(Re) Conhecendo minha Vó – Chá da tarde com a Dona Myriam

Tempo de Leitura: 9 minutos

Minha Vó gosta de se reinventar para estar presente e atualizada. Ela percebe a importância de algumas mudanças e não foge ao desafio.

Helena Mutchnik Jorge Santos (*)


Em uma terça-feira à tarde, depois de 3 meses sem vê-la ao vivo, vou ao encontro da minha Vó, Dona Myriam. Ficamos no térreo do prédio em que vive, usando máscaras e à distância, conversando sentadas em um banco.

Por que você não se apresenta, Vó?
Tá bom. Meu nome é Myriam Ignez Mutchnik, eu tenho 81 anos. Eu moro sozinha e no momento estou com cuidadoras, porque eu quebrei o fêmur e preciso de assistência. Eu estou passando muito bem, obrigada.

Minha avó é uma senhora de ascendência inglesa. Dá para notar isso só por sua postura. Ela me lembra muito da matriarca de Downton Abbey, a série de TV britânica que teve seis temporadas. A série cumpre hoje a função que os grandes romances ingleses tiveram no século 19. E ela também se identifica com a tal Condessa.

Como tem sido para você viver a pandemia?
A pandemia para mim não é um problema, porque eu fiz um roteiro: eu acordo, tomo meu café, depois eu vou ler o jornal. Quando eu termino o jornal, eu faço minhas orações na Rede Aparecida, depois eu assisto um filme da Netflix e tenho horário para almoçar ao meio dia. Às 17h eu tomo um suplemento alimentar e às 20h eu janto, vejo filme da Netflix e depois eu vou dormir.

Ela é muito forte. Gosta de ter controle sobre as coisas que pode ter. E acho que ela gostaria que, como a personagem, fosse ao redor dela que a família se estruturasse. Muitas vezes ela se coloca nesse papel matriarcal. Papel que ela assume com graça e com gosto, até porque também lhe convém poder estar presente e opinante na vida de todos. Mas, no geral, sinto que a família não aprecia tanto sua experiência e a coloca mais em um lugar de objeto de preocupação.

E você já viveu alguma coisa que fosse parecida com esse momento?
Não, na minha vida toda eu não vi uma pandemia como essa. Infelizmente é muito assustador, a gente vê, abre jornal e só vê tantas e tantas mortes, é muito triste.

Qual é a diferença do repouso que você estava vivendo sozinha antes da quarentena por causa da recuperação do fêmur quebrado e agora esse isolamento coletivo?
A diferença foi que eu fui progredindo com o trabalho do fisioterapeuta, eu já não estou o tempo todo sentada, com a perna para cima, eu já estou praticamente caminhando sozinha.

Devido à artrite reumatoide e agora ela somada ao fêmur em recuperação, sua mobilidade é reduzida e isso é algo que a incomoda. Não a dor, disso ela pouco fala, mas ela valoriza muito a autonomia e é muito orgulhosa, odeia ser obrigada a ter cuidado e ficar parada. Desde que consiga fazer o que precisa para ter independência, tudo está bem.

Como seus dias têm sido?
Os meus dias eu procuro fazer o mais otimista possível, porque o riso é o melhor remédio. A gente não pode ficar triste, a gente não pode se dar ao luxo de ficar pessimista, porque piora tudo.

Do que você sente falta de fazer?
Eu sinto falta dos meus netos. De abraçar e beijar muito muito muito os meus netos e os meus bisnetos. E de passear, que eu sou muito passeadeira (ela ri).

Você sente que tem partes boas do que estamos vivendo?
Eu acredito que tudo a gente pode tirar uma lição. A parte boa disso é que eu espero que a humanidade entenda que nós não somos deuses, nós temos que ser mais humildes, aceitar nossa condição e valorizar os nossos irmãos, fazendo benefícios pra eles, principalmente os mais pobres.

Como tem sido a relação com a sua família nesses tempos de isolamento?
A relação com a minha família tem sido muito boa, porque graças a Deus eu domino um pouquinho a tecnologia e nós nos falamos pelo vídeo, então eu vejo a carinha deles, eles me veem e a gente mata um pouco a saudade.

Maggie Smith dá vida à personagem aristocrática Lady Violet na série inglesa

É curioso como a Condessa Crawley representa em Downton Abbey os valores do passado da família. Em tempos em que a nobreza perdia dinheiro, terras e status, ela simbolizava a altivez que em um momento essa classe teve. O que a colocava em uma posição muitas vezes de intransigência às adaptações, que de pouco em pouco foi flexibilizada. Mas minha avó gosta de se reinventar para estar presente e atualizada. Ela percebe a importância de algumas mudanças e não foge ao desafio.

Se você não tivesse em isolamento social, o que você ia querer estar fazendo agora?
Se eu não tivesse em isolamento social? Eu queria estar passeando (ela ri).

Por onde você ia querer estar passeando, Vó?
Ah, eu gosto de ir ao shopping, ver vitrine, eu gosto de andar, eu preciso andar, porque eu preciso adquirir músculos e ossos mais fortes e o médico mandou andar. Então o que estaria fazendo era andar.

Você acha que a pandemia vai mudar algo na gente? O que ela vai deixar de legado?
Depende da pessoa. As pessoas que têm mais consciência eu acho que vão mudar sim. Vão valorizar mais a vida, que a gente vê que é tão frágil, vão querer ajudar mais os outros. Mas tem pessoas que não são assim, e essas não vão mudar, infelizmente.

Tem alguma coisa que te surpreendeu positivamente ou negativamente sobre você mesma nesse meio tempo?
Não sei, Lelê. Me surpreendeu, talvez, eu enfrentar tão bem, né? Mas negativamente…

Precisa ser negativo, só o que for de verdade
É, positivamente eu me sinto bem de estar reagindo bem a isso.

E alguma coisa te surpreendeu positiva ou negativamente sobre o mundo nessa quarentena?
Sobre o mundo, eu vi que existem líderes muito egoístas, infelizmente. Tem outros mais interessados no povo. É pra citar exemplos?

Se você quiser…
Por exemplo, eu achei a atitude da Angela Merkel formidável. Ela quando viu que ia chegar a pandemia, ela preparou os hospitais, ela preparou pro povo ter uma assistência, fez exames, e ela conseguiu ter um número bem pequeno de mortes. Me surpreendeu negativamente a Itália, que demorou muito a tomar as “previdências”; os Estados Unidos nem se fala, porque o Trump é uma pessoa muito… com um caráter muito difícil de se compreender, né? Como o nosso presidente também. E infelizmente o que eu vejo é isso. A Coréia do Norte também teve boas “previdências”…

A cuidadora então chegou com o celular dela, que ela tinha esquecido em seu apartamento, e pausamos para ela me mostrar as fotos dos bisnetos de uniforme e mala indo para a escola antes da pandemia e fofocar sobre outras questões.

Ah, dos governantes. Infelizmente, tem pessoas que não mudam mesmo, o que a gente vai fazer?

E além deles, alguma outra coisa?
O que me surpreendeu? Bom, me surpreendeu a maneira rápida de espalhar essa doença. Que foi uma coisa trágica, né? Isso foi terrível. Nós fomos pegos de surpresa. Não tinha como agir pra debelar isso, né? Eu positivamente estou achando muito bom o trabalho dos cientistas. Tem uma brasileira que trabalha em uma faculdade na Inglaterra e ela descobriu uma vacina contra o coronavírus. Só que ainda está… ela já pediu para 2 mil voluntários brasileiros, que é o Brasil que tá tendo mais casos, né? Testarem. Eles se apresentaram, testaram, por enquanto os resultados são otimistas. Porém isso só pode ser feito de acordo com as leis da ciência né? Tem que testar, tem que verificar, aí faz a publicação, aí… E ela não quer que isso custe muito caro, que ela quer distribuir pra toda a população do mundo. Ao contrário do Trump que tá correndo pra fazer uma vacina com os direitos autorais do laboratório dele lá pra vender pro mundo todo. Você vê a diferença da mentalidade de um e de outro. Eu acho incrível como em uma situação dessa você consegue ainda explorar o ser humano, né? Enfim, eu fiquei muito contente em saber que uma… Infelizmente, filha, aqui no Brasil, você tem que buscar lá fora recurso. Porque esse deseducador que estava no Ministério da Educação, ele tirou verbas da Comissão de Estudos Científicos. Então, vão pra fora. Eles são pessoas inteligentes, eles querem progredir, eles querem dar um benefício para a humanidade, eles vão pra fora, quem consegue, né? E fazem os seus trabalhos. E eu fiquei orgulhosa de ser uma brasileira que fez isso. E ela pretende distribuir pro SUS, pro pessoal pegar de graça. Dá o maior orgulho, né? Ainda tem gente que presta.

Algo que ela e a Condessa com certeza compartilham é essa forma desbocada de emitir opinião.

E Vó, como você se sente em relação a tudo isso? Você se sente segura?
Olha filha, a sua vó sempre acreditou em Deus, né? Então eu me sinto segura. Porque se eu tiver que morrer, todos nós vamos morrer, pode ser de coronavírus, pode ser do coração que nem o seu avô, pode ser um tropicão. Você sabe que eu conheci uma pessoa que morreu quando quebrou o fêmur? O zelador tava me contando, é aqui do prédio, que ele quebrou o fêmur, não quis fazer a cirurgia, ficou na cama, definhou e morreu. E eu vou te falar, quando eu fui pro hospital com a sua mãe e o médico falou ‘Tem que operar’, eu falei ‘Doutor, eu vou morrer’ porque eu tô com 81 anos, então o Paulo (médico da família) já tinha me dito ‘Você não pode fazer cirurgia, você já tem uma idade que não convém’. Então ele falou assim ‘Olha, ou a senhora opera ou a senhora vai ficar na cadeira de rodas e na cama. O seu pulmão vai encher de água e o seu bumbum de bolhas, a senhora escolhe. E do jeito que tá quebrado o seu osso, vale a pena operar’ porque tava em lança, assim, né? (coloca a mão na diagonal) Não sei como não furou uma veia. Deus é bom. Aí eu falei, então vamos operar doutor, seja o que Deus quiser, né? E não é que a cirurgia deu certo? Foi maravilhoso, a recuperação foi boa e tamo aqui com a graça de Deus, né? Então eu me sinto muito segura.

E que papel que as notícias têm tomado na sua vida agora nesse momento de pandemia?
Elas me entristecem. De ver que o Brasil está em segundo lugar na colocação de afetados pelo coronavírus. Eu acho por atitudes erradas do nosso presidente. Porque ele se expõe, ele não mostrou o resultado dos exames dele. Teimou, teimou e não mostrou. E infelizmente ele foi eleito pelo povo, né? Nós temos que aguentar. Agora, eu vejo que estão tomando atitudes pra que ele não exerça o cargo, né? No Tribunal Superior Federal tão estudando se a chapa dele vale ou não por causa das fake news. Foi descoberto que as fake news partiram muitas do gabinete do ódio, que são os meninos dele, né? E tem empresários metidos nisso, né? Aquele… Hassan? Haãn? [O  velho da Havan, vó? (eu ri)] Havan! Então tem empresários metidos nisso. Então eu acho que configura crime sim. E se Deus quiser nós vamos nos liberar dessa pessoa, porque além de ameaçar a democracia… Agora ele tá quieto porque tá com medo. Tá comprando o legislativo, dando cargos, pra ver se não votam o impeachment dele. Então não é uma pessoa que a gente possa confiar. Vamos ver o que vai acontecer, né?

Eu admiro como ela se dispõe a estar presente em todo esse contexto. Tem que ter muita coragem para não se excluir dessa realidade que parece distópica. E ela está imersa nisso, tentando entender tudo o que pode sobre o que estamos vivendo.

Vó, eram essas as perguntas, tem mais alguma coisa que você queira falar?
Você sabe que a sua Vó é doida né? (ela ri). Então apesar da pandemia, eu pego um uber conhecido, pego no estacionamento do prédio, desço no estacionamento de Guarujá e fico olhando o mar. Que é uma coisa que me faz muito bem. Você estende os olhos assim até onde o céu encontra com o mar! É uma delícia, né? Você esticar o olhar assim. Porque aqui eu fico olhando prédio pra todo lado. Isso me deixava muito nervosa. Mas eu ia levando né? Vendo jornal, vendo filme, eu ia levando. No momento em que eu me senti mais segura pra ir até lá, a vida melhorou muito! (ela ri).

            Sem ignorar a própria subjetividade.

(*) Helena Mutchnik Jorge Santos – Aluna do 5º período da graduação do curso de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Trabalho escrito na disciplina “Velhos nas peças de teatro”, ministrada pela profa. Ruth Gelehrter da Costa Lopes, que teve como proposta analisar como o teatro oferece farto material sobre o processo de envelhecimento contemporâneo. Email: mutchnikhelena@gmail.com


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