Projeto “Faça Memórias”: o poder da arte

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As atividades do projeto Faça Memórias são uma forma eficiente de intervenção terapêutica não medicamentosa, mesmo de forma virtual.

Lucas Lo Drumond e Vinícius Righi Afonso (*)


O Faça Memórias, programa de Cristiane Pomeranz, inspirou-se no Meet Me At MOMA do Museu de Nova York, e que é hoje, “referência para lidar com esquecimentos decorrentes dos efeitos do processo de envelhecimento, assim como os déficits causados por doenças que comprometem a memória”, como assinalam Pomeranz e Lucena (2021, pp. 214-215). Em 2021 desenvolvemos uma atividade acadêmica no Faça Memórias, como exercício de aprendizagem dentro do curso de Psicologia da PUC-SP, a fim de observar como a arte pode ser utilizada como terapia, buscando despertar interesse de idosos com Alzheimer por novas experiências. Trata-se de uma ponte para reconectar vivências pessoais por meio dos temas trabalhados em grupo.

Como descreve Duncan (2007), as artes,

como toda expressão não verbal, favorecem a exploração, expressão e comunicação de aspectos dos quais não somos conscientes. Neste sentido, o trabalho com as emoções através da arteterapia melhora a qualidade das relações humanas porque se centra no fator emocional, essencial em todo ser humano, nos ajudando a ser mais conscientes de aspectos obscuros, e facilitando deste modo o desenvolvimento da pessoa.

No período da pandemia o Faça Memórias, inicialmente presencial, funcionou por meio de reuniões online, mais especificamente pela plataforma Zoom, com encontros de cerca de 50 minutos. Esses encontros são como uma aula de história da arte.

A arteterapeuta Cristiane Pomeranz, com a ajuda de Dhara Côrte de Lucena, auxiliar no projeto, organiza a reunião em etapas: se inicia com uma conversa descontraída sobre os participantes, como estão e como passaram a última semana. Apesar de não ser algo relacionado ao conteúdo ou sobre arte, essa conversa é de grande importância já que, por se tratar de idosos com Alzheimer, é necessário despertar o interesse dos participantes; esta conversa inicial funciona como um aquecimento para o encontro.

São apresentadas, em seguida, assuntos relacionados ao tema central, por exemplo, na aula sobre o pintor Joan Miró, diversos aspectos culturais da Espanha como a dança flamenca ao som das castanholas, a culinária, as vestimentas, os festivais de tourada, etc. As pinturas projetadas em slides abarcaram diferentes momentos da vida do pintor, refletindo sentimentos do artista no momento e a diversidade de conteúdos que uma pessoa pode representar.

Por fim, a arteterapeuta propõe as atividades artísticas como desenho e pintura, sempre relacionadas com os conteúdos apresentados. Apesar de parecer uma aula sobre arte, cada uma das etapas tem função essencial para o engajamento com o tema desenvolvido e com o processo terapêutico que se promove.

O momento da produção artística se destaca por configurar uma atividade na qual os idosos podem se expressar criativamente e exporem individualidades, a partir dos temas propostos. O próprio ato de efetuar ou colorir um desenho, dá vazão a conteúdos muitas vezes tidos como impróprios para a idade.

Esse é o lado terapêutico da arte: criar um momento de fuga da rotina geriátrica para que exerçam o que gostam de fazer sem julgamentos ou preocupações com os cuidados medicamentosos.

Produções de Vivi nas reuniões do Faça Memórias expostas na parede de sua casa

O uso do termo “aula” para descrever a reunião é uma ferramenta que induz os idosos a valorização da atividade. Devido ao sistema econômico superprodutor, pessoas velhas, infelizmente, são vistas como ultrapassadas, sendo consideradas inaptas para realizar atividades de produção. A estigmatização da velhice faz com que as próprias pessoas que atingem a terceira idade passem a se enxergar como incapacitados, se auto restringindo a ambientes domésticos e hospitalares.

Sendo assim, a sensação de estarem participando de uma aula, ambiente de aprendizado mormente associado aos jovens, faz com que rotinas de cuidados fiquem temporariamente em segundo plano; novos interesses são estimulados, contrariando a noção calcada de que, na velhice, não se desfruta de experiências.

A partir da compreensão do intuito do projeto e seu funcionamento, compartilhamos a seguir nossa vivência. Tivemos a oportunidade de observar esta dinâmica em um grupo de três idosos: Vivi, Velma e Aroldo (nomes fictícios). Aroldo desfruta de uma particularidade em relação aos outros, o participante não tem Alzheimer, mas sofreu um acidente que resultou na amputação do braço direito, sendo destro. Ele foi encaminhado ao projeto para desenvolver habilidades motoras com o braço esquerdo, de forma que a amputação não trouxesse uma incapacidade de realização de atividades comuns e necessárias, como escrever.

Apesar de ter Aroldo como um conhecido de longa data, o tratamento era idêntico aos demais participantes, tratamento este fundamental para um melhor desenvolvimento da aula e das relações, que se dão de forma horizontal, respeitosa e afetuosa, deixando de lado a ideia de verticalidade do ensino, onde o professor é intocável (FREIRE, 2006).

Com o decorrer dos encontros, foi se tornando cada vez mais perceptível a relação afetuosa entre a coordenadora e os participantes, valiosa para os idosos e benéfica para o andamento das aulas. Ilustramos o ambiente acolhedor no dia em que Velma participou de dentro de um carro porque estava a caminho para receber a terceira dose da vacina contra o coronavírus. Quando chegou sua vez, houve comemoração e alegria na chamada, como se todos fossem amigos de longa data e estivessem presencialmente na fila da vacina.

Outro fator que nos chamou atenção foram questões provenientes da relação entre idosos e cuidadores; às vezes eram facilitadores e em outras, tolhiam a espontaneidade.

O atravessamento da pandemia de COVID-19 foi um fator reestruturante para o funcionamento do Faça Memórias, antes os encontros ocorriam no Museu Brasileiro de Escultura e Ecologia (MuBE), no qual havia uma sala-atelier designada para as atividades do projeto, enquanto os acompanhantes esperavam em uma sala, impossibilitando interferências. A passagem de presencial em virtual trouxe complicações advindas da dificuldade por parte dos velhos em manusear a tecnologia, necessária para conseguirem se reunir e da ausência de um ambiente estipulado para a realização das atividades.

Os cuidadores entram na equação como facilitadores destes processos, sanando as dificuldades de ingressar na reunião do zoom e disponibilizando os materiais necessários para a realização das atividades.  Em contraponto, ao estarem presentes durante todo o andamento da aula, acabam escutando as instruções dadas por Cristiane e atribuindo noções de certo e errado ao que se deve fazer. Isso transparece por comentários como: – Aqui já está bom, você tá pintando errado, isso não é uma cor para pele, não é pra fazer isso, além de às vezes responderem as perguntas direcionadas aos idosos. Estas atitudes, por mais que bem-intencionadas, acabam produzindo demandas e direcionamentos em um momento pensado para a livre expressão, sendo perceptível, em ocasiões, como isso gera uma perda de sentido na atividade, furtando-lhe o aspecto terapêutico.

Pode-se concluir que mesmo com os empecilhos da adaptação a um modo de funcionamento virtual, – alternativa a um contexto de pandemia -, as atividades do projeto Faça Memórias ainda são uma forma eficiente de intervenção terapêutica não medicamentosa. Como o Alzheimer é uma doença crônica, seu tratamento é focado no bem-estar do paciente, algo que é tratado como prioridade nos encontros e, surpreendentemente, os exercícios aplicados em aula, que a princípio nada têm em relação ao tratamento, se mostram eficazes.

Isso se evidenciou em todas as vezes que Vivi mostrava-se enfezada por ter sido acordada e no decorrer das aulas seu semblante, aos poucos, adotava traços de satisfação e foco, ou até mesmo quando no meio da atividade, quando sua atenção estava totalmente direcionada ao desenho. Lembrou-se do nome do artista quando perguntada pela terapeuta: – É Miró! e isso arrancou lágrimas emocionadas de sua filha: – Fico muito feliz quando isso acontece…

Como disse a própria Cristiane: Esse é o poder da arte!

Referências
Projeto Faça Memórias. Disponível em: <https://www.facamemoriasemcasa.com.br>.

AIDAR, L. Joan Miró: vida e obra do artista espanhol. Disponível em: <https://www.todamateria.com.br/joan-miro/>

Arteterapia: definição e benefícios. Disponível em: <http://www.santacasamaringa.com.br/noticia/334/arteterapia-definicao-e-beneficios>

DUNCAN, N. Trabajar con las emociones en arteterapia. Arteterapia. Papeles de arteterapia y educación artística para la inclusión social, 2 (2007) 39-49, 2007.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à pratica educativa. 34a edição. São Paulo: Paz e Terra, 2006.

GERO360, Equipe. Quais fatores garantem o bem estar do idoso? Disponível em: <https://gero360.com/bem-estar-do-idoso/>

POMERANZ, Cristiane e LUCENA, Dhara Côrte. Arteterapia em grupos a favor das velhices: uma potente ferramenta no enfrentamento à pandemia. In: LOPES, Ruth G. C. e CÔRTE, Beltrina (Orgs.) Longeviver e Grupos – Subsídios para profissionais , educadores e pesquisadores. São Paulo, Portal Edições, 2021.

ROSS, N. Miró: Uma Introdução à Vida e Obra de Juan Miró. Editora ‏Callis; 1ª edição, Portugal, 1998.

(*) Lucas Lo Drumond e Vinícius Righi Afonso – Graduandos em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Atividade realizada para a disciplina Estágio Básico II, Curso de Psicologia-PUCSP, 6º período, 2º semestre 2021, sob responsabilidade da Profa. Ruth G. da C. Lopes. E-mail: [email protected]   

Foto destaque de Greta Hoffman/Pexels


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Redação Portal do Envelhecimento

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