Podcast ilustrado do filme “Viva! A vida é uma festa!”

Tempo de Leitura: 6 minutos

O filme Viva! A vida é uma festa é produto de uma cultura e obra artística, além de promotor de discussões intergeracionais que reverberam nos telespectadores de diferentes fases da vida. 

Ana Laura Lozato, Chiara Tedeschi, Julia Kim, Marcella Munhoz e Paula Vianna (*)


A elaboração deste texto e do podcast ilustrado que apresentamos abaixo seguiu alguns conceitos trabalhados nas aulas da eletiva Relações Intergeracionais mediadas pela Tecnologia, do curso de Psicologia da PUC-SP, ministradas na modalidade remota por causa da pandemia, no segundo semestre de 2020. Visando relacioná-lo com contextos do cotidiano, optamos por articular o filme “Viva! A vida é uma festa!” com a ampla temática da intergeracionalidade. 

O “podcast ilustrado” é resultado de um bate papo entre as integrantes deste artigo, discorrendo sobre cenas do filme, visando intercalar nossas acepções com as de uma senhora (70 anos, outra geração) entrevistada por nós, com o objetivo de ampliar o olhar a respeito da obra cinematográfica. A entrevista ocorreu de forma online, após ela ter visto o filme, e a conversa se deu em torno do que foi marcante para ela. 

Assim, analisamos o filme, seus elementos e suas relações, e, para deixarmos a discussão mais palpável, mantivemos o aspecto visual, apresentando as cenas concomitantemente às falas do podcast. Além disso, inserimos uma explicação de uma estudante de cinema, exaltando como as cores do filme são exploradas, garantindo, assim, uma compreensão técnica e completa do filme de animação, dirigido por Lee Unkrich (Toy Story 3, Procurando Nemo). 

Partimos do conceito de geração explicado no texto “O conceito de geração nas teorias sobre juventude”, isto é, contemplamos as várias concepções que separam as gerações: podem ser grupos de pessoas que viveram na mesma época e vivenciaram os mesmos momentos históricos, podem ser determinadas pelas relações familiares, podem ser delimitadas como medida de tempo ou ainda considerando as mudanças sociais vividas que compõem a identidade do grupo. Desse modo, estabeleceu-se que geração é um conceito construído socialmente, e, no filme, as gerações são separadas majoritariamente de acordo com o papel de cada membro na família – aparecem as diferentes posições de cada membro no núcleo familiar, como a avó, a bisavó e o neto. 

Ademais, relacionamos o caráter cultural como mediador do diálogo intergeracional proposto em diversos textos lidos na eletiva Relações Intergeracionais mediadas pela Tecnologia; os estudos de caso no SESC, as oficinas, a educação intergeracional; para, então, concluir que o filme não apenas é produto de uma cultura e obra artística, mas é um possível promotor de discussões intergeracionais que reverberam por conta de uma pluralidade de perspectivas dos telespectadores em diferentes fases da vida. 

A respeito do podcast em si, iniciamos as falas destacando a importância da relação familiar como primeiro espaço de intergeracionalidade, ou seja, relacionamos este tópico com o modo como esse conceito se mostra presente no filme. A convivência do Miguel com sua bisavó Inês e os fantasmas dos demais familiares é marcante e bem desenvolvida, sem ser totalmente utópica – tendo em vista que mostra os conflitos vivenciados nessa convivência.

Além disso, essa relação do personagem principal com sua bisavó é significativa, uma vez que propicia um momento de trocas entre o jovem e o velho, para, assim, repensarem e revisitarem a juventude, seus conceitos e estilos de vida. Esse encontro possibilitou a quebra de paradigmas na família de Miguel e a possibilidade de novos comportamentos sociais, que beneficiaram a família toda (a música fez mama Inês recuperar algumas memórias e mudou a perspectiva e a rigidez que a avó de Miguel tinha perante a música). 

Ainda trabalhando o contexto familiar, vemos que, na narrativa do filme, a família principal tem como ofício a produção de sapatos, e a matriarca se responsabiliza por passar e dividir o trabalho entre todos os membros, adequando as idades. Esse aspecto foi destacado por nós na construção do Podcast tendo em vista que foi trabalhado e discutido em aula o modo como os mais velhos ensinam os mais novos em um processo de aprendizagem por meio da comunicação, e assim, a memória é passada por gerações e se mantém viva.

Por outro lado, discutimos também como a troca de saberes e de valores é realizada de forma dinâmica e recíproca, como ocorre com a interação de Miguel e a vovó Inês, que consegue retornar à música um papel mais positivo dentro da família. Um aspecto muito importante do filme que está presente em todas as cenas, mas que não é discutida explicitamente é a importância dessa aprendizagem e dessa interação entre as diferentes gerações, já que é o que permite que todos, independentemente de sua idade, continuem aprendendo e crescendo e também o que permite perpetuar a memória de algo ou de alguém. 

Por consequência, discutimos o papel da memória, um aspecto relevante no filme dada a construção de que a lembrança dos membros da família é o que permite a visita dos mortos no “mundo dos vivos” e, além disso, permite que eles não desapareçam do mundo dos mortos para sempre. Ou seja, no filme, de forma lúdica, é apresentada a tradição e ancestralidade – os valores que são passados e unem ou separam as famílias.

Outro ponto abordado nas nossas falas foi a finitude como tabu e a inválida correlação da velhice com a morte. Buscando trazer a temática para a vida de todos os ouvintes, convidamos para a reflexão sobre a morte e para pensar a configuração das próprias famílias. Diferenciando um pouco a cultura mexicana retratada no filme e a do Brasil, também questionamos: como o modelo matriarcal e a diferença do lugar da mulher com o passar dos anos se dá no filme? E em nossos cotidianos?  

Concomitante a isso, a cultura e a educação aparecem como alternativas e estratégias para a promoção de diálogos intergeracionais – provando que o ageísmo possivelmente é fruto de ausência de contato entre gerações. Em suma, o que nos levou a discutir o filme, foi a possibilidade de apresentar a música e o cinema como instrumentos na convivência intergeracional. 

Sendo assim, ao considerarmos que muitas vezes as relações entre pessoas de diferentes gerações são mediadas por dificuldades tanto burocráticas quanto subjetivas, a música é uma possibilidade de manutenção da memória do idoso – sendo usada até em tratamentos de Alzheimer – e o filme pode gerar discussões com troca de visões intergeracionais, pois por ser uma obra cultural é uma incitadora de debates que partem das experiências individuais de cada telespectador. 

Por fim, acreditamos que o filme “Viva! A vida é uma festa!” é uma admirável linda expressão de relações intergeracionais dentro de uma família. O longa trouxe diversas reflexões diferentes para cada membro do grupo dentro dessa temática, permitindo associações com a teoria e também com nossas próprias convivências intergeracionais familiares. Além de ser uma proveitosa experiência cultural e emocional, é extremamente valiosa por permitir essa discussão sobre família, valores e relacionamentos. 

Ouça agora o podcast

Referências
ATERCEIRAIDADE, Estudos sobre Envelhecimento. Seminário Encontro de Gerações,Vol. 22 – Nº 50 – março de 201. Disponível em: https://www.sescsp.org.br/online/artigo/6425_PROGRAMAS+INTERGERACIONAIS+NO+BRASIL 

BORELLA, Joel Fernando. Um estudo sobre Memória e Consciência Política em diálogos Intergeracionais. Tese doutorado defendida no Programa de Psicologia da PUC-SP, 2019. <https://tede2.pucsp.br/bitstream/handle/22584/2/Joel%20Fernando%20Borella.pdf> Acessado em: 18/11/2020

DA MOTTA, Alda Britto. Gênero e Geração: de articulação fundante a “mistura indigesta”. Imagens da mulher na cultura contemporânea, p. 35, 2002. Disponível em:  <http://www.neim.ufba.br/site/arquivos/file/imagens.pdf#page=36> Acessado em: 18/11/2020 

FEIXA, Carles; LECCARDI, Carmem. O conceito de geração nas teorias sobre juventude. Sociedade e Estado, [S.L.], v. 25, n. 2, p. 185-204, ago. 2010. FapUNIFESP (SciELO). Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1590/s0102-69922010000200003.> Acessado em: 18/11/2020

(*) Ana Laura Lozato, Chiara Tedeschi, Julia Kim, Marcella Munhoz e Paula Vianna – Alunas da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde, curso de Psicologia, eletiva Relações Intergeracionais mediadas pela Tecnologia, que teve como docente a profa. Beltrina Côrte, no segundo semestre de 2020, durante a pandemia. E-mail: [email protected]


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