Pior não é para quem vai e sim para quem fica

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Quando alguém é preso, geralmente não vai para a cadeia sozinho pagar pelo crime que cometeu. Junto vão muitas mães, irmãs, esposas, filhas, avós que, religiosamente, fazem filas nas portas dos centros de detenção e presídios, desde as primeiras horas nos dias de visita. Um lanche, um bolo de fubá, revistas, pilhas para o radinho, uma muda de roupa, pacotes de cigarros – que servem de moeda e diversão. No final, a pena de muitas dessas mulheres termina no dia em que seus filhos, maridos, pais, irmãos deixam a cadeia. Quando deixam.

Leonardo Sakamoto *

 

(É triste que as mesmas filas não se formem do lado de fora dos presídios femininos. A quantidade de companheiros e familiares que vão visitar mulheres encarceradas são em número vergonhosamente menor, uma vez que a quantidade de mulheres nessa situação que são abandonadas é bem maior que a de homens. Mulheres, com notáveis exceções, têm sido criadas para acompanhar e servir. Homens para serem idiotas e egoístas.)

É doloroso viver com uma parte de você em outro lugar. Uma perda que não se completa, sobre a qual não se chora o luto, mas se sente a dor da distância e da saudade.

Incerteza, às vezes, é pior do que a morte, doença ruim que não é causada pelo ar ou água e sim pela distância. Em muitas regiões pobres, principalmente do Nordeste e do Vale do Jequitinhonha, mulheres vêem seus maridos irem embora e dedicam-se a cuidar da casa, da terra, da família. Como os homens passam a maior parte do tempo trabalhando fora, as “viúvas de marido vivo” – como são chamadas a contragosto suas esposas – acabam se tornando assumindo um papel que seria de dois, aguardando um retorno que nem sempre vem.

Nesse meio tempo, o telefone encurta a distância, mas nem sempre. E o peito começa a apertar quando o número de ligações vai escasseando, a freqüência diminuindo, quando a saudade falada já não convence. O coração fica mirradinho, mirradinho. Não são poucos os homens que, longe de casa, arrumam uma outra mulher. Conheci Ritinha durante uma reportagem que fui fazer no Norte de Minas Gerais há muitos anos. Seu marido decidiu ir tentar a sorte em São Paulo. No princípio, foi junto, acompanhá-lo. Antes unidos na dificuldade, do que separados. Pouco depois, ele a mandou de volta. Com o passar do tempo descobriu-se que tinha outra.

Por algum tipo de justiça estranha ou mera coincidência, ele adoeceu em seguida. Na época em que conheci Ritinha, seu ex-marido estava pedindo para voltar. Ela não queria, mas balançava. “É difícil criar os filhos sozinha”, completou sua irmã.

E as novidades não ficam apenas em um novo travesseiro na cama. Às vezes se estendem também para uma nova casa, novos filhos. Enfim, uma nova vida. Eliane, outra pessoa que conheci nas mesmas circunstâncias também no Vale do Jequitinhonha, passou por poucas e boas para ficar com o homem que amava. Com a família de seu marido a detestando, casaram-se. Segundo a sina de muitos sertanejos, ele foi empurrado para ser mão-de-obra barata no corte da cana longe dali. Veio a primeira filha e ele estava longe. No começo, ficava um tempão fora, mas voltava. Um dia foi e não voltou.

Passaram-se meses, anos. No começo, cartas chegavam. Depois foram desaparecendo. O dinheiro idem. Eliane passava dificuldades, mas aguentava na esperança de rever o marido.

De repente reapareceu. Fez um filho e sumiu de novo. Ela, cansada arranjou um outro companheiro. Pouco depois começou a frequentar a igreja evangélica. E então fizeram-na escolher: ou seu companheiro ou Deus, pois ela, uma mulher casada nos laços sagrados do matrimônio, não poderia viver em pecado com seu esposo ainda vivo. Ficou sozinha com Deus. O antigo marido reapareceu mais uma vez e disse que desta vez seria para sempre. Eliane não quis, mas devido à insistência da filha, cedeu. De novo.

Um tempo depois, ele confessou que formou família em São Paulo, com outra filha e tudo. Ela enraiveceu, mas como, segundo ele, tudo tinha acabado, perdoou. As coisas apertaram e voltou às usinas de cana. Então soube que o marido morrera de ataque cardíaco. Na época em que a conheci, trabalhando como empregada, corria para sustentar os filhos e manter-se forte diante das constantes crises de depressão de um deles. Pensão? Nem pensar. Provavelmente a outra família de seu marido é que a recebia do governo.

Desculpem o texto fora de contexto. Tudo isso para dizer que senhoras de cabelos brancos não deveriam tomar chuva e passar frio para visitar seus filhos.

(*) Leonardo Sakamoto é jornalista e doutor em Ciência Política. Ministra aulas na pós-graduação da PUC-SP. É coordenador da ONG Repórter Brasil e seu representante na Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo.

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