Quer um café? Você é minha convidada!

Estou na região da Paulista, perto do Conjunto Nacional. Existe um tempo ocioso entre dois compromissos. Chuvisca, vento cortante, pessoas andam apressadamente uns pela pressa, outros para se protegerem do frio repentino. Observo muitos despreparados para a chegada de outra frente fria. Homens de camiseta, mulheres de tomara que caia, passam por mim quase correndo.

Rita Amaral *

 

quer-um-cafe-voce-e-minha-convidadaEntro na Livraria Cultura, um vendedor se aproxima. “Não temos este livro, senhora, está esgotado. A Sra. Conhece a Estante Virtual? Procure lá.”

Estou à procura de cartões de Natal e não encontro os da Unicef. Será que as pessoas não enviam mais cartões de Natal? Tempos virtuais. Pergunto para um guarda se ele viu algum quiosque de venda de cartões e percebo uma dificuldade em ser entendida. Cartões? Ele me mostra os caixas eletrônicos. Com certeza a referência para ele são os cartões de crédito e débito.

Atravesso a rua. Entro no conjunto do Cine Bristol. Tomo café? Olho as horas, um pouco tarde para café, quase 18 horas. Arrisco. Vou para certa reunião onde deverei estar desperta. A vitrine é convidativa: doces coloridos, chocolates. Contenho-me. Peço o cafezinho e procuro a mesa para sentar. Clientes solitários ocupam mesas, casal beija-se apaixonado, encontro uma ao lado de um casal de velhos. Observo-os com interesse. Serão casados? Namorados? Amigos? A mulher muito bem arrumada vestia tailleur vermelho, cabelos presos em coque. O homem vestia terno esporte. Abriam folders, conversavam.

Procurei entender suas falas. Pareciam planejar viagem. Seria uma viagem de navio tão em moda ultimamente? Lamentei não poder fotografá-los. Seriam perfeitos para meu arquivo de Velhos. Abri meu livro, enquanto tomava meu expresso com leite sem espuma. Minha atenção continuava na mesa vizinha. Dali a pouco ela se levanta e se despede dele. Ele fica só e eu continuo minha leitura. Tenho um pouco mais de tempo.

De repente ele se levanta, vem na minha direção e diz: “Você é muito simpática. Você é bonita também. Quer um café? Você é minha convidada. Vou assistir ao festival de cinema italiano na Livraria Cultura. Vamos? Você é minha convidada”. Ele me mostra seu ingresso. Leio em letras grandes: Senior. Agradeço dizendo ter acabado de tomar café, iria a uma reunião, não poderia ir ao cinema.

Ele vai comprar seu café e me traz um bombom. Era o mesmo que eu tinha namorado na vitrine. Novamente digo obrigada, desembrulho e como o chocolate.

Olho no relógio: 18h30. Hora de ir embora. Me despeço e ele me diz:

“Venha amanhã aqui neste horário. Você é minha convidada! Você vem?”

* Rita Duarte do Amaral – Pedagoga, especialista em Gerontologia, pesquisadora do Grupo de Estudos da Memória – GEM/ NEPE PUCSP. Associada fundadora do Observatório da Longevidade Humana e Envelhecimento – OLHE. Atendimento em Instituições de Longa Permanência para Idosos, desenvolvendo atividades de TEC (Terapia de Estimulação Cognitiva), dança sênior, passeios culturais em São Paulo. Coordenadora e executora dos projetos da Oficina Memória Viva. E-mail: rita@oficinamemoriaviva.com.br

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