Quando me tornei ‘mãe’ de meus pais

Só me deparei com o envelhecimento dos meus pais quando fui colocada frente a suas dificuldades e finitude. Para mim, eles seriam para sempre, sempre em mim.

 

Um assunto muito polêmico no contexto do envelhecimento e que sempre ouvi na clínica diz respeito a inversão de papéis em que filhos se tornam mães e pais de seus pais. Na realidade, nunca tive uma opinião formada com relação a isso. Só entendia que essa inversão era simbólica. Como assim, sermos pais de nossos pais? Que lugar era esse? Que função era essa? O que tínhamos que fazer?

Procurei durante muito tempo não posicionar-me com relação a isso, afinal, eu não tinha vivenciado esse processo para falar com propriedade, até este momento.

Reconhecer que só vemos a velhice no outro, através das dificuldades ou da finitude, foi o primeiro passo para compreender que o envelhecer está mais próximo do que imaginamos. Faremos parte dele, de uma forma ou outra, ora como ‘velhos’ que seremos ora como jovens que ainda somos por pouco tempo.

As primeiras alterações passaram despercebidas, afinal, pensamos que eles serão jovens para sempre. Para mim sempre seriam.

Um andar vagaroso, dificuldade para encontrar o talher preferido na gaveta ou a camisa velha desbotada no armário ainda não eram vistos como parte do envelhecimento, envelhecimento que, talvez, não fosse o considerado ‘normal’.

Aí, nos deparamos com mais dificuldades, idas consecutivas aos médicos, remédios, repouso, alterações de humor, mais tempo fazendo companhia, ouvindo histórias de quando eram jovens, histórias dos avós, bisavós e outros mais que não deu tempo de conhecer e, aprender as receitas de família que não estão anotadas nos cadernos. Então, fazemos de tudo para manter a qualidade de vida e a dignidade de quem sempre nos cuidou, amou e protegeu como forma de retribuir o seu imenso sacrifício para sermos o que somos. É isso. Não somos e nem seremos mães e pais de nossos pais, não é inversão de papéis e funções familiares. É troca. É apenas amor, cuidado e respeito encontrando um caminho de volta.

É isso, cuidar de quem nos cuidou com amor e respeito, da mesma forma que fizeram conosco quando éramos pequenos.

Quando compreendo isso, começo a ver o tempo voar, me tirando as oportunidades que eu não aproveitei. Começo a ver o mundo em câmera lenta e aprendo a olhar para os detalhes. Ah, os detalhes. A camisa só é usada se tiver bolsos; as refeições podem ser feitas no sofá da sala porque é mais tranquilo; os passarinhos agitados na árvore é sinal de mudança de tempo. “Corre lá, tira as roupas do varal, vai chover”.

Em todo esse processo, passei pela fase da impaciência de filho para chegar à paciência de cuidadora, sim, filha e cuidadora, e acredito que todos deveriam passar por esse processo de modelação, reestruturação, de empatia, de ressignificação.

Ao longo desse tempo, comecei a perceber que a minha vocação e profissão tinha uma explicação. Não era o mérito de estudar, pesquisar, escrever ou, auxiliar a quem me procura. Minha vocação, tão delicadamente construída, era para cuidar primeiramente dos meus e poder vivenciar esse processo de perto, para só então, apropriar-me não só da teoria, mas da prática humanizadora e amorosa que a convivência com eles me ensina.

Eu não percebia antes que eles eram a minha chance de aprender. Hoje, sei que tudo é por e para eles e pelos que virão. Não há gratidão maior do que tê-los aqui, por aqui, até quando puderem ficar. “Vamos aproveitar cada momento, temos tão pouco tempo”.

Então, usando as palavras de Bezerra de Menezes, em uma mensagem que foi recebida pelo médium José Carlos de Lucca, e que serve tão bem para a mensagem que quero eternizar, digo:

Filhos queridos: Gostaria de, humildemente, pedir a cada um de vocês:

Um pouco mais de paciência

Um pouco mais de tolerância

Um pouco mais de fé

Um pouco mais de esperança

Um pouco mais de caridade

Um pouco mais de espiritualidade

Um pouco mais de oração

Um pouco mais de esforço

Um pouco mais de perdão

Um pouco mais de amor

Não é muita coisa. Só um pouco mais. Porque o pouco com Deus é muito!

Informar é cuidar

Uma das doenças que mais exige troca é a Doença de Alzheimer. Por isso escrevi o livro abaixo com o objetivo de melhor informar as pessoas a fim de que elas possam cuidar melhor de seus entes queridos, em todas as fases da vida,  como estou fazendo agora. Saiba mais.

Alzheimer: identificar, cuidar, estimular
Práticas e atividades para se aplicar no dia a dia

Formato: 14 x 21
Tamanho: 262 páginas
Papel/miolo: pólen 80gr
Preço: 39,90

AQUIRA O SEU: Loja do Portal Edições

 

Simone de Cássia Freitas Manzaro

Simone de Cássia Freitas Manzaro

Psicóloga, realiza atendimento psicológico de adultos e idosos. Voluntária na Associação Brasileira de Alzheimer-ABRAz. Experiência em estimulação cognitiva para pacientes com demências; atua com estimulação cognitiva preventiva e consultoria gerontológica, orientando familiares e cuidadores, criando estratégias e atividades para lidar com o paciente no dia a dia, supervisionando treinamento prático. E-mail: simonemanzaro@gmail.com

simonemanzaro escreveu 17 postsVeja todos os posts de simonemanzaro