Por onde anda a intergeracionalidade?

Sabendo da importância da intergeracionalidade, vivemos em um país no qual a legislação que ampara a população com 60 anos ou mais, prevê conteúdos voltados ao processo de envelhecimento, de forma a eliminar o preconceito.

 

Nasci e cresci numa época em que não existiam celulares, tablets, notebooks e muito menos a internet. Na minha casa havia um aparelho de televisão que ficava na sala, do qual eu era o controle remoto e também a guia a direcionar aquele que subia no telhado para arrumar a antena que ficava conectada a ele, gritando coisas como “sim, tá bom”, “não, piorou”, ou coisas do tipo, para melhorar a imagem refletida na tela, que de digital só havia os dedos daqueles que acertavam as posições das antenas.

Havia também a presença de um avô e de uma avó que integravam este cenário. Morávamos juntos, dividíamos nossas existências e nossas experiências.

Na nossa convivência, meu avô era a pessoa com quem eu brincava de pega-pega, de pular corda, ele era meu aluno junto com as bonecas quando eu montava lá a “minha escolinha” e ensinava tabuada ou treinava os verbos. Era ele quem me levava para passear em caminhos tão nossos. A pessoa que me ensinou a rezar e a jogar baralho. Com um coração enorme, recebia a todos sem diferença, adorava contar suas histórias e ensinar sobre a vida com seus exemplos.

Minha avó era a mais brava da casa. Autoritária, tinha um gênio forte demais. Fazia comidas incríveis, dentre elas o macarrão e a batata frita mais gostosos que comi na vida. Era ela quem me levava e me buscava na escola, era com ela que eu dividia as peripécias que minha mãe não podia saber. Sempre me acolhia com o bife mais cheiroso do mundo quando o joelho chegava ralado de uma brincadeira de rua ou de uma queda de bicicleta. A pessoa que sentava e explicava o porquê de não se poder fazer isso ou aquilo, deixando claro desde sempre que tudo na vida tinha consequências.

Esta experiência me possibilitou entender de perto, desde menina, que o envelhecimento traz consigo especificidades, que é preciso respeitar todos os seres humanos e valorizar os anos e as experiências por eles trazidos, que não há razão para qualquer preconceito e que o tempo sempre passa, para todo mundo.

Este tempo que passa, trouxe com ele a tecnologia, e claro, o envelhecimento de todas as pessoas.

Meus avós se foram e nem viram boa parte dos avanços tecnológicos, haja vista que partiram há muitos anos, mas deixaram todas estas histórias que compartilhamos em família até hoje.

Só que a vida não parou. Crianças continuaram nascendo, pais e avós envelhecendo, e uma dúvida surgiu em meio a tantas modernidades tecnológicas: por onde anda a intergeracionalidade?

Visivelmente há uma lacuna entre a população mais velha e a população mais jovem, observada por todos, sem grandes dificuldades, independentemente da condição econômica, social ou cultural que se ocupe.

Ao contrário da minha história, pela qual sou muito grata, hoje, avós e netos vivem distantes, como se fossem partes de mundos diferentes, dando a impressão tantas vezes que o lado tecnológico dos mais jovens não tem espaço para o lado humano dos mais velhos. Mas não seria esta uma afirmativa simplista a delegar a um ou a outro a responsabilidade pelo que se vive?

A tecnologia que muitas vezes não é acompanhada pelos mais velhos, é vital aos mais jovens. Ela tomou o lugar dos exemplos contados em longas histórias, das conversas, das brincadeiras, dos momentos em família, tão importantes para todo e qualquer pessoa, independentemente da idade que se tenha. Raras são as situações em que essa realidade não se faz presente.

Sabendo da importância da intergeracionalidade, vivemos em um país no qual a legislação que ampara a população com sessenta anos ou mais, o Estatuto do Idoso, prevê em seu artigo 22 que, nos currículos mínimos dos diversos níveis de ensino formal serão inseridos conteúdos voltados ao processo de envelhecimento, ao respeito e à valorização do idoso, de forma a eliminar o preconceito e a produzir conhecimentos sobre a matéria.

A legislação que ampara a inserção sobre conteúdos do envelhecimento junto aos mais jovens, em seus níveis escolares mais básicos, tem uma ausência de políticas públicas que efetive esta previsão, ainda que o Estatuto do Idoso debute em 1º de outubro de 2018 e complete 15 (quinze) anos.

São escassos os centros educacionais infantojunvenis a promover esta proximidade entre gerações, valendo frisar que nenhuma penalização há àqueles que não estão preocupados, enquanto educadores, a efetivá-la.

Por esta razão, se faz necessária uma reflexão coletiva sobre a forma como podemos efetivar em nossos dias a intergeracionalidade, independentemente de previsão legislativa que assim nos determine, considerando a relevância do tema para todas as idades e para todas as pessoas.

Estou longe de atribuir à tecnologia a triste realidade de uma lacuna existente entre pessoas da mesma família, mas em idades tão distantes. Sem a tecnologia não teríamos avançado em tantas coisas e não haveria melhorado tanto nossa qualidade de vida.

Não estou dizendo que seja necessário o crescimento de uma criança em uma família que pede a opinião dela para acertar as imagens da TV, enquanto alguém sobe no telhado para acertá-las, já que hoje a maioria dos aparelhos de televisão refletem belíssimas imagens recebidas por sinais digitais e que há grande número de pessoas a morar em apartamentos.

Também não estou pensando que todos os avôs ou avós precisem saber cozinhar, rezar ou brincar de pega-pega. Cada um tem uma história, cada um tem uma individualidade a ser respeitada. Apenas pontuei a minha, a título de exemplo e como uma homenagem aos meus amados avós que se foram e me deixaram estas ternas e inesquecíveis lembranças, dentre tantas outras.

Fica complicado também dizer que tudo que se vive hoje é culpa só do jovem ou só culpa do velho, já que a vida me ensinou que ninguém erra sozinho. Se quisermos mudar uma realidade que nos incomoda, cada um de nós, independentemente da idade que se tenha, terá de fazer sua parte, pois ainda que indiretamente, todos contribuem para o que se vive.

Ademais, esperar uma política pública que delegue às escolas de formação base um ensinamento sobre o que devemos trazer de casa, só vem de encontro à uma constante que já vivenciamos.

Fato é que os mais velhos precisam estar dispostos a ensinar e os mais jovens a aprender, e vice-versa.

As velhas brincadeiras, os velhos hábitos, as histórias de vida, as experiências passadas, tudo sem o uso de celulares, tablets, notebooks ou da internet quando eles puderem ser dispensados, precisam ser repassados aos mais novos, que, por sua vez, precisam fazer uso de todas as parafernalhas tecnológicas de que dispõem para também ensinarem aos mais velhos sobre o quanto elas podem facilitar a vida, até mesmo, se for o caso, em tudo que os mais vividos os ensinam.

Esta facilitação de vidas pode possibilitar que pessoas da mesma família, ainda que em idades absolutamente díspares, compartilhem seus aprendizados de forma recíproca, desmistificando a velhice, quebrando preconceitos, melhorando a qualidade de vida de todos e dando lugar a um respeito mútuo.

Para tudo isso, inevitavelmente é necessária a construção de uma via de mão dupla: estar disposto a aprender e a ensinar, independentemente da idade que se tenha.

Caminhamos para este ideal, ainda que vagarosamente, soando a alguns como uma utopia o que se propõe, mas inquestionavelmente, a todos que se identificam como seres que vivem e que envelhecem, como uma necessidade, ainda que de outros modos.

Hoje algumas poucas escolas, em alguns grandes centros, promovem visitas às Instituições de Longa Permanência para Idosos e aos Centros-Dia, na tentativa de concretizar aquilo que a lei já prevê, aproximando os jovens dos mais velhos, pois também não podemos desconsiderar que alguns jovens não têm esta proximidade intergeracional porque não possuem pessoas mais velhas próximas.

Com a mesma intenção, ainda que a passos lentos, há uma preocupação social em formar jovens profissionais de forma a habilitá-los para lidar e educar sobre a velhice e o envelhecimento.

Há também, ainda que em baixos índices, um aproveitamento dos idosos pelo mercado de trabalho, com as portas de grandes multinacionais se abrindo para as atividades dos que possuem farta experiência e que ainda assim, continuam dispostos a aprender, sem deixar de repassar tudo que sabem.

Neste caminho seguimos, construindo e buscando pela intergeracionalidade, tantas vezes esquecida, mas com uma importância única, cada um com sua história e com sua realidade, mas com o pensamento comum de que se procuramos formas de encontrá-la ou de construí-la é porque envelhecendo estamos todos, ainda que em idades cronológicas diferentes.

 

 

Natalia Carolina Verdi

Natalia Carolina Verdi

Advogada, bacharel em direito pela Universidade São Judas Tadeus, cursou Especialização em Direito Médico, Odontológico e Hospitalar pela Escola Paulista de Direito, Especialização em Direito da Medicina na Universidade de Coimbra, e cursa Mestrado em Gerontologia Social pela PUC-SP. É professora convidada de cursos de pós-graduação e palestrante nas áreas do Direito e da Gerontologia. OAB/SP 237.141. E-mail: nvadvogada@gmail.com

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