“A realidade não tem lógica alguma”

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O reflexo da violência carioca não está apenas nas novelas do autor Manoel Carlos, 73 anos, que, neste mês, estréia “Páginas da Vida”, sua nova trama no horário nobre da Globo. Quem chega a seu apartamento no Leblon, bairro que sempre serve de cenário a suas histórias, percebe a grande preocupação do autor. Além da guarita, que isola a rua lateral de seu edifício, a porta de entrada de seu apartamento duplex possui um sistema de segurança tão complexo que faz o dueto chave/fechadura parecer instrumento pré-histórico. A casa, no entanto, não é um monumento à ostentação e traz, desde a entrada, uma atmosfera de aconchego que, segundo o próprio Maneco, apelido pelo qual gosta de ser chamado, é obra de sua mulher.

James Cimino

 

Além de autor, Maneco é jornalista. Escreve uma crônica para a revista Veja Rio e já foi crítico de teatro em São Paulo no extinto jornal O Tempo, quando tinha 18 anos. Só para a TV, escreve há 55 anos. Bem-humorado, responde a qualquer pergunta, faz pose para foto e leva na esportiva piadas capciosas como a feita pelo fotógrafo Sérgio Huoliver, que lançou: “Afinal, quando o personagem morre, o ator continua recebendo?” “Depende do contrato”, encerra Maneco, que, nessa entrevista, falou de suas novelas e da que estréia agora. Mas não apenas.

IMPRENSA – Conforme a novela foi colecionando sucessos, sua produção foi se profissionalizando, assim como a relação da imprensa com ela. Ainda hoje, contudo, há uma parcela da imprensa que considera a novela um subproduto da indústria cultural. Outra parte a vê como um fenômeno social. O que mudou na relação entre imprensa e telenovela desde quando você começou? Melhorou ou piorou?

Maneco – Essa relação foi sempre melhorando. O que fez mudar a novela e trazê-la ao estágio em que estamos hoje foi seu sucesso. Já começou como sucesso na TV Excelsior, mas não era uma coisa que monopolizasse como hoje. Isso exigiu um aprimoramento que a levou a um nível de produção só comparável ao do cinema americano. Isso tudo fez com que a mídia passasse a olhar a novela de outra maneira. Para mim não importa se ela é vista como subproduto ou como fenômeno social. O importante é que a mídia tem de aceitar que a novela é vista por 40 milhões de pessoas toda noite e isso é um fato.

IMPRENSA – Em vários momentos a novela pauta a imprensa, como no caso do transplante de medula óssea de sua novela “Laços de Família” (2000). Você acha que os telespectadores podem confundir realidade e ficção?

Maneco – As pessoas mais simples são capazes de confundir. Quando fiz a cena da bala perdida em “Mulheres Apaixonadas” (2003), foi uma loucura. O prefeito não queria deixar fazer. Foi uma briga. A imprensa estava em todo lugar. E eu estava fazendo uma cena de ficção mas, na novela, essa cena fica com uma dimensão muito maior do que na realidade. São 40 milhões vendo aquilo.

IMPRENSA – E qual é essa dimensão? A ficção atinge mais que a realidade?

Maneco – Muito mais. A realidade está no jornal ou no dia-a-dia. Uma bala perdida, em uma menina, como ocorreu dia desses, sai, no dia seguinte, em todos os jornais. Alguns na primeira página, outros na terceira. O “Jornal Nacional”, dependendo do caso, veicula. E atinge, essencialmente, a menina e sua família. No dia seguinte tem um gol do Ronaldinho e cai fora. A novela tem repercussão diária e dá mais audiência que qualquer outro telejornal, logo, a repercussão é maior.

IMPRENSA – E, em nosso país, na maior parte do tempo o que está na televisão é mais atraente do que a realidade?

Maneco – É muito mais atraente. Hoje em dia, há essa violência explícita, diária e constante. Some a isso o fato seguinte: não tem nada mais barato que a televisão. Você compra uma por R$ 20 ao mês. De graça e de cueca você liga e vê a Copa na Alemanha. A televisão não pode ser comparada a nada. Tem um alcance extraordinário no Brasil. E no mundo inteiro. O americano levanta, liga a TV e vai para o chuveiro. Não há concorrência com a TV. Tudo nela fica superlativo. Fui ao Projac e vi os cenários da minha nova novela. O casarão da Gávea, aonde vai morar o Tarcísio Meira, o cara pode morar dentro. Eu costumo dizer que o sonho de todo brasileiro é morar em um cenário da TV Globo. E o café da manhã? Que tem suco de várias cores, queijos de vários tipos, pães, croissants, e todos são alegres e felizes. E ninguém é pobre. Mesmo quem é pobre, sempre tem um charme.

IMPRENSA – Quando você está montando a novela, preocupa-se em não deixar a pobreza tão real?

Maneco – Não há como deixar. Não é jornalismo. É ficção. Porque, se eu fosse mostrar toda a verdade, lá estaria o marido falando palavrão, a mulher espancando o filho… Como é que eu vou mostrar isso?

IMPRENSA – Mas, ao mesmo tempo, você mostra, dentro dessa perfeição aparente, discussões familiares contundentes. Pessoas comentam “isso já aconteceu comigo”. Você é um autor que procura manter os pés na realidade para produzir sua ficção?

Maneco – Eu costumo dizer que eu não faço uma ficção delirante, mas crível. Eu não me preocupo com a realidade, mas com o verossímil. O [Aldous] Huxley tinha uma frase que eu adoro: “O problema da ficção é que ela precisa fazer sentido”. A realidade não precisa. Você lê num jornal que um sujeito caiu do oitavo andar e saiu andando, foi para um botequim e tomou uma cerveja. Como é que você vai botar isso em uma novela? Quando a pessoa lê no jornal, ela acredita. Porque é um fato real, jornalístico. Quando vê na novela, vai dizer: “Esse cara está me gozando”. Mas acontece. A realidade não tem lógica nenhuma.

IMPRENSA – Muitas pessoas que não gostam de novela dizem que ela transforma a realidade e, por conseguinte, a vida, numa seqüência de clichês e repetições…

Maneco – Mas a vida é um clichê e ninguém escapa dele. É claro que a novela é repetitiva, pois tenta retratar o tempo todo cenas familiares. Todo dia é a mesma coisa.

IMPRENSA – O cotidiano, então, é a matéria-prima de qualquer novela?

Maneco – Das minhas novelas.

IMPRENSA – Como ficou a relação entre os escritores de novelas e a imprensa especializada, que antecipa capítulos, histórias, resumos…?

Maneco – Olha, eu não atendo a telefonemas, porque se eu for atender a cada pedido, não consigo escrever. Mas, por e-mail ,eu respondo.

IMPRENSA – Você se importa de adiantar tramas?

Maneco – Nunca me importei com isso.

IMPRENSA – Mas você acha que não tira a magia de a pessoa ir assistir e se surpreender com a história?

Maneco – Tem dois aspectos: o sujeito assiste porque não sabe o que vai acontecer e o sujeito assiste porque sabe o que vai acontecer e ele quer ver como vai acontecer. Para mim, antecipar – não em detalhes mínimos, claro, que é até de mau gosto – mas dizer o que acontece, não vejo problema. Mesmo porque, minhas novelas não dependem de grandes previsões. Ator nunca recebeu sinopse minha. Eu costumo dizer: “Gente é que nem a vida, vocês têm sinopse da vida? Sabe quando vai morrer, ficar doente, não sabe, né?” Novela minha é assim, ninguém sabe nada. Digo aos meus atores que eu quero que eles se surpreendam com o papel. Quando fiz “Mulheres Apaixonadas”, a [atriz] Maria Padilha recebeu o capítulo e disse: “Porra! Eu tô com câncer! Eu tava tão boa…”

IMPRENSA – Como é o tratamento do chamado “merchandising social” em suas novelas? Como você elege um tema a ser tratado?

Maneco – Baseado em coisas que eu sinto latentes na sociedade e mando minhas pesquisadoras levantarem os problemas. Tudo que eu faço é isso. O transplante de medula óssea, por exemplo. Estava uma crise de falta de doadores. Não via isso na imprensa, mas conhecia gente que estava na fila do transplante. Mandei minha pesquisadora ir atrás. Cheguei à conclusão que a razão pela qual a maioria das pessoas se negava a fazer essas doações era porque ninguém sabia o que era. Quando falavam para o sujeito em transplante de medula, o cara pensava: “Por que é que eu vou fazer isso? Vai que me tiram alguma coisa?” Quando ficaram sabendo que o processo é colocar uma agulha, tirar um líquido que nasce em você de novo e que não te faz falta, formou fila no hospital. Agora, por exemplo, vou falar da síndrome de Down (em “Páginas da Vida”). A partir do momento que os jornais noticiaram que eu iria abordar esse assunto, a quantidade de cartas e livros sobre o assunto que eu recebi é enorme.

IMPRENSA – E o marketing comercial, como funciona em suas tramas?

Maneco – O processo é o mesmo com todos os autores. A gente tem liberdade de escolha.

IMPRENSA – Pergunto porque o Lima Duarte reclamou da ingerência dos diretores de comerciais no meio das gravações em entrevista à Folha de S.Paulo…

Maneco – O Lima Duarte só fez o merchandising que aceitou fazer e ganhou por isso. Não há nenhuma propaganda que entre sem que o autor aprove. Eu recebo propostas, mas nenhuma passa sem minha aprovação. Depois disso, a Globo vai e pergunta ao ator solicitado pela marca para a fazer o merchandising. O Tony Ramos, por exemplo, não faz nem de bebida nem de remédio. E deixa de ganhar o dinheiro dele. Portanto, não tem sentido o Lima reclamar. Para o tipo de novela que eu faço, o merchandising comercial é bem-vindo. Porque deixa mais real. Ninguém pede refrigerante. O povo pede uma Coca-Cola, um guaraná…

IMPRENSA – Como você lida com os índices do Ibope?

Maneco – Eu me preocupo, sem fanatismos, mas eu me sinto um sujeito bem pago para dar audiência. Não é só para escrever novela. Isso qualquer um faz. Nunca passei por isso, graças a Deus, mas sei que um fracasso numa novela é um grande problema na empresa. Porque as novelas e o “Jornal Nacional” carregam a grade de programação. Quando ela te dá uma novela para fazer, a emissora espera que você faça uma grande novela de sucesso.

Sobre o Autor:

Manoel Carlos Gonçalves de Almeida, apesar de ser um grande cronista do Rio de Janeiro, nasceu em São Paulo, em 14 de março de 1933.

Dirigiu “O Fino da Bossa”, Hebe Camargo, “Essa Noite se Improvisa” e foi, também, o primeiro diretor-geral do “Fantástico”. Foi convidado a fazer novelas pelo diretor Herval Rossano.

Todas as suas novelas, à exceção de “Sol de Verão” (1982), têm uma marca: a protagonista que se chama Helena e o bairro Leblon como cenário principal.

Em sua galeria de Helenas já passaram Lílian Lemmertz (“Baila Comigo”, 1981), Maitê Proença (“Felicidade”, 1991), Vera Fischer (“Laços de Família”, 2000), Christiane Torloni (“Mulheres Apaixonadas”, 2003).

Regina Duarte dará vida à emblemática personagem pela terceira vez em “Páginas da Vida” (2006). A atriz interpretou o papel em “História de Amor” (1995) e em “Por Amor” (1997).

As narrativas de Manoel Carlos são marcadas pelo retrato do cotidiano do bairro Leblon, onde vive. O forte de suas histórias são os dramas familiares.

Outro aspecto presente em sua obra é o chamado “marketing social”. Em “Laços de Família”, o drama da personagem Camila (Carolina Dieckmann), que sofria de leucemia, aumentou significativamente o número de doações de medula-óssea no país.

Em “Páginas da Vida”, que estréia neste mês, o autor retoma o “marketing social” ao abordar o drama dos portadores da síndrome de Down e do vírus HIV.

Leia matéria completa na edição 214 de IMPRENSA

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Fonte: Portal Imprensa, 31/07/2006. Disponível Aqui 

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