Proibido o Carnaval

E como cantam Daniela e Caetano, o que cabe a nós é vestir a fantasia e provocar a rebeldia e o direito de ser quem se é, afinal, é Proibido o Carnaval.

 

Depois de um mês com calor exaustivo, uma bem-vinda frente fria nos presenteou com um refrescante dia chuvoso.

Estava em casa e havia programado adiantar algumas escritas, mas a desordem do meu armário parecia querer me dizer algo e, eu, que nunca fui uma pessoa organizada, quando a bagunça começa a incomodar é porque cheguei ao máximo da baderna. Nossos armários deveriam servir de depósito apenas para as peças que fazem jus ao que realmente somos. Nossa verdade existencial, no meu caso, é vestida de roupas de algodão, confortáveis e de preferência largas. Sapatos, não suporto aqueles metidos a bestas e na última arrumação coloquei fora as botas de cano longo que, apesar da elegância, insistem em comprovar o desconforto do caminhar pela própria vida. E se no meio do caminho tinha uma pedra, as tais botas comprovam todas as dores do viver. Sem condições!

Meu armário é até que bem coerente com o que sou já que a informalidade dita as regras e confesso que tenho certo preconceito com pessoas engomadas demais. Sempre acho que estão escondendo algo delas mesmas.

Mas o mundo é feito de armários e armários. Alguns não guardam roupas e pertences. Escondem existências e camuflam identidades, algo inaceitável para uma vida pautada na verdade nua e crua.

Mas neste dia, 06 de fevereiro, a cantora Daniela Mercury e Caetano Veloso lançaram o Videoclipe da música Proibido o Carnaval e, eu, fã do Caetano e dos belos velhos que sou, mal conseguia esperar o momento de ver meu artista favorito atuando ao lado desta cantora que também muito admiro.

O encontro anunciado tinha o objetivo de representar a libertação de todos os preconceitos, afinal vivemos em uma época cuja liberdade conquistada parece sofrer um retrocesso assustador. No clipe, Daniela com 53 anos, esbanja sensualidade e alegria parecendo viver num mar de estrógenos e endorfinas. Que maravilha! Já Caetano, aos 76 anos, intensamente vividos, enaltece a velhice como potência de vida.

Ao vê-los cantar que minha alma não tem tampinha, minha alma não tem roupinha, minha alma não tem caixinha, minha alma só tem asinha, entendemos o quanto é cruel a tentativa que fazem alguns governantes em simplificar as inúmeras maneiras de existência no simplório “menino veste azul e menina veste rosa”.

E como cantam Daniela e Caetano, o que cabe a nós é vestir a fantasia e provocar a rebeldia e o direito de ser quem se é.

Meu pensamento flui e enquanto colocava meu armário abaixo, pensava nos inúmeros velhos que não conseguem sequer rebelar o direito de envelhecer nesta sociedade que cultua corpos jovens, sarados e a beleza da juventude, que deve manter-se eterna. Velhos trancados em armários que, diferente do meu, não acolhem só pertences de uma identidade coerente, guardam vergonhas e rejeitos que os vestem com a incoerência de ser quem não se é. O antienvelhecimento em potes de cremes, o Botox e os tão caros tratamentos estéticos, as tinturas para esconder os fios grisalhos, entre tantos outros são essenciais para muitos eternos jovens que trancam suas velhices no fundo do armário.

Os mais ousados contestam e arrebentam toda e qualquer amarra construída pelas condutas a favor da beleza juvenil, dos bons costumes e da falsa moralidade.

Abra a porta desse armário
Que não tem censura pra me segurar
Abra a porta desse armário
Que alegria cura, venha me beijar

Velho tem que ser velho e ousar sê-lo. Caetano não seria o velho que é se pintasse os cabelos e repuxasse a pele que o tempo, implacável, torna enrugada. E linda! Daniela não seria o mulherão que é se ficasse se comportando e fazendo tipo de garotinha de 20 anos.

Armários deveriam apenas existir para guardar roupas e jamais para esconder existências.

Seu Sílvio tem um armário gigante. Passou sua vida toda escondendo seus desejos reais. Casou-se para que a sociedade o visse como hetero. Sua esposa passou a vida se empenhando em manter o tal armário em ordem para não pensar na real possibilidade daqueles ternos e gravatas permanecerem sufocando seu marido. Mentiras sinceras me interessam, como já dizia o tal poeta que nunca se trancou em armário algum.

Homens e mulheres são asfixiados para não serem condenados.  A sociedade é cruel e a crueldade parece se fortalecer nos tempos atuais.

Alguns, fortes e leais consigo, romperam portas e padrões para exercer o direito da liberdade existencial.

Velhos LGBTs que lutaram por toda uma vida para serem quem são, durante a velhice, é comum vê-los de volta para seus armários para serem um pouco menos rejeitados, já que é de praxe, algumas ILPIs e outras instituições negarem o acolhimento aos velhos gays, afinal ser velho já é por demais. Ainda gay? Oras, oras.

O clipe, dedicado por Daniela ao “amigo amado e incansável guerreiro Jean Wyllys” foi feito por Daniela, Jana Leite e Malu Verçosa Mercury. Com a música composta pela própria Daniela Mercury é um hino carnavalesco a favor da liberdade artística e existencial.

Um grito para favorecer a pluralidade humana assim como a diversidade das velhices.

Que o armário seja bagunçado como o meu, mas que nossa essência jamais seja trancafiada. Sejamos coerentes! Sejamos velhos! Sejamos quem quisermos ser!

Daniela e Caetano encantam nas banheiras de bexigas rosas e azuis. Rolam seus corpos em tules coloridos e cantam a liberdade.

Vai de rosa? Ou vai de azul? Não tentem proibir o que não pode ser proibido!

Libera a libido!
Axé, axé, axé, axé, axé (proibido? Tá proibido proibir)
Axé (axé), axé (axé), axé, axé, axé, axé!
Ficou safada!
 

Cristiane T. Pomeranz

Cristiane T. Pomeranz

Arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte, e mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. Idealizadora do Faça Memórias em Casa que propõe o contato com a História da Arte para tornar digna as velhices com problemas de esquecimento. www.facamemoriasemcasa.com.br E-mail: crispomeranz@gmail.com.

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