Que tal deixar de ter vergonha da sua velhice?

Tempo de Leitura: 3 minutos

Que a partir de hoje, primeiro de outubro, possamos comemorar nossas velhices, orgulhando-se dos velhos que nelas habitam, como eu me orgulho da velha que estou aprendendo a ser e a estar no mundo!


Durante esta semana recebi na redação do Portal do Envelhecimento diversas matérias de muitas assessorias de comunicação como sugestão de pauta para comemorar o dia internacional do idoso, neste primeiro de outubro. Hoje teremos na mídia em geral uma enxurrada de manchetes falando sobre a terceira idade, talentos grisalhos, economia prateada, sêniores, 60+ etc., enfim, não importa o nome, teremos muitas matérias falando da velhice. Como o Portal fala todos os dias dos diversos aspectos que envolvem nossa existência mais prolongada, resolvi hoje fazer um apelo a todos os que têm mais de 60 anos: por favor, parem de ter vergonha de suas velhices, por favor!

Mas por que será que temos vergonha de sermos velhos? Essa é uma pergunta que me faço há muito tempo, e me fizeram durante uma entrevista que dei para a TV Universitária da Universidade Federal de Pernambuco nesta semana. A resposta é complexa, porque simplesmente não é simples.

Para começar, sabe o que é crescer ouvindo que o envelhecimento é um problema, seja nas manchetes de jornais quando falam da previdência, seja na família, cada vez mais reduzida, e que os velhos, que foram muitas vezes os alicerces daquele grupo familiar se tornam um problema para a mesma, pois não há quem possa cuidá-los? Depois, no mundo do trabalho também se ouve o mesmo, que fulano de tal está velho e que não dá mais conta do recado, ou que o beltrano custa muito para a empresa e que se tornou um problema a ser combatido…

Velhos como problema. Problemas que foram de alguma maneira tratados nos diversos materiais que recebemos como sugestão de pauta. O primeiro deles se refere ao número, isso mesmo, nós, eu, você, teu pai, mãe, tia, avô…, nós velhos somos o grupo populacional que mais aumenta no mundo. Já somos mais de 30 milhões brasileiros acima dos 60. E a sociedade, o mercado e o poder público não sabem o que fazer (ou fingem que não sabem) com tantos velhos. Velhos pobres que a cada dia ficam mais pobres, velhos de classe média que empobrecem diariamente, velhos endinheirados; velhos que surfam, que pulam de paraquedas, que se tatuam; velhos frágeis, doentes, acamados, dependentes; velhos que mesmo com doenças continuam lutando por sua sobrevivência; velhos chatos, bonzinhos, humorados, criminosos, empreendedores; velhos solitários, festeiros, enfim, velhos que vivem suas velhices múltiplas, heterogêneas, diversas e singulares.

Todos esses velhos, eu, entre eles, cresci ouvindo como nos tornamos problema para a sociedade. Não somos vistos como solução. E eu digo, esta lógica está totalmente equivocada e precisamos mudá-la. Precisamos urgentemente mudar essa “chave” de pensamento: Não somos problema, nós temos problemas, hoje, no dia primeiro de outubro, e nos demais 364 dias do ano. Temos problemas assim como as crianças, os jovens, os adultos… e cabe à sociedade e ao estado encontrar as melhores soluções para nossos problemas.

Como fazemos parte da sociedade também cabe a nós, velhos, solucionar essa questão, e parte dela exige deixarmos de ser um problema. Exige aceitar a nossa velhice contemporânea e, como tal, apresentar os problemas que temos e como estes poderiam ser enfrentados.

Não falo aqui de doenças, pois nós velhos não somos sinônimo de doença, embora a Organização Mundial de Saúde queira assim nos classificar internacionalmente. Não só, muitos dos conteúdos recebidos aqui no Portal como sugestão de pauta tratam sobre doenças e cuidados com saúde física e mental, indicando a doença como único destino de nossa velhice, o que para mim é outra chave que se deve mudar, pois isso reforça nossa negação em aceitarmos a velhice como etapa natural de nossa condição de humano que somos. Quem quer ter em seu horizonte a doença como único destino?

Essas “chaves” (de sermos um problema para termos um problema; e da doença como único destino) só serão mudadas quando assumirmos nossas velhices e pararmos de termos vergonha delas.  

As velhices de hoje, que eu chamo de contemporâneas, são distintas das de nossas bisavós, avós, pais; e embora em nosso cotidiano façamos coisas que eles jamais fizeram, não nos apropriamos disso e reforçamos em nosso imaginário somente imagens negativas de velhices de outrora, esquecendo de nossa contemporaneidade.

Por isso este meu convite, que a partir de hoje, primeiro de outubro, possamos comemorar nossas velhices, orgulhando-nos dos velhos que nelas habitam, como eu me orgulho da velha que estou aprendendo a ser e a estar no mundo!

Foto destaque de RODNAE Productions/Pexels

Atualizado às 20h25


Beltrina Côrte

Jornalista, Especialização e Mestrado em Planejamento e Administração do Desenvolvimento Regional, Doutorado e Pós.doc em Ciências da Comunicação pela USP. Estudiosa do Envelhecimento e Longevidade desde 2000. É docente da PUC-SP. Coordena o grupo de pesquisa Longevidade, Envelhecimento e Comunicação, e é pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisa do Envelhecimento (NEPE), ambos da PUC-SP. CEO do Portal do Envelhecimento, Portal Edições e Espaço Longeviver. Integrou o banco de avaliadores do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior – Basis/Inep/MEC até 2018. Integra a Rede Latinoamericana de Psicogerontologia (REDIP). E-mail: [email protected]

beltrinacorte escreveu 84 postsVeja todos os posts de beltrinacorte