Queen Loretta denuncia uma sociedade mergulhada em preconceitos, a nossa?!

Tempo de Leitura: 6 minutos

Bork, que deixou sua pequena cidade no interior da Polônia para fugir desses preconceitos, dezenas de anos depois, ao retornar, encontra o mesmo preconceito a sua espera.


Procurando algo para assistir, deparo-me com uma cena intergeracional: uma adolescente leva um idoso para um encontro, ele carrega um gigantesco buquê de flores destinado a uma mulher de meia idade, que acha as flores bonitas, mas não entende nada. A adolescente, então, revela para a mãe que aquele senhor, com ares de realeza, é seu avô, portanto, pai da mulher de meia idade. Ela explode numa gargalhada histérica, pois o pai abandonou a família há muitos anos, e toma como piada. O idoso, em pânico, percebe que a neta forçou o encontro e deixa o local.

A cena me conquista e, como são apenas quatro episódios curtos, resolvo assistir a minissérie. Percebo, instantaneamente, que ela podia, com pequenas adaptações, ser brasileira. Começa em Paris, uma metrópole que lida bem com todas as propostas de vida. É o que leva o protagonista a deixar sua cidade natal, no interior da Polônia, para viver livremente na França, se revelar nas noites parisienses, nos teatros de revista, em meio ao luxo e ao hedonismo. Mas nosso herói, perto de completar 80 anos, nesse momento só deseja uma boa aposentadoria, uma vida tranquila a beira mar, no sul da França, de preferência.

Por ser um grande nome da alta costura, Bork, disputam sua marca, mas reluta em ceder o nome para a exploração comercial. Por outro lado, além de ser o figurinista de uma companhia de teatro, é a atração principal, a grande diva da noite, a drag Queen Loretta. Uma grande amiga, na faixa dos 50 anos, tenta demovê-lo da ideia da aposentadoria:

– Você não está velho, por dentro você tem 30 anos…

Preconceito clássico que parte do próprio velho, negar a idade recorrendo a infantil ideia do espírito jovem (novo por dentro). Velho é velho, ponto, é quem vive a etapa da velhice. Não é descartável, porque é um ser com vivências, projetos, sonhos etc. Bork trabalhou duro, economizou, tem todo o direito de trocar a cinza Cidade Luz pelo azul do sol de uma Cannes, Nice etc., para viver seus últimos dias.

Por esse aspecto, o preconceito, é que a série poderia perfeitamente ser brasileira. Acompanhando o noticiário sobre o assediador (moral e sexual) Pedro Guimarães, ex-presidente da Caixa Econômica Federal, em uma reunião de notáveis, na presença do presidente Bolsonaro, um velho (67 anos), como muitos ali, Pedro diz o seguinte: não aceito essa frescurada de home office, trabalho com 30 mil funcionários, sabem quantos morreram até agora por causa da covid? Dois. Sendo que um era aposentado, 70 anos…

O aposentado, 70 anos, para os Pedros do Brasil, não conta, é descartável. Os velhos ministros presentes, principalmente o velho presidente, são todos jovens de espírito, novos por dentro e, acima de tudo, machos, fortes, destemidos, desbravadores, capazes de fazer flexões a qualquer momento, em qualquer lugar, usando apenas uma mão! Gente assim não teme o coronavírus, por isso rejeita a vacina, pois seu organismo macho dá conta do invasor, quer dizer, com a ajudinha de uma poção mágica, como declara Pedro, o assediador: se eu pegar o vírus, já avisei lá em casa, tomo um litro de cloroquina e pronto, no dia seguinte estarei no trabalho…

A ideia é que só velhos e fracos morrem, por isso o governo quis deixar o vírus circular livremente, uma política genocida identificada e provada pela CPI da Covid. Fosse diferente, teríamos evitado a morte de ao menos 400 mil pessoas. Quem paga essa fatura? Quando será cobrada? A Justiça segue de braços cruzados, sabe por quê? Velhos e fracos não contam! Morreu quem tinha que morrer!

A vacina foi implementada graças a pressão popular, porque o brasileiro quis ser vacinado, por isso os governadores começaram a agir por conta própria, a correr atrás, a fazer convênio com China, Índia, Reino Unido, Estados Unidos etc. O governo, encurralado, viu-se obrigado a comprar doses. Convoca, então, os pastores da corte para intermediar negociatas. A CPI da Covid denuncia a farra e evita a roubalheira em nome da saúde pública. As vacinas chegam a tempo de evitar a morte de mais de um milhão de pessoas só no Brasil; no mundo, mais de 20 milhões.

Porém, se dependêssemos da vontade do governo, milhões teriam morrido até se conseguir a improvável imunidade de rebanho.  E a ideia continua a mesma: Bolsonaro, em 2022, ainda tem a pachorra de declarar a um site americano que é contra a vacina e a favor das armas. Trata-se de uma política higienista, elimina-se velhos e fracos, o que é bom para as contas da Previdência. Sim, porque velho macho, de espírito jovem, que faz flexão apenas com uma mão, esse não morre jamais!    

Antes que me esqueça, Bork, o velho protagonista da série Queen Loretta, prepara-se para o show de despedida do teatro e das amigas. Já está com um pé no Sul da França, quando recebe uma carta proveniente da Polônia, um envelope cor-de-rosa que mudará sua vida. Debate sobre o que fazer com a amiga mais próxima, que deduz que o Sul da França pode esperar. Tenta desqualificar a opinião da amiga chamando-a de bicha velha! A amiga se sente insultada.

– Bicha, sim; velha, jamais!

No Brasil, ainda é comum se usar o termo velho/velha como xingamento. Há pouco tempo, vendo o noticiário, um casal de turistas paraibanos foi barrado em Jericoacoara, no Ceará, por violar regras locais. A mulher, dentista, injuriada por não poder fazer o que dá na telha – porque está pagando – discute com a vigilância. Em dado momento, resolve xingar o Estado do Ceará, e o faz de forma cretina e caricata[1]:

– Uma merda de Estado velho desse! Uma merda de Estado velho desse!

Repete o xingamento, porque chamar de velho é mais do que xingar, é desprezar. Como será a velhice dessa mulher cheia de preconceitos? Na minha infância, no Ceará, lembro de um xingamento muito comum feito pelos adultos em relação às crianças:

– Esse menino velho é um boca aberta!

Menino velho é demais, não?!

Bom, vamos seguir os passos de Bork. Ele se enfia num TGV com destino a Polônia. Do TGV (trem moderno, de alta velocidade) salta para um microônibus, desses que circulam nas periferias das nossas regiões metropolitanas. O diretor deixa claro que o personagem troca a metrópole desenvolvida por um cafundó afundado em preconceitos. É mais ou menos o que esse governo fez com o Brasil, despertou o que há de pior nas pessoas que, seguindo o exemplo do presidente, sentem-se autorizados a cometer todo o tipo de violência.

Bork, que deixou sua pequena cidade no interior da Polônia para fugir desse preconceito, dezenas de anos depois, ao retornar, encontra o mesmo preconceito a sua espera. A internet, com suas redes sociais, em nada ajuda o povo a evoluir, pelo contrário. Se por um lado ela apresenta benefícios inquestionáveis, por outro alimenta e acentua preconceitos com seus algoritmos viciados.

Aquele senhor da chamada da minissérie, o idoso com um buquê de flores, procura se reconciliar com o passado, com a filha e, agora, com a neta que o encontra graças à internet. Quando questionado (por que foi embora?), e sem saída e palavras para se explicar, tenta convencer a filha mostrando quem realmente é: Queen Loretta. A filha acha a performance do pai uma falta de bom senso completa: um velho vestido de mulher, pode?!

Fosse um jovem ou adulto, na concepção da filha, ainda dava para entender, mas um velho?! Porém, a série mostra que há esperança, que podemos vencer o preconceito, o machismo, o racismo, (a bicha velha é preta), o idadismo etc., mas o preço é mesmo uma tragédia?!

Na série, uma explosão em uma mina de carvão mata sete e une o povo em torno de uma causa comum; aqui, quatro anos sob um governo machista, que despreza negros, mulheres, pobres, povos originários, LGBTQIA+, velhos e atua deliberadamente para destruir toda e qualquer política social, agride o meio ambiente, desenvolve uma política armamentista e patrocina milhares de mortes. Na série, a tragédia é superada com festa, com cultura, com o amor a arte que supera inclusive o machismo dos mineiros, tendo a internet como aliada. E aqui, como superar nossa tragédia?

Nota
[1] https://www.youtube.com/watch?v=2U1ww0fkeZY

Fotos: divulgação


https://edicoes.portaldoenvelhecimento.com.br/produto/curso-online-a-mulher-nao-envelhece-consideracoes-clinico-sociais-a-partir-do-mito-da-beleza/

Mário Lucena

Jornalista, bacharel em Psicologia e editor da Portal Edições, editora do Portal do Envelhecimento. Conheça os livros editados por Mário Lucena.

mariolucena escreveu 85 postsVeja todos os posts de mariolucena

WhatsApp
LinkedIn
Share
Instagram