Reflexão sobre os octogenários

A observação de dois grupos octogenários – dos amigos e da família – me conduz à seguinte reflexão: No grupo da família os octogenários convivem com e para a família, diferentemente do grupo dos amigos da natação, cuja atitude para com o tempo, é o de torná-lo mais significativo

por Marta Barretto Junqueira (*)

 

O aumento da população idosa reforça a importância que vislumbro em cursos como o de Fragilidades na Velhice promovido pela PUC-SP. Ao término do curso e assistindo a dois envelhecimentos distintos, paro para refletir sobre a importância do projeto de vida no envelhecimento ativo. Sabemos do quesito cronológico de idade que determina a entrada na fase final da vida, porém o que me interessa, para além desse número, são os aspectos psicossociais envolvidos no comportamento do idoso. Tais aspectos vão influenciar de maneira distinta na satisfação para com a vida, incidindo positiva ou negativamente nas relações que o idoso estabelece com o meio social.

Lembramos que a velhice não é atribuída por idade, ela varia de acordo com os critérios socioeconômicos dos países. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) apesar da arbitrariedade dessa definição, nos países ocidentais considera-se idoso aqueles que podem receber aposentadoria. No caso do Brasil, de acordo com o Estatuto do Idoso, a idade para gozar dos benefícios/proteção é 60 anos.

Grupos de octogenários

Convivo com dois grupos distintos de octogenários. O grupo da família e o grupo de amigos da natação. Estes dois grupos ilustram bem a importância de se firmar um propósito de vida quando ainda se é jovem.

O grupo da família é composto por sete idosos entre 78 e 82 anos, sendo três homens e quatro mulheres. São pessoas ativas que viveram em função da casa e da família, no caso das mulheres, e em função do trabalho e da família, no caso dos homens.

Algumas considerações merecem ser tecidas a respeito das minhas observações deste grupo da família. Atualmente eles gozam de uma vida financeira confortável, porém, no que diz respeito à autonomia, são todos dependentes dos filhos e/ou empregados. Ao mesmo tempo esses octogenários não acompanharam as mudanças do mundo, foram se distanciando das novas possibilidades ofertadas pela realidade e estagnaram no tempo. Tanto as mudanças estruturais, que penso serem por exemplo aquelas vindas com as tecnologias, quanto àquelas concernentes aos valores que se encontram-se em constante transformação.

Desse grupo, apenas uma faz uso da internet – e com dificuldade. Em síntese, família e trabalho foram a razão de viver de todos eles. E uma vez tendo os homens se aposentado, e as mulheres criado seus filhos, acaba que o núcleo da família se torna o grande centro agregador e mobilizador de suas existências. É assim que o grupo abdica, na maior parte do tempo, de convivências sociais e trocas afetivas que não sejam do seio familiar. Com isso se isolam cada vez mais, aguardando a finitude num enorme vazio. Bem ilustra, em sábio provérbio, o escritor espanhol Leon Daudi (1905-1985) quando diz que “a vida, quanto mais vazia, mais pesa”.

De acordo com o estudo britânico Potentially modifiable lifestyle factors, cognitive reserve, and cognitive function in later life: A cross-sectional study as mudanças no estilo de vida podem ajudar a preservar a função cognitiva mesmo ao envelhecer. Alguns dos fatores que influenciam significativamente a manutenção desta função são a prática de atividade física, uma dieta saudável e atividade social e cognitiva.

Os resultados do estudo apontam, portanto, para a importância de políticas públicas que auxiliem a população mais velha em mudanças no estilo de vida que inclui prescrição de dieta saudável, prática de atividades físicas e engajamento em atividades sociais e mentalmente estimulantes. Além disso, o estudo coloca que:

as experiências de vida anteriores constroem reservas cognitiva, o que ajuda a manter a aptidão mental na vida adulta, de modo que o acesso à educação e às oportunidades para desenvolver habilidades no local de trabalho são importantes para desenvolver essa resiliência.”

Se pensamos que atualmente a família, escola, igreja já se encontram em um terreno secundário na composição da linguagem do mundo, podemos vislumbrar o quanto que as pessoas que envelhecem atadas aos seus modos antigos de enxergar a realidade, sofrem. Como coloca Martín-Barbero (2013, p. 66), “os mentores da nova conduta são os filmes, a televisão, a publicidade. Que começam transformando o modo de vestir e terminam provocando uma metamorfose dos aspectos morais mais profundos”.

Passemos para o segundo grupo formado pelos amigos da natação. Eles são ao todo 17 pessoas entre 78 e 91 anos, sendo sete mulheres e dez homens. Todos praticam esporte de quatro a cinco vezes por semana e, por disputarem campeonatos, viajam com frequência. O que observei é que o engajamento no esporte reflete em outros âmbitos de suas vidas pessoais: eles dirigem, dominam a internet, redes sociais como WhatsApp, Skype e, ainda, alguns deles dão suporte para filhos e netos.

O que percebo de interessante é que os integrantes desse grupo também tiveram suas famílias e seus trabalhos. O que os distingue do grupo da família é o fato de terem ido além, ou seja, ampliaram os seus horizontes quando o trabalho e/ou a família nuclear deixaram de ser uma demanda. Nisso reside o que observo como sendo uma diferença fundamental: o grupo da natação não fez do trabalho ou da família a sua razão de vida, eles tiveram outros projetos que os alavancaram a uma condição de maior autonomia quando do momento do envelhecimento. Nesse caso específico, o esporte.

“Tô velho mas não tô morto”

A partir da minha observação dos dois grupos concluo que pela importância do propósito de vida para um envelhecimento de qualidade – tanto físico, mental quanto emocionalmente. No livro “Tentativas de fazer algo da vida”, Hendrik Groen (2016) relata a fundação – com um grupo de amigos residentes em um asilo da Holanda –, do clube do Tô velho mas não tô morto. Apesar das atividades propostas pela instituição, este grupo sentiu-se desafiado em fazer um rodízio para organizar mensalmente atividades surpresa para os demais participantes do grupo. Durante um ano tiveram um workshop de golfe, aulas com uma grande chefe de cozinha, uma tarde num cassino, entre outras atividades. Percebo, portanto, a importância que tem no processo de envelhecimento, as mais variadas formas de engajamento, sejam elas de que natureza forem: social, afetivo, físico, mental. Há que se estender a vida para as possibilidades além daquelas conhecidas ao longo da vida.

Retomo aqui uma ideia que me remete para a importância que um projeto de vida tem na fase final da existência: “quando alguém não tem nada de importante para fazer o dia inteiro coisas pequenas transformam-se em grandes. O tempo de uma pessoa tem que ser preenchido, a atenção tem que ser direcionada para alguma coisa” (GROEN, 2016, p. 186).

Precisamos pensar também os variados significados de lazer. Comumente o associamos como sendo aquele tempo diferente do tempo do trabalho; horas livres, em que somos impulsionados ao consumismo, tanto de entretenimento quanto de bens materiais. Mas o lazer pode ser mais do que isso, e se relacionará então com uma questão de atitude: como eu uso o meu tempo para ser significativo, ou seja, a maneira que me coloco na vida está em jogo. Determino meus valores em direção a um crescimento pessoal ou meramente ao consumo do tempo? Vejo nascer nessa concepção o que denomino nesta reflexão como projeto de vida.

Segundo essa linha de raciocínio, passa a existir no indivíduo uma preocupação para além daquelas provindas das obrigatoriedades da vida: trabalho e família. Sem o cultivo dessa habilidade o idoso é obrigado a passar por uma “reengenharia existencial, que resgate gostos e interesses e, sobretudo, que auxilie os indivíduos a repensarem sobre essa nova fase da vida” (CAMARGO, 1998, p. 149).

A observação dos dois grupos – dos amigos da natação e da família – me conduz para a veracidade da afirmação de Camargo (1998). No grupo da família os octogenários não dispõem de disposição para levar a cabo essa reengenharia. O percurso de suas vidas os conduziu para serem sujeitos que convivem com e para a família. Há sim eventuais participações em aulas de informática, de cerâmica, até em universidade, mas o que percebo é que são atividades que preenchem o tempo, tal como horas de lazer em oposição ao ócio. Não existe, diferentemente do grupo dos amigos da natação, a atitude para com o tempo, o desejo de torná-lo mais significativo.

O grupo dos amigos da natação, por elegerem como interesse o esporte, acabaram por fomentar em si a valoração do tempo. Enxergam sentido em suas existências para além das obrigações de um sujeito com família, e moldam as suas existências em direção à uma vida com mais qualidade.

A forma como os indivíduos se percebem na velhice faz toda a diferença no momento em que nos propomos a observar seus comportamentos. Resgato os conceitos propostos pela Teoria da Continuidade, que tem por princípio a adaptação do sujeito para com a realidade do envelhecimento. Nesse caso em específico, os idosos do grupo dos amigos da natação se dão conta que envelheceram e têm um aparato psicológico e mental que lhes permite buscar alternativas para viver bem esse momento da vida.

Além disso, me valho da Teoria da Perspectiva do curso de vida, que tem seus fundamentos na Sociologia e na Psicologia, para afirmar que o grupo dos amigos da natação se adaptaram às mudanças que o avanço da idade cronológica trouxe. Vejo a prática do esporte como parte desse processo de se adaptar à uma nova realidade cronológica, em que não se perde de vista as possibilidades da vida.

Concluo que o grupo da família, por sua vez, pode ser entendido a partir da Teoria do Desengajamento ou Afastamento (CUMMING e HENRY). Os idosos deste grupo passam pelo processo do envelhecimento dentro de possibilidades limitadas que o avançar da idade acaba por trazer. Falo aqui da ideia de se desengajar das atividades da vida por se considerar “velho demais”. O limite se coloca e é aceito, sem ultrapassagens nem superações.

Importante esclarecer que esse desengajamento/afastamento – que é uma das perspectivas sociológicas possíveis para entender o envelhecimento – pode ser tido, por algumas sociedades, como útil para o avançar da dinâmica social. Nesse prisma, os mais velhos se afastam, se aposentam, se retiram da vida social produtiva e útil para dar lugar aos mais jovens.

A importância de projetos de vida na velhice

Termino meu ensaio com uma questão a ser pensada. Há debates contemporâneos no sentido de que à velhice se impõe – em tempo de neoliberalismo – uma obrigatoriedade de êxito. Não foi o que defendi quando propus a alternativa de projeto de vida. Ao contrário, o que sugere a lógica neoliberal é uma autogestão por parte do idoso, para que esteja de acordo com imperativos de juventude, performance e felicidade. Clama por investimentos em consumos, experiências, tratamentos estéticos, dietas low carb e assim por diante.

O que entendo por projeto de vida é oposto à tal lógica. Proponho o inverso: uma boa qualidade de vida para o idoso, que acolhe as vicissitudes do tempo; é saber conviver com os limites do tempo e não limá-los a custa de altas cifras. Há que se conviver com as marcas, com as dores e com as alegrias, ao sabor das inevitáveis diminuições das funções vitais. É a vida envelhecendo, que se viva então com qualidade sem falsear esse tempo que se faz todo sentir.

Me coloco contrária ao envelhecimento “bem sucedido”, estampado em discursos midiáticos dos mais variados. Como diz Debert (2012, p. 20):

Disciplina e hedonismo se combinam na medida em que as qualidades do corpo são tidas como plásticas e os indivíduos são convencidos a assumir a responsabilidade pela sua própria aparência. A publicidade, os manuais de autoajuda e as receitas dos especialistas em saúde estão empenhados em mostrar que as imperfeições do corpo não são naturais nem imutáveis e que, com esforço e trabalho corporal disciplinado, pode-se conquistar a aparência desejada.”

Não há que se supervalorizar a juventude e exigir um envelhecimento juvenil. A minha reflexão reconhece, prioritariamente, o envelhecimento como uma parte natural da vida. Um ciclo que merece reconhecimento e reverência; auxílio, proteção e encorajamento para os que os enfrentam. Sem exigências fúteis mas com zelo e cuidado, porque esses sim, são úteis e necessários. Empatia é a chave, afinal, almejamos todos viver o máximo possível.

Referências

CAMARGO, L.O.L. Educação para o lazer. São Paulo: Moderna, 1998.

CUMMING, E.; HENRY, W.Earl. Growing old, the process of disengagement. Basic books, 1961.

DEBERT, Guita Grin. A reinvenção da velhice. São Paulo: Edusp, 2012.

GROEN, Hendrik. Tentativas de fazer algo da vida. São Paulo: Planeta, 2016.

MARTÍN-BARBERO, J. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: Ed.cUFRJ, 2013.

 

(*) Marta Barretto Junqueira é Assistente Social formada pela PUC SP, pós graduada em Marketing pela FAAP. Cursou Gestão em Meios de Hospedagem no SENAC. Tem experiencia em gestão de Organização Social e atua com Reabilitação Social de Idosos e Pessoas com Deficiência. Ministra palestras em cursos voltados para idosos. Texto escrito para o curso “Fragilidades na velhice: gerontologia social e atendimento“, promovido pela COGEAE-PUCSP, no segundo semestre de 2017. E mail: marta.barretto.junqueira@gmail.com

 

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