Prejuízos da bengala…errada

A bengala pode ser uma excelente aliada na prevenção de quedas mas deve ser orientada de forma correta e, algumas vezes, requer treinamento. Quando o assunto é queda, prevenir continua a ser o melhor remédio.

 

Você deve conhecer pessoas que após adquirirem uma bengala deixaram de cair, mas também pode conhecer alguém que não se adaptou, ou pior, começou a utilizar e caiu, ou ainda, “melhorou o equilíbrio” porém, surgiram dores no corpo que antes não existiam, mas é coisa da idade certo?

Errado.

Quando uma pessoa começa a se sentir insegura para caminhar pelas ruas ou até mesmo dentro de casa, frequentemente, a primeira iniciativa de algum familiar é adquirir uma bengala na farmácia ou, pegar emprestada com alguém que tem em casa uma bengala sem uso.

Alguns meses atrás, recebi em consulta de Fisioterapia, um idoso com dores em coluna e ombro, acompanhado pela sua filha que o recomendou uma bengala. A filha atenciosa fez a indicação para que o pai andasse com maior segurança já que ele havia caído 3 vezes nos últimos 6 meses. Tudo parece correto até aqui, afinal, “idoso cai mesmo, e cair três vezes em seis meses até que não é muito”, e o idoso “não se machucou”. Além disso, a bengala é vendida em farmácias, vários modelos, e depois que o idoso começou a utilizar o dispositivo, nunca mais sofreu queda. O importante agora é tratar a dor no ombro e na coluna. Certo?

Errado. Muito errado. E este assunto requer a nossa atenção.

A bengala é um dispositivo que auxilia na deambulação e deve ser prescrito de forma correta e por profissional capacitado, caso contrário, poderá acarretar tantos prejuízos que idoso e familiares nem imaginam. Infelizmente a situação acima é muito frequente (muito mesmo!) e a desinformação agrava a situação, mesmo sendo com a “melhor das intenções”, quando ganhamos uma bengala de presente.

Para começo de conversa, o dispositivo, aparentemente seguro e inofensivo, deve ser utilizado do lado correto (idoso vai utilizar na mão direita ou esquerda? Tanto faz? A mão que tiver mais força?). Não deve ser considerado apenas o lado dominante do idoso. O profissional prescritor fará uma avaliação completa: rastreio das quedas, equilíbrio, presença de problemas osteomioarticulares, alterações cognitivas que possam influenciar na mobilidade, histórico de saúde (antecedentes), força muscular, caminhada, posturas de riscos e outras variáveis que julgar necessário, respeitando sempre a individualidade de cada caso. A bengala precisa ser utilizada do lado correto, na altura correta, e da forma correta, caso contrário, pode sobrecarregar outras articulações, como ombros e punhos e provocar uma queda.

Muitos pacientes que fazem uso de bengala teriam indicação de utilizar algum outro tipo de dispositivo se tivessem passado por avaliação. Outro ponto que vale a pena ressaltar sempre é que “Cair não é normal”, “cair não é coisa da idade”. Toda queda deve ser considerada importante e analisada. Cair mais de duas vezes em um ano requer rastreamento de quedas. Qualquer queda, seja ela considerada “boba e sem consequências” deve ser investigada por um profissional da saúde, pois cair aumenta a chance do indivíduo sofrer novas quedas e o problema entra em um ciclo vicioso.

A queda, entre os diagnósticos de admissão em hospitais, é um dos motivos que mantêm por mais tempo o idoso internado e muitas vezes pode levar a morte. Portanto, vamos olhar para esta questão de forma cuidadosa e orientar nossos familiares e conhecidos que, ao perceberem os riscos de quedas, alterações no caminhar, insegurança e instabilidades, procurem o quanto antes um profissional de saúde que possa ajudar na prevenção deste evento desastroso. A bengala pode ser uma excelente aliada na prevenção de quedas mas deve ser orientada de forma correta e, algumas vezes, requer treinamento. Quando o assunto é queda, prevenir continua a ser o melhor remédio.

Fotos: Divulgação 

Gabriela C. de A. Goldstein

Gabriela C. de A. Goldstein

Fisioterapeuta da Unidade de Referência em Saúde do Idoso PMSP - OS ACSC. Mestre em Ciências pela USP, especialista em Fisiologia e Biomecânica do Aparelho Locomotor pelo IOT- FMUSP e especialista em Gerontologia Social pela PUC-SP.

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