Por que a doença do esquecimento nos idosos tem o nome de Alzheimer?

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Senhor Karl Deter não entendia porque sua esposa se comportava daquela maneira. Já era a segunda vez, naquela semana, que gritara com ele, acusando-o de flertar com a vizinha. Claro que não era verdade.

Márcio Borges(*)


  • Como se não bastasse, vive no mundo da lua, e até meus ternos estão mal cuidados. – queixava ao colega de trabalho, na estação ferroviária da cidade de Frankfurt, na Alemanha.
  • Calma, Sr. Deter, sua esposa, como o senhor, já está na casa dos cinquenta anos, o que convenhamos, é uma idade bastante avançada e os nervos ficam mais à flor da pele – retrucou o colega.

Realmente, ter cinquenta anos, mesmo numa grande cidade como Frankfurt, nos idos de 1900, era uma idade acima da média. Com frequência, a grande maioria da população falecia antes de completar meio século. Porém, o esposo da Sra. Auguste estava começando a desconfiar de que não fosse só caduquice da idade. A “velha” parecia estar ficando com a memória fraca, perdendo tudo pela casa e com mania de perseguição e ciúmes com todas as mulheres da Alemanha. Nem cuidar da casa, que tanto gostava, queria mais. Além de tudo isso, vivia fazendo planos para visitar a mãe, no natal. A sogra morreu há mais de dez anos.

Foi justamente no final do ano de 1901, perto das festividades natalinas, que Sra. Auguste piorou de vez. Chorando muito, em gritos pavorosos, dizia que Sr. Deter tinha escondido suas joias, que herdara da avó. Poucos minutos depois, acusava-o de querer matá-la. Se não era ele, era o homem que pulava todas as noites no telhado da casa. Basta. O marido já não podia mais suportar aquela situação e a levou ao hospital psiquiátrico.

O médico de plantão ficou aborrecido ao saber da chegada de mais um paciente. Já estava terminando o horário do jantar e mal conseguira almoçar naquele dia. Parecia ser mais um quadro de surto psicótico ou de histeria. Ouviu a história contada pelo marido, rabiscou algumas anotações na papeleta de internamento e encaminhou-a para a enfermaria de Dr. Alois Alzheimer. Não entendendo o rumo que tomou a situação, a Sra. Auguste estava acuada e passiva.

  • Poderia me dizer seu nome? – Num tom amigável, Dr. Alois iniciava sua entrevista com a nova paciente, na manhã seguinte.
  • Auguste.
  • Auguste de quê? – perguntou novamente.
  • Auguste… Auguste…

Após várias perguntas sem respostas e algumas até corretamente respondidas, acrescido de exame clínico e neurológico, o médico percebeu a evidente perda da memória para fatos recentes, uma desorientação com datas e lugares e, como foi o motivo inicial, a instabilidade emocional crescente.

Dr. Alzheimer repetiu por várias semanas uma série de perguntas, como se fizesse um inventário psíquico da evolução clínica da Sra. Auguste. Pedia para fazer cálculos simples, escrever nomes e palavras, identificar pessoas e objetos e os resultados eram cada vez piores. Também piorava, a cada semana, seu comportamento.

  • Esta mulher não pode ficar mais na enfermaria geral, Dr. Alzheimer. Queixava-se a enfermeira do setor. – Imagine o senhor que ela deu um tapa na cara de outra paciente!
  • Estranho como o comportamento da Sra. Auguste vem piorando. Pode deixá-la num quarto separado e cuidado redobrado para que ela não faça nenhuma besteira maior. – orientou.

Em 1903, Dr. Alois Alzheimer recebeu, e aceitou, convite para trabalhar em Munique, na Real Clínica Psquiátrica, com o maior expoente da época na psiquiatria, Dr. Emil Kraepelin. Mesmo assim, continuou acompanhando o caso da Sra. Deter, revisando seu quadro clínico, anotando seus sintomas de agressividade e confusão mental e, principalmente, a incapacidade crescente para fazer as atividades mais banais. Sua memória recente e mesmo a mais longínqua, já não pertenciam mais a ela. Dr. Alzheimer tinha certeza de que estava diante de uma nova doença, nunca antes descrita ou diagnosticada.

Havia duas anotações na papeleta da Sra. Auguste que ilustrava bem a piora do quadro clínico. Uma de novembro de 1904, onde já não gritava mais como antes, repetia sem parar frases desconexas, com a camisola sempre molhada de urina e ficando cada vez mais deitada. Já no final de novembro de 1905, a apatia reinava, só balbuciava alguns sons, estava restrita ao leito e apresentava febre, devido aos grandes ferimentos, as escaras, na região das coxas e da nádega. O fim prenunciava-se.

Depois de quase cinco anos internada na clínica de Frankfurt, Sra Auguste Deter faleceu na manhã de domingo de oito de abril de 1906. No atestado de óbito estava registrado: infecção generalizada causada pelas escaras.

“Prezado Dr. Alois Alzheimer,

Esperamos que esta correspondência o encontre em boa saúde. Achamos ser de grande importância a notícia do falecimento de Auguste Deter, sua ex-paciente que vem sendo acompanhada desde 1901, em nosso hospital. Após a necropsia, guardamos seu cérebro para posterior estudo, conforme a vontade do doutor. Nossas considerações de estima e apreço,

Dr. Emil Sioli – Frankfurt”

Logo, o nosso cientista se entregou ao microscópio, vasculhando o cérebro da falecida senhora. A cada nova lâmina estudada, Dr. Alzheimer pressentia que, realmente, estava diante de uma doença nunca antes descrita. As presenças de placas senis e de novelos neurofibrilares, juntamente com a acentuada atrofia cerebral e a evolução clínica desta paciente, não constavam de nenhum livro de medicina ou anais de congressos. Assim, no dia 03 de novembro de 1906, foi apresentado numa reunião científica, na cidade de Tubingen, o caso da Sra. Auguste Deter, com sua história e seus exames de patologia. O título do trabalho foi claro: “Uma doença peculiar dos neurônios do córtex cerebral”.

Dr. Alois Alzheimer acompanhou mais alguns pacientes com problemas parecidos e confirmou os dados clínicos e patológicos já descritos. Em 1910, em seu tratado de psiquiatria, Dr. Emil Kraepelin deu o nome de doença de Alzheimer a esta enfermidade, homenagem mais que justa a um pesquisador incansável, minucioso e intuitivo. Porém, nem Dr. Kraepelin, nem Dr. Alzheimer poderiam imaginar que, cem anos depois, esta doença se tornaria um sério problema de saúde pública mundial e tema constante de preocupações de familiares, cuidadores e profissionais de saúde.

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