da fase da vida em que este se encontra, superando assim o precipício ainda existente entre o ser jovem e o ser velho.

Com o intuito de não me alongar excessivamente em divagações alheias, gostaria de destacar o memorável momento em que o personagem andróide Roy Batty (ator Rutger Hauer) discorre seu monólogo final, momento este que ficou conhecido com o título de Lágrimas na Chuva:

Eu vi coisas que vocês não imaginariam.
Naves de ataque em chamas ao largo de Órion.
Eu vi raios-c brilharem na escuridão próximos ao Portão de Tannhäuser.
Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva.
Hora de morrer.”

Proponho um simples exercício: Iniciemos novamente a leitura do trecho acima alterando dessa vez a sua ordem, começando com a última frase “Hora de Morrer”. Façamos, assim, uma nova consideração.

Quando meditamos sobre o movimento de apreender o processo de envelhecer, considerando estritamente o ser velho como alguém a beira da morte, realizamos algo muito próximo ao exercício sugerido. Antecipando o ápice final podemos ter como consequência uma mudança no valor e no sentido das experiências que antecederam este encontro com a finitude.

Ao desconsiderarmos a liberdade de escolha, as ideias, as vontades, as frustrações, as alegrias e os projetos de vida de uma pessoas idosa, em qualquer âmbito no qual estejamos nos relacionando, realizamos um impedimento ao acesso a coisas que nem imaginamos. Perdemos uma testemunha ocular de experiências únicas, pontos de vistas exclusivos, valores que influenciam diretamente nosso modo de existir hoje e amanhã. Reduzimos o envelhecer em uma experiência de “morte em vida”. Diluímos momentos extraordinários no tempo, como lágrimas na chuva. Sendo mais incisivo: desaparecem os vínculos, as memórias, as histórias, os afeitos… Dissipa-se a humanidade.

Logo, ainda que tenhamos diversos momentos colorindo em diferentes tons a nossa passagem e que, muitos desses, inclusive, já tenham se findado, quando menosprezamos esses acontecimentos cessamos o movimento de nosso existir. Acompanhando o que diz a Profª Silvana Tótora: “(…) Experimentamos em nossa existência múltiplas mortes para potencializar a vida. Estancar o processo de envelhecimento é o mesmo que paralisar a vida” (Tótora, 2008, p. 25).

Encerrando esse exercício de devaneio e novamente conduzido pela metodologia fenomenológica existencial, penso que um caminho interessante para vivenciarmos o envelhecer é nos aproximarmos de nossa existência com uma compreensão de abertura, valorizando a riqueza fértil das possibilidades provenientes do que já foi vivenciado. Desta forma, podemos conviver mais harmoniosamente com o aspecto pesado de nossa finitude, momento este que certamente virá, resta saber quando.

Pessoalmente, com o término do curso, dentre a ansiedade por desbravar tantos novas informações a fim de construir novos conhecimentos, fico menos aflito ao ter contato inicial com a obra de diversos teóricos, profissionais de múltiplos conhecimentos que, dentre outras tantas coisas, influenciam muitas práticas no presente que superam os padrões fechados de normalidades, se abrem para a possibilidade de acolhimento de outras vozes em suas decisões profissionais mais complexas, propagam o envelhecimento como continuidade do processo do viver e se doam na busca de cuidar da vida em sua terminalidade, buscando oferecer respeito, conforto e, acima de tudo, humanidade.

Com imensa gratidão, fico por aqui.

Referências

BLADE RUNNER – O CAÇADOR DE ANDRÓIDES (filme). Ridley Scott, 1982, 118 min. son. col.

POMPÉIA, João Augusto, SAPIENZA, Bilê Tatit. Os dois nascimentos do homem: escritos sobre terapia e educação na era da técnica. Rio de Janeiros: Via Verita, 2011.

TÓTORA, Silvana. Apontamentos para uma ética do envelhecimento. Revista Kairós, São Paulo, 11, jun. 2008, pp. 21-38

 

(*) Wagner Paulo da Silva – Psicólogo. Experiência em atendimento clínico, trabalho com grupos, como Psicologia Social Comunitária, Oficina de Criatividade e Roda de Terapia Comunitária, Políticas Públicas e Direitos Humanos. No momento, atuo no Grande Conselho Municipal do Idoso – GCMI/SP, vinculado à Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania – SMDHC. Texto escrito no curso de extensão – Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento, da PUC/SP (Cogeae), 2º Semestre de 2017. E-mail: wps.wps@bol.com.br

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