Que as crianças cantem livres em 2020

Mais uma vez, já que faço muito isso em meus textos, encontro a brecha do tempo, mergulho nos anos 1970, 1980 e lá estão, radiantes, todos os sinais de esperança e luta que precisamos nesses novos tempos de intolerância e perdas. Que as crianças cantem livres!


E que as crianças cantem livres sobre os muros
E ensinem sonho ao que não pode amar sem dor
E que o passado abra os presentes pro futuro
Que não dormiu e preparou o amanhecer…” (Taiguara).


Algumas pessoas dizem que tudo que é passado deve ser enterrado lá mesmo, nada de trazer para o hoje, coisas que se foram. Bem, cada um pensa como quer, entretanto, sigo outro caminho que, creio, leva-nos a ampliar o universo da reflexão. Para isso, busco, lá na emoção e no ideal do que se foi um, dos muitos esquecidos: Taiguara Chalar da Silva, o artista mais censurado no Brasil pela ditadura militar (1964-1985), tendo mais de sessenta músicas censuradas entre os anos de 1972 e 1973, impedindo-o de gravar ou reproduzir uma série de composições.

Depois do extenso exílio, na Europa e na África, Taiguara retorna ao Brasil no início dos anos 1980, ainda se mantendo ativo politicamente com letras de música até mais politizadas. Taiguara morreu ainda muito jovem, em 1996, vítima de câncer.

Você deve pensar: mas qual a razão dessa escolha em um texto que, em tese, deve ser “pra cima”, alegre, positivo e, porque não dizer, cheio de “uvinhas” e “pulinhos pelas ondas do mar”?

Aí, peço licença para usar as palavras de um homem muito especial, alguém que tenho enorme admiração e respeito: em um país em que “crianças e adolescentes são chacinados, começo a acreditar em Deus e no juízo final para todos que votaram […].

E na esteira de tudo que, obrigatoriamente, tem que mudar, nos obrigar a pensar com responsabilidade, lembro Taiguara e seu hino da poesia, da vida real: “Que as crianças cantem livres”, eu diria, vivas, com saúde e felizes em 2020.

Mais uma vez, já que faço muito isso em meus textos, encontro a brecha do tempo, mergulho nos anos 1970, 1980 e lá estão, radiantes, todos os sinais de esperança e luta que precisamos nesses novos tempos de intolerância e perdas.

Para quem nasceu em 1961, tão distante, tudo fica ainda tão fresquinho na memória, “tudo” como se fosse ontem. Você diria: um sinal do envelhecimento? Talvez, mas seguimos… E viva Taiguara!!!

E no nascer de um novo ano, as crianças, lá estarão…

O tempo passa e atravessa as avenidas
E o fruto cresce, pesa e enverga o velho pé
E o vento forte quebra as telhas e vidraças
E o livro sábio deixa em branco o que não é

Assim, escreva uma nova história, a sua, palavras do bem que pensem e sintam as necessidades do outro, palavras que aqueçam o coração e, acima de tudo, preencham “o que não é”. O caminho? Tente a trilha da generosidade.

Já pensou no que te falta?

Pode não ser essa mulher o que te falta
Pode não ser esse calor o que faz mal
Pode não ser essa gravata o que sufoca
Ou essa falta de dinheiro que é fatal

Sim, mas pode ser a indiferença “que faz mal”, pode ser a escuta vazia, pode ser a pressão que “sufoca”, pode ser a clara sensação de subsistência “que é fatal” ou a violência muda que atravessa como veneno as relações.

Vê como um fogo brando funde um ferro duro
Vê como o asfalto é teu jardim se você crê
Que há sol nascente avermelhando o céu escuro
Chamando os homens pro seu tempo de viver

E todos os dias, não apenas o romper de 31 para 1, são tempos de viver, até porque podem ser os últimos, nunca sabemos quando seremos chamados para o nascimento de uma nova, “literalmente” vida. Portanto, agarre os segundos, veja bem não os minutos ou as horas, mas os míseros segundos e goze a vida que Deus te deu.

E que as crianças cantem livres sobre os muros
E ensinem sonho ao que não pode amar sem dor
E que o passado abra os presentes pro futuro
Que não dormiu e preparou o amanhecer…

E quando seu ano novo chegar, sorria, porque lá estarão seus desejos, todos prontinhos, saídos do forno, deliciosos, só esperando por você, pelo seu cuidado, seus carinhos, sua atenção e, o mais importante, sua consciência: tudo que fazemos nessa vida reverbera, então pense cuidadosamente, reflita sobre suas escolhas porque a vida, infelizmente, não faz caminho de volta, só segue.

Que 2020 brilhe em paz no seu coração!

Para meus queridinhos, Pedro e Julia, um mundo melhor, sempre!!!


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Luciana Helena Mussi

Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: lucianahelena@terra.com.br.

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