Quantos questionamentos você tem do ser velho?

Tinha muitos questionamentos em relação ao ser velho, até que fui trabalhar em um equipamento coletivo e ali vi a importância do Centro dia para muitos usuários atendidos. Muitas vezes é a única oportunidade que os idosos têm de fazer uma refeição e tomar banho.

Grazielly de Siqueira Basso (*)

 

Desde muito pequena meu desejo era ter uma avó, para levá-la a passear, ouvir seus sábios conselhos e suas histórias. Mas a vida levou minha avó materna muito nova e não me recordo dela. Minha avó paterna residia em Olimpia (SP), visitava aproximadamente 3 vezes ao ano, guardava ovos de páscoa, presentes e sua atenção para me entregar, ela era a “AVÓ”, a única imagem que eu cresci desejando em conviver, mas ela faleceu.

Recordo-me como se fosse hoje recebendo a notícia de seu falecimento, era muito nova e não conseguia assimilar o que era a morte. Passei anos cobiçando uma avó, conhecendo pessoas com avós, e sempre perguntava: “Como é sua avó?”.

Logo entrei na faculdade de Psicologia, e fui realizar um estágio voluntário por querer adquirir conhecimento. Foi no Asilo São João Bosco, esse foi o início do meu contato com velhos, de fato. Primeiro dia? Senti temor e angústia. Logo vieram os questionamentos: Como conversar com eles? Posso encostar? Fui então ler Simone de Beauvoir, o livro  A Velhice (1990)

A velhice não é um fato estático; é o resultado e o prolongamento de um processo. Em que consiste este processo? Em outras palavras, o que é envelhecer? Esta ideia está ligada à ideia de mudança. Mas a vida do embrião, do recém-nascido, da criança, é uma mudança contínua. Caberia concluir daí,como fizeram alguns, que nossa existência é uma morte lenta? É evidente que não. Semelhante paradoxo desconhece a verdade essencial da vida: ela é um sistema instável no qual se perde e se reconquista o equilíbrio a cada instante; a inércia é que é o sinônimo de morte. A lei da vida é mudar”. (1990, p. 17)

E assim fui desmitificando todos meus receios. Fiquei 4 meses auxiliando em um ateliê de pintura, meu primeiro contato com Arteterapia que, de acordo com Martine et al (2002, p. 97):  “A arte-terapia é uma técnica que visa à expressão ou à comunicação de representações com o as fantasias e sentimentos, possibilitando, assim, um espaço para liberação das energias psíquicas, bem como a possibilidade de expressão posteriormente à criação estabelecida em palavras, daquilo que antes não tinha nem nome e nem lugar para ser manifesto”.

Por força do destino acabei vindo morar em São Paulo e, por ironia, a porta que me abriu profissionalmente foi em uma Casa de Repouso particular. Meu primeiro dia? TEMOR, não conseguia conversar, não compreendia o que estava fazendo ali. Lá se vai novamente todas as minhas dúvidas, questionamentos e receio. O que eu faço? Por que não estou conseguindo me aproximar? Meu papel era estimular as funções cognitivas. Cheguei em casa, fui estudar, mas não era o suficiente. Ao longo dos meses fui compreendendo que não há manual para lidar com velhos e sim a experiência do dia a dia. Minha escola e meus professores foram todos os idosos que passaram por minha vida, ensinaram-me a importância do toque, escuta e paciência. Como também as diversas atividades como jogos, músicas, alongamentos, caminhadas, pinturas, colagem, passeios externos, bem como atividades de lazer e interação. Eu posso afirmar com toda a certeza que esse lugar foi minha grande escola, foi onde eu me identifiquei com o envelhecimento, no qual revi quem era a “Grazielly, e a importância da minha atuação com velhos”.

Novamente recebi uns dos meus melhores presentes, ser Técnica Psicóloga do Centro Dia para Idosos – Butantã. Serviço tipificado da Rede Socioassistencial da Proteção Social Especial de Média Complexidade da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social – SMADS.

“É um serviço destinado à atenção diurna de pessoas idosas em situação de vulnerabilidade social e com grau de dependência, com os objetivos de promover maior autonomia e a melhoria da sua qualidade de vida, seus cuidadores e famílias; desenvolver ações especializadas para a superação das situações violadoras de direitos que contribuem para a intensificação da dependência; prevenir o abrigamento e a segregação dos usuários do serviço, assegurando o direito à convivência familiar e comunitária; promover acessos à benefícios programas de transferência de renda e outros serviços socioassistenciais, das demais políticas públicas setoriais e dos sistema de garantida de direitos; promover apoio às famílias na tarefa de cuidar, diminuindo a sua sobrecarga de trabalho e utilizando meios de comunicar e cuidar que visem a autonomia dos envolvidos e não somente cuidados e manutenção; prevenir situações de sobrecarga e desgaste de vínculos provenientes da relação de prestação/demanda de cuidados permanentes e prolongados”.

De acordo com o Guia de Orientações Técnicas Centro Dia do Idoso, este serviço é para “Idosos, de ambos os sexos, com idade igual ou superior a 60 anos, em situação de vulnerabilidade ou risco social, e cuja condição requeira o auxílio de pessoas ou de equipamentos especiais para a realização de atividades da vida diária, tais como: alimentação, mobilidade, higiene; sem comprometimento cognitivo ou com alteração cognitiva controlada (graus de dependência I ou II segundo a ANVISA). Segundo a ANVISA, estão estabelecidos três graus de dependência para os idosos, a saber: a) Grau de Dependência I – idosos independentes, mesmo que requeiram uso de equipamentos de auto-ajuda; b) Grau de Dependência II – idosos com dependência em até três atividades de autocuidado para a vida diária tais como: alimentação, mobilidade, higiene; sem comprometimento cognitivo ou com alteração cognitiva controlada; e c) Grau de Dependência III – idosos com dependência que requeiram assistência em todas as atividades de auto-cuidado para a vida diária e ou com comprometimento cognitivo.”

A importância do Centro dia para muitos usuários atendidos é a oportunidade de ser a  última refeição e o único banho realizado no serviço por um idoso. Quantas evoluções presenciei, idosos que não verbalizavam, que não tinham convívio com outras pessoas, que não conheciam seus direitos, famílias que apenas precisavam de uma orientação. Quantas falas ouvi “voltei a viver”; “sinto-me como se voltasse meus 25 anos”; “eu não sei o que seria de mim sem o CDI; “não sabia que existia lugar como esse”.

Percebo quantas evoluções estamos tendo no decorrer dos anos, quantas pessoas se quer pensavam no envelhecimento. Volto para o início da minha fala, e me pergunto: por que tanto receio, medo e angústia com velhos? Quanta falta de informações, e pessoas atuando no envelhecimento.

Finalizo com meus últimos questionamentos: Quantos idosos desconhecem seus direitos, e não tem acesso?

E quando não são mais atendidos pelo Centro Dia ou quando não atendem ao perfil para serem inseridos no serviço, para onde vão esses idosos?

O art. 3º do Estatuto do Idoso assinala que “É obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do Poder Público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária”.  Será isso mesmo?

Referências

BEAUVOIR, S. A velhice. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990. p, 17.

EDITAL de RESOLUÇÃO COMAS – SP Nº 836 DE 29 DE JULHO DE 2014. Disponível em: ftp://ftp.saude.sp.gov.br/ftpsessp/bibliote/informe_eletronico/2014/iels.ago.14/Iel s146/M_RS-COMAS-836_290714.pdf .

Estatuto do Idoso. Lei Federal nº 10.741 de 01/10/2003. Art. 3º. p,11

GUIA de Orientações Técnicas Centro Dia do Idoso – ‘’Centro Novo Dia’’ / Secretaria de Desenvolvimento Social. – São Paulo: Secretaria de Desenvolvimento Social, 2014.

MARTINIE, Josy Mariane Thaler et al..Arteterapia: Recurso Terapêutico Ocupacional na Terceira Idade.Revista Miltitemas, vol.25, mar.2002.

 

(*) Grazielly de Siqueira Basso é graduada em Psicologia, com experiência em Casa de Repouso e de Assistência Social (CREAS). Atua como técnica Psicóloga no Centro Dia para Idosos- Dr. Ricardo-Butantã. Texto escrito para o curso “Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento”, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo- COGEAE/PUC SP, no segundo semestre de 2017.E-mail:  grazielly_basso@hotmail.com

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