Qual o lugar da velhice na moda?

Na moda, a velhice é “invisível”, inexistente. Para não “cair no ridículo”, os que envelhecem devem pautar-se pelo “bom senso”, princípio básico que deve orientar as escolhas e as opções de roupas e acessórios. Este livro foi escrito com base na minha trajetória pessoal, estreitamente ligada à moda.

Suely Tonarque (*)


Ao longo de muitos anos, atuando no mundo da moda, me dei conta – não sem espanto – da distância que separa, na atualidade, o envelhecimento e a velhice deste “mundo”. Indagava se os preconceitos, estigmas e a discriminação – tão presentes na sociedade atual, em vários âmbitos da vida daquele que envelhece – estariam ainda presentes entre nós. Perguntava como a relação moda/velhice é concebida pelos que respondem pela moda ou a criam. Foi a busca por respostas a estas indagações que me levou à publicação deste livro.

Observações assistemáticas me mostravam que temos, na moda, a reposição dos valores que ainda cultivamos sobre a velhice. Na moda, a velhice é “invisível”, inexistente. Na atualidade, jovens e adultos ocupam lugares centrais e privilegiados. Para não “cair no ridículo”, os que envelhecem devem pautar-se pelo “bom senso”, princípio básico que deve orientar as escolhas e as opções de roupas e acessórios. 

Apreendida a partir do perfil demográfico e socioeconômico de nossa população, a “ausência” da velhice na moda pareceria justificar-se por si mesma; afinal, o envelhecimento da população brasileira é um fenômeno razoavelmente recente, remontando às últimas três décadas do Século XX. Até então, a presença de crianças, jovens e adultosnapopulação brasileira era expressiva. 

Como consumidores reais e potenciais, o locus de jovens e adultos no “mundo da moda” sempre foi considerável. Quer como futuros profissionais ou já inseridos no mercado de trabalho, jovens e adultos sempre atraíram as atenções de estilistas e empresários. Estes, via de regra, contrariamente aos que recebem aposentadorias e/ou pensões, dispunham de valores compatíveis com os mais diferentes “estilos”. Não faltavam também – como ainda não faltam – estilos diversificados que contemplavam várias condições de classe social.

Quanto à velhice, as opções eram parcas, restritas a adaptações estreitamente relacionadas à discrição, sobriedade, aos cortes que “disfarçavam” as marcas do tempo no corpo e às cores que também contribuiriam para isso (a exemplo das cores escuras).

Algumas incursões em lojas de departamentos revelaram que, no que tange à moda e aos acessórios, havia “andares” ou “nichos” reservados às crianças, aos teens e a homens e mulheres (adultos). Nos nichos, tanto de acessórios como de vestuários destinados às mulheres e aos homens, a localização de itens focados nas preferências de pessoas mais velhas resultava quase sempre em fracasso. 

Em que pesem as considerações acima, a população idosa cresce no Brasil, em níveis que surpreendem até mesmo os demógrafos, superando as projeções mais otimistas.

Em 2018, de acordo com o IBGE,o número de idosos superou a casa dos 30 milhões, constituindo 14,6% da população total. Destes, a participação relativa das mulheres era significativamente maior, 8,2%, contra 6,4% de homens. Entre 2000 e 2018 houve um incremento de 18 milhões de pessoas com 60 anos ou mais na população total brasileira.

Paralelamente, começou a aumentar também o número (absoluto e relativo) dos que vivem muitos e muitos anos na condição de “idosos”. A distinção entre “idosos” e “mais idosos” já é corrente nos institutos de pesquisa e em diversas publicações.

A velhice – por tanto tempo “homogeneizada” – ganhou em diversidade, escapando de qualquer “pasteurização”. Disto resulta a dificuldade de nos referirmos, na atualidade, à “velhice” e a imperiosidade de reconhecer e contemplar, nos mais diversos âmbitos, as “muitas velhices” existentes. Os mais de 30 milhões de brasileiros idosos (em 2018) experimentavam as mais diversas condições econômicas, de saúde, de atividade laboral e de lazer, entre outros. Em linhas gerais, uma parcela deles vivia a perversa condição de “dependência” (física e/ou mental), enquanto outra parcela, numericamente expressiva, mantinha-se ativa, tanto em termos econômicos como sociais.

No Brasil, dessa velhice diversificada, uma pequena parcela vive uma situação privilegiada. Pertencentes às camadas sociais mais favorecidas, inserem-se no mercado de consumo – entre eles, o da moda – em condições especialmente favoráveis. No entanto, este fato pouco se reflete no mercado em geral e, especificamente, no da moda.

Cabe sublinhar que, na atualidade, a moda atrai um número considerável de pessoas. Assim, a procura por esta área é grande, refletindo-se, desde os anos 90, na criação de cursos dedicados a ela.

No caso das grifes, a exemplo de Maria Bonita, Huis Clo e Equilíbrio, contribuíram para deixar a mulher mais elegante. Apesar de todo o desenvolvimento da moda, tanto no que tange à abertura de cursos e, consequentemente, à formação de profissionais da área, como ao mercado (grifes) e ao envelhecimento da população brasileira, o fato é que ainda não há um espaço para a roupa de idosos no Brasil.

Enquanto as grifes nacionais – com 20, 30 e 40 anos de existência – podem ser consideradas “velhas”, algumas grifes europeias – a exemplo da Maison Chanel, existente desde 1916 – são muito mais “velhas”! Na Inglaterra, temos o exemplo da Burberry que, nascida em 1856, acumula mais de 150 anos de existência.

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É nesse contexto que se inserem as informações e reflexões aqui desenvolvidas, centradas na relação corpo/velhice/moda; relação que foi trabalhada a partir das questões: Qual o lugar da velhice na história da moda? A idade é considerada quando relacionada a vestimentas e acessórios? Os responsáveis pela moda – empresários, projetistas e/ou designers – concebem a relação moda/velhice? Na moda, há reconhecimento do idoso como sujeito e, portanto, ser de desejo?

Apesar da amplitude das indagações, estou certa de que o tema, aliado à minha trajetória pessoal, acrescentou maior motivação para a realização deste livro. Espero somar meu empenho ao de outros colegas que se orientam pelo princípio maior de conferir dignidade aos que envelhecem e vivem longos anos como “idosos”. Na moda, como em outros âmbitos da existência pessoal, entendo que a dignidade guarda uma relação direta com a reapropriação, pelo idoso, da condição de sujeito de desejos, escolhas e projetos de vida.

A novidade do tema implicou em desafios de diversas ordens. Desafios relacionados tanto à parca produção acadêmica como à dificuldade de localizar mulheres dispostas a se colocarem na posição de sujeitos desta publicação. Mas, resolvi aceitar as “provocações” deste tema tão crivado dos mais diversos estereótipos, movida pela certeza de que trazer à tona o que permanece no impensado pode contribuir para a redefinição do lugar e do papel do idoso na sociedade atual.

Este livro foi escrito com base na minha trajetória pessoal, estreitamente ligada à moda. Seguem-se capítulos dedicados à história da vestimenta, sua história no Brasil, à velhice, ao envelhecimento e à minha velhice.

(*) Suely Tonarque é psicóloga, mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP e sócia proprietária da Vila das Rosas, localizada na rua Mourato Coelho, 1473, em São Paulo. Em breve será anunciado o lançamento do livro.


Serviço
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