Reflexão sobre identidade na velhice – um jogo de espelhos

Cada indivíduo é o espelho da sociedade que o rodeia. Neste jogo de espelhos o idoso tem uma percepção em relação a si próprio através do seu reflexo, e ao mesmo tempo outra percepção através do seu reflexo no espelho de acordo com o que os outros pensam sobre si. Trata-se portanto de um jogo de espelhos por vezes côncavos ou convexos sobre a mesma imagem, consoante os diferentes pontos de observação.

Vanessa Farinha

 

reflexao-sobre-identidade-na-velhice-um-jogo-de-espelhosÉ inquestionável a importância e o contributo das pessoas mais velhas na sociedade portuguesa, na perspectiva mais economicista de consumidores, como, na perspectiva da intergeracionalidade, de apoio e suporte às gerações mais jovens, quer ainda enquanto “património imaterial”[1]. A “combinação perfeita entre o velho e o novo”, aplicada à população de faixas etárias diferenciadas de modo a que ambas as partes possam partilhar aprendizagens fruto das diferentes épocas, é uma riqueza que a longevidade veio permitir.

No que respeita aos idosos, a experiência de vida e a sabedoria suporte da transmissão de conhecimentos, é complementada pela inovação audácia, inconformismo e mesmo irreverência dos mais jovens. Esta condição permite a este grupo a actualização permanente de conhecimentos e o domínio das novas tecnologias de comunicação e informação, das quais os mais velhos estão em regra afastados. É de salientar que esta preocupação é cada vez mais visível através de diversos programas e projectos sociais existentes em instituições de apoio a pessoas idosas, sendo uma referência nos Inválidos do Comércio.

Pensar na velhice é proceder a uma viagem no tempo, através de um caminho percorrido com experiências e momentos vividos. É o abrir um livro, onde constam histórias, histórias de vida de gentes iguais a muitas outras, mas que não deixam de ser únicas e individuais. Estas vivências reflectem-se naquilo que cada pessoa é, na sua identidade.

No decorrer do tempo somos confrontados com conquistas e derrotas que nos permitem encontrar estratégias de adaptação e igualmente enfrentar as adversidades do dia-a-dia. Por vezes as racionalidades leigas referem que a pessoa idosa torna-se novamente criança, esquecendo-se do percurso e da história de vida do idoso que transporta a experiência de uma longa vida. O idoso é o acumular da sua infância, adolescência e fase adulta. Mantendo traços identitários originais, a identidade vai-se reconstruindo e reorganizando em função de novos contextos pessoais e sociais. Neste sentido, os idosos de hoje não serão os mesmos de amanhã, nas suas diversas características e interesses pessoais. Como tal, para irmos ao encontro da individualidade da pessoa idosa e das suas necessidades é necessário, antes de mais, de as conhecer e dos próprios se darem a conhecer.

Cada indivíduo é o espelho da sociedade que o rodeia e, neste aspecto com a evolução da mesma, a pessoa idosa vai igualmente evoluindo tornando-se cada vez mais exigente. O sub-título “Um Jogo de Espelhos” tem em consideração a representação social e a identidade da pessoa idosa, em que neste jogo de espelhos o idoso tem uma percepção em relação a si próprio através do seu reflexo, e ao mesmo tempo outra percepção através do seu reflexo no espelho de acordo com o que os outros pensam sobre si. Trata-se portanto de um jogo de espelhos por vezes côncavos ou convexos sobre a mesma imagem, consoante os diferentes pontos de observação.

Sendo um dos primeiros interventores nesta problemática, o Assistente Social assume, cada vez mais, um papel necessário na sociedade, junto da população em geral na medida em que permite desmistificar algumas questões em torno do envelhecimento, e da acção directa sobre este grupo em particular. A especialização em Gerontologia Social permite ao Assistente Social obter conhecimento teórico e um instrumental operativo mais direccionado, para a identificação das necessidades da pessoa idosa, para gerir os recursos existentes no mercado, nas instituições e na comunidade, de forma a proporcionar melhor qualidade de vida ao indivíduo.

A Gerontologia Social, no decorrer da sua afirmação enquanto área multidisciplinar e prática social, tem vindo a adoptar novas posturas, procurando desmistificar a conotação negativa em torno do envelhecimento. Assim, a Gerontologia Social buscando referências da Antiguidade Clássica, da valorização dos idosos como seniores priores, considera a saúde com um bem-estar físico, psicológico, social e espiritual, a dignidade da pessoa humana e o seu valor intrínseco em qualquer fase da vida. Alguns dos conceitos que a Gerontologia Social defende dizem respeito ao envelhecimento activo nos seus pilares de participação, saúde e segurança considerando a autonomia, actividade e empreendedorismo. Estes valores consideram-se construtivos da identidade, uma vez que fomentam a re-integração da pessoa idosa quanto à sua participação na sociedade.

O presente estudo permitiu aos entrevistados reflectir no seu dia-a-dia, bem como no seu passado, como se tratasse de uma viagem no tempo. Esta viagem teve impacto nas suas vidas pois provocou reacções positivas e a vontade de realizar actividades que até então estavam adormecidas. Exemplo disso foi a de uma idosa, em situação de doença grave, que havia desistido de participar em passeios mensais proporcionados pela Instituição, e aquando da entrevista relembrou o gosto e interesse pelas mesmas, e manifestou vontade em integrar no próximo passeio, passeio esse que seria o seu último, pois passado alguns meses acabou por falecer.

A morte, último desígnio da condição humana, reflecte ainda a identidade, na forma como a pessoa idosa a ela se refere, e o cuidado com que a prepara. É prática desta Instituição e função da psicologia e do serviço social registar em documento próprio no momento da admissão, as vontades do residente no que respeita a este último momento.

Um dos procedimentos nos Inválidos do Comércio, no que diz respeito a situações de doença terminal é a transferência do residente do seu apartamento para o SAD (Serviço de Apoio a Dependentes), onde usufrui de um acompanhamento mais próximo da equipa médica e de enfermagem. Contudo, cada vez mais os idosos da Residência Assistida manifestam vontade em permanecer os seus últimos dias nos seus apartamentos, onde referem o sentimento de pertença e o conforto do lar, sendo esta vontade sempre que possível atendida.

Foi evidente a diferença de postura de alguns entrevistados durante a realização da entrevista para com o quotidiano da prática profissional da autora. Perante esta situação a investigadora considera que há determinados momentos em que o Assistente Social, na sua prática, se confronta com determinadas questões que, muitas vezes, resultam da necessidade de companhia e diálogo dos residentes, pois durante as entrevistas verifica-se uma maior resiliência dos residentes para enfrentar as adversidades do processo de envelhecimento, ao contrário do que acontece no seu dia-a-dia.

Para a autora a presente investigação permitiu a articulação entre a teoria e prática proporcionando um olhar mais envolvente para com os entrevistados, na medida em que foram aprofundados alguns temas que até ao momento da entrevista não tinham sido abordados. Este conhecimento possibilita igualmente que durante a prática profissional a autora possa mais facilmente ir ao encontro das necessidades dos mesmos, bem como resolver e/ou atenuar determinados problemas / dilemas tendo em conta a identidade de cada residente. Pese embora o estudo não tenha sido aplicado a todos os residentes da Ala Residencial de IC, as vivências adquiridas durante a trajectória de vida dos entrevistados é, nalguns casos, semelhante à dos restantes residentes, pelo que é igualmente possível entender as suas atitudes e comportamentos.

Tendo em consideração que o Assistente Social não intervém apenas ao nível da resolução de problemas / dilemas, como também ao nível preventivo, este estudo permitiu à autora direccionar a sua prática profissional para a prevenção. As apreensões e receios manifestados pelos entrevistados podem ser mais cedo desmistificados pelo Assistente Social, quer com os idosos entrevistados em situações semelhantes às mencionadas pelos mesmos, quer com os restantes idosos que eventualmente venham vivenciar as mesmas situações, evitando assim sentimentos de angústia e insegurança.

O pensamento de Hermann Hess, nomeadamente “aquele que envelhece e que segue atentamente esse processo poderá observar como, apesar de as forças falharem e as potencialidades deixarem de ser as que eram, a vida pode, até bastante tarde, ano após ano e até ao fim, ainda ser capaz de aumentar e multiplicar a interminável rede das suas relações e interdependências e como, desde que a memória se mantenha desperta, nada daquilo que é transitório e já se passou se perde”[2], vai ao encontro do pensamento de alguns dos entrevistados na medida em que estes, embora considerem que no decorrer do processo de envelhecimento vão perdendo algumas das suas capacidades, procuram respeitar a sua identidade procurando a satisfação e realização dos seus interesses e necessidades.

Notas

[1] Idosos em lares tomam mais de dez medicamentos por dia. Disponível Aqui. (consultado a 17 de Março de 2013)

[2] Hermann Hesse, in “Elogio da Velhice” (Consultado Aqui a 25 de Maio de 2013)

(*)Vanessa Farinha escreveu uma síntese de sua Dissertação de Mestrado, intitulada Identidade na Velhice – Um Jogo de Espelhos, defendida em 2013, no Curso de Mestrado em Gerontologia Social, conferido pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia, Lisboa, Portugal. Este texto foi publicado na página no facebook: Disponível Aqui, em 23 de novembro de 2014.

Leia a Dissertação na íntegra: Disponível Aqui 

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