Quatro poemas sobre Parkinson e envelhecimento

Tempo de Leitura: 6 minutos

A poetisa Robin Morgan que tem Doença de Parkinson traduz sua experiência em quatro poderosos poemas, meditando sobre o envelhecimento, as perdas e o simples poder de observar as transformações da enfermidade em seu corpo que envelhece. Como poetisa, ela começou a trabalhar com o tema, achando-o trágico, divertido, e às vezes até mesmo alegre.

Robin Morgan (*)


Quando tinha apenas três ou quatro anos, eu me apaixonei pela poesia, pelos seus ritmos e pela musicalidade da linguagem; pelo poder da metáfora e do imaginário, a poesia é a essência da comunicação, a disciplina, a destilação. Tantos anos depois, os poemas que vou ler hoje são do meu recém-terminado sétimo livro de poesia.

Bem, há cinco anos fui diagnosticada com a Doença de Parkinson. Embora ainda não exista cura, os avanços no tratamento são realmente impressionantes. Mas vocês podem imaginar que eu fiquei chocada ao saber que as mulheres são, em grande parte, excluídas das amostras de pesquisa, apesar das descobertas médicas baseadas em gênero terem demonstrado que na verdade não somos somente homens pequenos que por acaso têm sistemas reprodutores diferentes. Medicina baseada em gênero também é eficaz para os homens.

Mas você coloca em crise a pessoa que você já é, incluindo, sim, a força que você aprende a criar com o cuidado apaixonado e ações; ambos exigem e também criam muita energia. Como uma ativista, comecei a trabalhar com a Fundação da doença de Parkinson, para tomar uma iniciativa e tentar colocar as mulheres no mapa da doença. E como poetisa, comecei a trabalhar com o tema, achando-o trágico, divertido, e às vezes até mesmo alegre. Eu não me sinto diminuída pelo Parkinson; eu me sinto purificada por ele, e realmente gosto muito da mulher em que estou me transformando.

“Não há sinais de luta”

Tornar-se menor requer uma enorme força de vontade: estar sentada imóvel na sala de espera do médico vendo o futuro deslizar-se em sua frente, vê-lo inclinar-se, te encarando enquanto você tenta não olhar. É raro haver uma troca: um breve sorriso, reconhecimento irônico. Você é o novato. Todos aqui já passaram por isso. Você ainda está aprendendo que diminuir requer uma grandeza de espírito em que você ainda não cabe: aceitar a ajuda irritante das pessoas que te amam; abrir mão, mas não desistir.

Você engoliu o amargo conteúdo da garrafa que diz “Beba-me”, e sentiu-se diminuir. Agora, os móveis parecem maiores, o piso balança, e as maçanetas funcionam somente se giradas com as duas mãos. Isso demanda uma paciência enorme, toda essa diminuição: o sono que diminui à noite, sua caligrafia, sua voz, sua altura. Você está mais para a incrível mulher que diminui do que para a budista mística, serena, que faz mais com menos. Menos nem sempre é mais. Assim mesmo, neste vazio, o espaço reluz, tornando-se visível. Aqui é um lugar atrás dos olhos daqueles acostumados ao que alguns chamam de diminuição.

É um lugar de poesia sem piedade, uma dádiva que antes era ignorada, mergulhada na confusão da rotina. Aqui cada gesto necessita de intenção, está vivo com consciência. Nada é automático. Você pode observar isso na provocação de um botão, o braço tentando entrar na manga da blusa, o ato de equilibrar-se em um degrau no meio da escuridão da noite.

Façanhas de tão pouco valor, quem diria que seriam um exercício de uma disciplina íntima e cruel, a metafísica de estar consciente inexoravelmente?

Há um poder tão pouco valorizado nestes bailarinos instáveis que fazem um tremendo esforço para tarefas que muitos consideram insignificantes. Há tanta beleza nestas pessoas de voz suave e membros rígidos; tantas decisões por trás de cada feição tranquila. Há uma grandiosidade necessária para diminuir-se, curvados em uma graça inflexível.

“Sobre doar meu cérebro para a Ciência”

Não há problema. Pule as páginas, religiosos. Já sou doadora de órgãos: rins, córneas, fígado, pulmões, pele, coração, veias, o que seja. O incrível é que o modesto cérebro jamais imaginou seu valor único nas pesquisas, possivelmente salvando outras pessoas desta doença desconhecida. Isso é reconfortante.

Portanto preencha o formulário, verifique as respostas, perfure um espírito alegre. E me fatie, me pique, me espalhe por suas lâminas. Encontre o que eu estou tentando explicar. Me possua, me entenda, me examine, olhe bem por suas lentes. Descubra o meu palpite se eu pudesse dar um.

Seja meu convidado, faça o seu melhor, colha os frutos, siga as pistas. Este foi um bom cérebro enquanto viveu. Foi um cérebro que pagou suas dívidas. Então me fatie, me pique, suje suas lâminas, me manche, me explique, me drene como um copo. Me compartilhe, me escute:

Quero ser usado. Quero ser usado. Quero ser totalmente usado (Aplausos)

“A luz fantasma”

Estar iluminado por dentro é a forma segura de atravessar a escuridão. Algumas formas de vida – alguns cogumelos, lesmas, águas-vivas, minhocas – produzem bioluminescência, e pessoas também; emitimos luz infravermelha de nosso interior iluminado. Nossa tragédia é que não podemos vê-la.

Vemos somente o reflexo. Nós precisamos de bioflurescência para mostrar nossas verdadeiras cores. No entanto, a iluminação externa pode distorcer. Quando a gravidade desvia a luz, enormes aglomerados de galáxias podem agir como telescópios, alongando as imagens de fundo do sistema solar em um arco tênue — um efeito de lente como ver luzes de rua distantes através de uma taça.

Uma taça de vinho ou duas me fazem entrelaçar agindo como uma completa bêbada; como se estivesse apaixonada por um amor não correspondido pelas pinturas de Turner espiadas pelo telescópio Hubble, eu poderia cambalear por todas as ruas da cidade sem atrair os olhares de cada pedestre que passa.

Olhe o quanto quiser. Se você pensar nisso, andar, até mesmo estar em pé, é ilógico — os pés, que coisas tão minúsculas! — especialmente quando o corpo já não está tão firme. Além do mais, sendo uma criatura de extremos e excessos, eu sempre achei que Apolo fosse lindo mas monótono, e meio que um loiro burro. Dionisíacos não equilibram.

Equilíbrio, em outras palavras, nunca foi meu ponto forte. Mas eu estou divagando. Ultimamente, cada vez mais e mais divagações parecem ser o caminho mais direto no qual eu me perdi e me encontrei fora do lugar, da mente, da ordem, do tempo.

Coloque seu pé bem assim, preste atenção em como gira: girar muito rápido pode te derrubar. Não tenha pressa ao cumprimentar o auditório, ao despedir-se dos atores. A luz fantasma é como chamam a lâmpada pendurada sobre o palco descoberto em um teatro vazio. Em um teatro vazio em uma noite assim, buscando não fazer nenhum barulho externo, esta é a luta final a ser ganha, este é o único farol a iluminar a escuridão e deixar o resto começar, estas são as lentes pelas quais finalmente se vê a Si mesmo e a Outros, vestidos com a mancha brilhante do pecado original: iluminada por dentro.

“Esta hora escura”

Final do verão, 4 da manhã. A chuva diminui até parar, ainda pingando das largas folhas das plantas azuis invisíveis na escuridão do jardim. Descalça, com cuidado nas lajes de ardósia lisa, não preciso de luz, eu sei o caminho, agache perto da cama de menta, escave um punhado de terra úmida, e então apalpe buscando uma cadeira, abra o xale, e sente-se, respirando o ar verde e molhado de agosto.

Esta é a pequena, rígida hora antes do jornal aterrissar na estrada como uma granada, o telefone tocar, a tela do computador piscar e brilhar desperta. Já está na hora: poema em minha cabeça, terra em minha mão: plenitude indescritível. Esta hora, onde o sangue do meu sangue, osso do meu osso, filho que já é homem — estranho, íntimo, não distante, mas separado — se deita, sonhando melodias enquanto o amor dorme, seguro, em seus braços.

Ter vindo a este lugar, vivido até este momento: claridade imensurável. A densidade do negro começa a dissipar-se. Tentativa, canto de um cardinal, e então a escolha do pombo de luto. O negro torna-se cinza; objetos aparecem, seguindo sombras; a noite envelhece em direção ao dia. A cidade se agita.

Haverá outro amanhecer, noites, dias exagerados. De qualquer forma, vou me perder. Vou estar tropeçando, caindo, insultando a escuridão. Seja como for, houve esta hora quando nada importava, tudo era insuportavelmente amado.

E quando eu já não tiver luz nos meu dias, caso aqueles que me amaram se aflijam demais, que eles se lembrem de que eu tive esta hora — esta hora escura e perfeita — e sorriam.

(*)Robin Morgan – Poeta, autora, editora e ativista. Publicou mais de 20 livros, e seis livros de poesia. Foi co-fundadora (com Simone de Beauvoir ) do Instituto Sisterhood, e co-fundadora (com Jane Fonda e Gloria Steinem) das Mulheres Media Center, um programa de rádio. Os poemas foram tema do TEDWomen 2015 – Filmed May 2015, traduzido por Daniele Vichietti e revisado por Thaisa Ishimine. Acesse Aqui

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