Quando é que a gente fica velho

O que determina mesmo ser velho hoje é a data da certidão de nascimento e a data da aposentadoria, mas até o século XIX, não só a maioria das pessoas morria jovem, mas também morria rapidamente: haviam poucas doenças crônicas, incapacitantes. Agora, elas são muitas: câncer, diabetes, doenças neurológicas – incluindo a Doença de Alzheimer. Muitas vezes, pode se viver muito tempo com uma delas.

Wilma Josina Correia *

 

quando-e-que-a-gente-fica-velhoNo Dicionário a palavra “velho” significa: adj. Que tem idade avançada; idoso: homem velho. Que existe há muito tempo; antigo: uma velha rixa. Que é antigo numa profissão, função ou posição: um velho professor; um velho amigo. Que é desusado, ou gasto pelo uso: ideias velhas; sapatos velhos. S.m. Homem idoso. Aquilo que é velho: o velho opõe-se ao novo.

A Organização das Nações Unidas (ONU) define que velho é a pessoa a partir dos 60 anos de idade para os países em desenvolvimento e 65 anos para os países desenvolvidos, ao considerar que essas pessoas são idosas. O que determina mesmo ser velho hoje é a data da certidão de nascimento e a data da aposentadoria.

Tente responder: Velho para mim é … Velhice para mim é … Serei velho quando … Assumirei a velhice quando …

Até o século XIX, não só a maioria das pessoas morria jovem, mas também morria rapidamente: haviam poucas doenças crônicas, incapacitantes. Agora, elas são muitas: câncer, diabetes, doenças neurológicas – incluindo a Doença de Alzheimer. Muitas vezes, pode se viver muito tempo com uma delas. Além disso, algumas, relacionadas ao meio ambiente, às condições de trabalho e aos estilos de vida, aparecem tardiamente e só se manifestam após várias décadas. O número de pessoas de todas as idades que vivem com doenças crônicas e incapacitantes, em situação de invalidez e em perda de autonomia, aumentou e vai continuar a crescer nas próximas décadas.

A população de pessoas idosas está aumentando no mundo todo, as pessoas estão vivendo mais. No entanto, nem sempre estão vivendo melhor. Por isso, o aumento da expectativa de vida já começa a exigir de sociedades e governos novas ações para enfrentar os efeitos negativos do processo de envelhecimento, pois o envelhecer não é um problema, é uma conquista. Ficar mais velho é bom, ruim é morrer cedo.

Além disso, existem variações significativas entre os indivíduos: as pessoas não se tornam de repente velhas com a mesma idade, assim como não se tornam adultas. A velhice também varia segundo categorias sócio-profissionais.

Envelhecer é bom mesmo?

Para envelhecer bem as pessoas têm que investir no seu processo de envelhecimento que, aliás, começa desde muito cedo. A gente já nasce e ele começa. Então, para garantir que a gente possa chegar bem na terceira idade é todo um curso de vida.

A maioria das pessoas pensa em chegar ativo, festejando, celebrando com a família. E é exatamente o que todos querem. Envelhecer, chegar aos 85 e ir além, mas numa boa, participando da sociedade, não estando excluído. E para isso a saúde é importante, é um valor universal. Todo mundo quer envelhecer, envelhecer bem. E a saúde vem em primeiro lugar. Japonês ou brasileiro, todo mundo quer envelhecer, essa é a grande conquista.

Envelhecer já não é exceção, é norma. Para ricos e pobres, pois a maioria está envelhecendo, chegando aos 85 ou mais. Como nós chegamos hoje com a nossa esperança de vida no Brasil, praticamente em 74 anos. Há 100 anos, quando Bismarck (1815-1898) inventou o seguro social, envelhecer era raro, porque a esperança de vida era baixa.

Hoje existe uma discussão na sociedade em torno da imagem do velho. Há uma negação, não só da morte, como também da velhice. A nossa sociedade é toda voltada para um imediatismo, para um aproveitamento, digamos, das coisas, um usufruto imediato de tudo. Onde o jovem é o que predomina na mídia, a sociedade toda valoriza a juventude.

O que fazer, de fato, na sociedade, de modo a valorizar o idoso? Valorizar a pessoa velha com as suas limitações naturais. No Brasil, o debate é muito mais complexo.

Qual é a garantia das pessoas pobres – as crianças doentes de ontem, os adultos desempregados de hoje – chegarem bem na velhice se, em grande número, essas pessoas estão excluídas desde sempre? Não estão participando, têm (quando têm) um rendimento precário. Quando têm acesso aos serviços de saúde, são aqueles péssimos atendimentos que tanto criticamos. A problemática, evidentemente para a população nos países em desenvolvimento, é imensamente maior, mas a construção social do envelhecimento vai ter que mudar nos próximos 20 anos em função, exatamente, desse envelhecer que chega a todos nós.

Não há dúvida de que os determinantes mais importantes, em uma visão mais global, para um envelhecimento saudável, e para a saúde em geral, são os sociais. A gente sabe hoje que, por exemplo, as taxas de mortalidade nos países mais ricos – depois que ajustamos os dados para fumo, exercício físico, dieta, etc -, todos os fatores de risco para essas doenças crônicas, mesmo depois de ter ajustado os dados para tudo isso, continuamos com um excesso de mortalidade para as camadas mais pobres. São fatores de estresse, de exclusão, de não exercício de cidadania, que influenciam a nossa saúde. Até o nosso sistema imunológico.

Mesmo que se comportem super bem com aqueles estilos de vida todos que a gente sabe que são bons, os velhos pobres acabam ainda com uma mortalidade mais alta do que os nossos advogados, médicos, políticos e dirigentes. Então, tem um fator social que é muito importante.

O envelhecimento ativo, saudável, começa na infância. Porque é nela, é ao longo da infância, da adolescência, que se adquire hábitos. A alimentação que essa criança tem aos dois, aos cinco, aos oito anos, vai ser muito importante na determinação ou não de risco de doenças que vão acontecer muito mais tarde, até saudáveis são antes de nascer.

Não adianta saber que é bom comer brócolis se a gente não tem o dinheiro no bolso para comer o tal de brócolis. E é importante que as pessoas que possam realmente fazer atividade física encontrem no meio ambiente onde moram essa possibilidade, sem ser atropelado, nem respirar poluição e acabar sendo contra produtivo. É preciso muito esforço, certamente do governo, mas que passa por uma parceria entre cada indivíduo e sociedade.

No envelhecer a solidariedade é essencial. É a solidariedade entre o rico e o pobre, é a solidariedade entre o privado e o público, é a solidariedade entre o jovem e o idoso. E enquanto a gente não aceitar esse desafio e esperar que seja o governo que vai decidir, que vai determinar como nós iremos viver, não adianta. A gente têm que fazer esforço no final do dia para que o desafio do envelhecimento saudável seja realmente uma opção pessoal, alicerçada, bem sustentada por toda a iniciativa privada, pública, que facilite essas escolhas.

* Wilma Josina Correia – Graduada em Serviço Social, Unicid. Pós-Graduada em Administração de Recursos Humanos, FECAP. Curso de Extensão Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC. Email: wilma.correia@uol.com.br

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